Chegamos à final da Copa de Literatura Brasileira 2011. Agradecemos a participação de todos. Leia os pareceres finais dos nosso jurados e deixe o seu comentário!
——————–



Jurados: TODOS + Fernando Torres
——————–
Jurado: MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA
O jurado preferiu não escrever a sua resenha. No entanto, mandou seu voto para O filho da mãe.
O filho da mãe 1 x 0 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: FABIO S. CARDOSO
Apitei a primeira partida de O filho da mãe na presente edição da Copa de Literatura Brasileira. Naquela ocasião, o placar não apenas foi favorável ao livro de Bernardo Carvalho, mas, essencialmente, considerou a obra peça literária de destaque significativo na produção contemporânea. Tal avaliação poderia servir como espécie de aviso sobre a escolha deste jogo final. Não é. O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias, é o vencedor dessa disputa. Os detalhes da partida, nos parágrafos a seguir.
Noves fora os livros tratarem de dois parceiros comerciais do Brasil no âmbito dos Brics (a saber, Rússia e China), no tocante à proposta narrativa, ambos os livros possuem a intersecção com o estrangeiro, o outro. No livro de Carvalho, esse mote serve como matéria da narrativa, isto é, não se trata de mera ambientação, uma vez que a história de O filho da mãe alcança sentido porque se passa na Rússia dos anos 2000, utilizando a disputa entre Chechênia e Rússia, e humanizando esse caso a partir dos encontros e desencontros entre mães e filhos. Autor consciente e certo de onde pretende chegar, Bernardo Carvalho consegue dominar com maestria a técnica de construir um quebra-cabeças que não serve apenas de adorno; antes, é parte elementar da história que o narrador pretende contar – a história das mães tristes demais, como se seu destino estivesse inexoravelmente traçado desde a eternidade para o sofrimento, a perda, a dor, a ausência. No limite, fosse de outro jeito, o efeito da história não teria o mesmo impacto ou o mesmo efeito de sentido junto ao leitor.
Ricardo Lísias, por sua vez, articula o aspecto do outro, a princípio, como passagem para a formação do personagem fundamental de seu romance. Paulo, admirador do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, assim como do modus operandi do mercado de trabalho contemporâneo. Em certa medida, a personagem de Lísias é produto da cultura do executivo das grandes corporações. Se o estilo é o homem, com efeito, Paulo representa o ethos do homem de negócios contemporâneo, atento à maneira de concretizar os negócios e de parecer vencedor, sem deixar transparecer qualquer fraqueza – a não ser quando necessário. O que se lê, portanto, é uma crítica feroz à contemporaneidade, à falibilidade do homem que se assume como perfeito, embora não passe de humano, demasiado humano – tão inseguro, que é capaz de tomar emprestado os símbolos de assertividade, embora esteja tão somente repetindo jargões, gestos e hábitos, como se fosse um autômato. Nesse sentido, é possível observar que, à medida que o romance avança, o protagonista se torna uma caricatura de si mesmo, e desde o nome Paulo tem sua identidade diluída.
É exatamente nesse ponto que o romance de Lísias ganha fôlego e imaginação, ao mesmo tempo em que o livro de Carvalho permanece previsível em sua criatividade esquemática. A história do protagonista de O livro dos mandarins dá conta de um universo particular de maneira densa, aprofundada e sofisticada, enquanto os diversos núcleos de personagens de O filho da mãe, a despeito de terem sido estrategicamente orquestrados, não possuem a mesma dimensão. Nesse quesito, é importante ressaltar que Lísias é um romancista de talento – e por isso é capaz de neutralizar os efeitos emblemáticos da história de Carvalho. Em comparação, Lísias atinge em O livro dos mandarins um nível de excelência que Bernardo Carvalho já havia alcançado anos antes em outro livro, Mongólia. Talvez com aquela equipe, por assim dizer, o resultado fosse outro. Mas, nesse caso, a vitória é de Ricardo Lísias.
O filho da mãe 1 x 1 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: MAURÍCIO RAPOSO
Maurício Raposo não conseguiu mandar seu texto para a final. Mas enviou seu voto para O filho da mãe.
O filho da mãe 2 x 1 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: ERIC NOVELLO
O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, é um grande livro, não resta dúvidas. Sua orelha diz que é “um romance de alta voltagem emocional, sem prejuízo do viés crítico e da complexidade da construção da narrativa”. Essa frase resume bem seus pontos fortes e fracos. O fraco sendo a necessidade de dizer “viu, seu moço leitor, esse é um livro de ação, mas a complexidade narrativa, ó…”. Talvez por isso, ou justamente por isso, durante a leitura de O filho da mãe, tenha atentado mais à estrutura do que à história e aos personagens. E, gosto de enfatizar, minha curtição pessoal como autor e leitor são os personagens.
Ricardo Lísias e seu O livro dos mandarins fazem uma aposta diferente. Aproveitando para comparar orelhas (tenho esse hábito estranho), esta diz que o livro “alia as reviravoltas e o suspense de um thriller a um estilo literário vibrante”. São diferenças sutis, com as duas orelhas apontando a vontade da nossa literatura dita mainstream de ser pop, no bom sentido. Lá em cima, quase se desculpando, aqui embaixo, se divertindo em sua proposta experimental. A estrutura de O livro dos mandarins me lembrou O processo, de Kafka, e o humor ácido com o ambiente “corporativo”, que transforma tudo em um livro de terror para quem já teve que conviver com os Paulos, Paulas e Pauls da vida real.
Uma disputa difícil, tudo o que se espera de uma final, mas humor e experimentalismo sempre terão o meu voto.
O filho da mãe 2 x 2 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: VINÍCIUS CASTRO
Bernardo Carvalho situa o seu livro na Rússia e nos arredores do conflito Checheno, e diz nas entrevistas que o romance seria sobre o amor maternal e as consequências dramáticas de sua proteção irracional. Terminado o romance, não tenho grandes impressões duradouras de nenhum desses dois aspectos. O livro que lembro contém pequenos arcos sustentados de diversas histórias, a maioria brutais, todas se relacionando de maneira opaca, com várias coincidências e pontos dramáticos permanecendo obscuros para os seus personagens, com suas resoluções perceptíveis apenas para os leitores e para a consciência ligeiramente cruel e compassiva que organiza os eventos. O livro é diferente dos outros livros de Bernardo Carvalho, sem narradores paranóicos e sem um protagonista inteligente que tenta desvendar camadas narrativas sedimentadas deixadas pelos mortos. Mas a sensibilidade e a voz são momentaneamente reconhecíveis como as do mesmo escritor de Aberração e Nove noites (o que é bom, sinal da maturidade expressiva do escritor), assim como vários procedimentos narrativos (o uso de cartas e de distanciamentos retóricos da voz narrativa, o homossexual como símbolo bifronte de alteridade). No final das contas, é positivo ver o nosso romancista mais maduro experimentando procedimentos novos, mas acaba que nesse caso isso também significa a denúncia de algumas fraquezas que não se revelam nos seus esforços anteriores, mais controlados. O filho da mãe tenta se apoiar de maneira mais direta em situações dramáticas convencionais, no estofo leve que tenta dar aos seus personagens rapidamente esboçados, e nesse tipo de coisa Carvalho não é exatamente um mestre. Muito da dramaticidade permanece esquemática, muitos personagens preenchem funções pré-determinadas sem tanta liberdade orgânica, não conseguem jamais ganhar voz casual e convincente (o que é dificultado pela situação curiosa de um romancista brasileiro escrevendo sobre russos).
O final do romance tem uma cena um tanto dissociada do resto, e que talvez seja o seu momento mais expressivo. Nela Carvalho parece soltar um pouco das rédeas retóricas que ele mantém sempre tão firmes, permitindo que uma imagem forte se torne um pouco mais estranha do que normal para o seu estilo. É bem interessante, e um bom sinal para os seus próximos trabalhos.
Queria ter falado dos dois romances finalistas ao mesmo tempo, mas Lísias não facilitou o meu trabalho. É difícil falar d’O livro dos mandarins junto de outros livros porque suas características mais importantes são um tanto originais. Já falaram bastante do livro aqui pra que todo leitor da Copa saiba alguma coisa, que o seu narrador onisciente é uma bagunça absurda, prefigurando eventos que nunca acontecem e se dissipando em vozes idiotas e frases-feitas do senso comum, que quase todo mundo no livro se chama Paulo e que seu protagonista vai acumulando os epítetos que lhe apontam até praticamente se esfumaçar.
Muita gente sugere que o nivelamento estranho da linguagem e dos nomes dos personagens no romance se dá por uma sátira/dramatização do mundo corporativo e de suas estruturas malvadas de padronização. Pode até ser, o espírito do livro é bem esse, mas acho que o que acontece é mais complicado e mais interessante do que isso. O livro jamais permanece fixo numa ironia simples, não fica atado demais às premissas formais da sátira a ponto de se esgotar nesse nível. O que Lísias consegue fazer é de uma sofisticação formal muito rara (não só na literatura brasileira): a retórica ficcional do livro – as várias intenções (autorais ou não) que compreendemos por trás da sua voz constituinte e organizadora – vai se dissipando de um jeito tão absurdo e engraçado que eventualmente ressurge um pathos causado por essa própria voz. Se sentimos muito pouco pelos personagens esvaziados de O livro dos mandarins, depois de um tempo começamos a sentir pelo próprio romance (se é que isso faz sentido), pelo seu absurdo insistente que continua a se desenrolar, pela imbecilidade compreensiva do mundo que ele representa e pela dificuldade de se fazer algum sentido no meio da bagunça toda.
Não ficarei tão surpreso se O filho da mãe superar O livro dos mandarins, e nem exatamente frustrado. Bernardo Carvalho é extremamente inteligente, e mesmo um de seus livros menos bem-sucedidos tem sua dose de complexidade e maturidade ficcional. Mas não tenho a menor dúvida de que o livro de Lísias é um livro mais original e mais divertido, que deixa uma impressão duradoura impressa na sua cabeça, talvez sulcada em definitivo. Mesmo o leitor que não se veja surpreendentemente tocado pelo romance (como eu me vi) talvez se veja forçado a admitir sua graça inventiva e a surpresa cognitiva que sua voz oscilante traz. E isso tem que ser reconhecido devidamente. Lísias escreveu um baita livro.
O filho da mãe 2 x 3 O livro dos mandarins
——————–
Jurada: TAMARA SENDER
Para escolher o vencedor numa disputa entre livros de dois autores talentosos, em que não existe um desnível de qualidade tão evidente, utilizei um critério que só se justifica por meu interesse maior em certas obras de ficção que em outras – não tenho, portanto, nenhuma pretensão de objetividade. Se O filho da mãe é um livro controlado, tecnicamente correto, bem-sucedido em sua tentativa de entrelaçar personagens diversos num enredo complexo, O livro dos mandarins aposta num personagem convencional do mundo corporativo, com ambições típicas e desprovido de idiossincrasias existenciais.
O que poderia parecer uma desvantagem para o romance de Ricardo Lísias se revela a chave para a compreensão do seu mérito – pois, na comparação com Paulo, protagonista de O livro dos mandarins, os personagens de Bernardo Carvalho parecem sem força e incapazes de despertar a empatia do leitor. Partindo de matéria a priori tão trivial, Lísias escreve um romance singular e iconoclasta, praticamente uma chutação de balde nos critérios (?) mais usuais de sofisticação e erudição literárias. Já Bernardo Carvalho volta a investir na grandiloquência temática dos problemas socialmente relevantes, associada ao domínio formal das técnicas narrativas modernas que sempre garantem aos seus livros uma qualidade estilística acima da média.
Entre a ironia que a voz de Lísias adquire ao lidar com um universo de referências aparentemente desprovido de interesse literário e a zona de conforto pela qual transita Bernardo Carvalho, fico com O livro dos mandarins.
O filho da mãe 2 x 4 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: LUCAS MURTINHO
Independente do meu voto, torço para Lísias. Tivemos, há algum tempo, numa semifinada rede social, um entrevero que o levou a abandonar uma comunidade virtual sobre prosa contemporânea. Acredito que mágoas não tenham sido guardadas, mas ainda assim não gostaria que a Copa fosse acusada de parcialidade, e a vitória de Lísias evitaria a acusação.
Independente da minha torcida, voto em Lísias. O livro dos mandarins demorou para me conquistar. Além de sua primeira parte dedicar muito espaço a uma crítica do mundo corporativista que me pareceu fácil e pouco inspirada, o estilo fortemente dependente de repetições e lugares-comuns me fez pensar em O paraíso é bem bacana, ponto alto da literatura brasileira do século XXI, e a comparação foi inevitavelmente desfavorável ao livro de Lísias. No fim dessa primeira parte, porém, uma virada narrativa espetacular me prendeu ao livro, e não o larguei mais. O fim abrupto me decepcionou um pouco, mas O livro dos mandarins é uma obra que merece atenção.
Não sei se cheguei a escrever, mas certamente já pensei que Bernardo Carvalho é o autor brasileiro contemporâneo em cuja grandeza futura eu apostaria com mais segurança. Não existisse O paraíso é bem bacana, seria Nove noites meu romance brasileiro preferido do terceiro milênio. Mas O filho da mãe é uma história que não parece corresponder ao estilo do seu autor. O excesso de personagens priva Carvalho do espaço para apresentá-los, desenvolvê-los e, mais importante dada sua obra pregressa, questioná-los. Com o triplo de caracteres, talvez Carvalho tivesse escrito um grande épico pós-moderno. Da forma como o livro está, ficou faltando algo.
O filho da mãe 2 x 5 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: KELVIN FALCÃO KLEIN
Uma final especial, formada por dois dos melhores escritores em atividade no Brasil – autores que já estabeleceram uma ampla expectativa com relação àquilo que virão a produzir. No caso de Bernardo Carvalho, é difícil pensar em O filho da mãe sem pensar em todo o resto, em todos os outros livros que formam esse conjunto tão sólido e tão esteticamente forte que é sua obra. Ainda que aponte para uma mudança de rumo quando confrontado com os livros anteriores (o tom de voz surgido no “Epílogo” é algo que eu gostaria de ver mais e melhor nos próximos romances do autor), O filho da mãe sai enfraquecido dessa acumulação – tanto seus erros quanto seus acertos ficam diluídos. O livro dos mandarins, por outro lado, é muito mais complexo que seu autor e está muito distante dos livros realizados antes dele, tornando-se um obstáculo para tudo que vier daqui pra frente (dentro da literatura brasileira contemporânea como um todo). Diante de O livro dos mandarins, não há margem de manobra, não há um campo referencial pacífico: seu manejo da linguagem é radical, seu tema é exasperante; ocupará os leitores por muito tempo. E, para mim, vence a Copa.
O filho da mãe 2 x 6 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: BERNARDO BRAYNER
(…) quando comprei o Livro dos Mandarins em 2009, já acompanhava a produção anterior de Ricardo Lísias, gostava bastante de Anna O…
quando encontrei o Livro dos Mandarins, fiquei fissurado naquela linguagem, demorei a entrar no livro, foram 3 dias para conseguir isso, ja que nao possuia muito tempo e estava bastante estrassado com o trabalho, mas fui na raça mesmo… nunca esquecerei daqueles jovens dias…
então, esse é um dos livros que eu mais curto…
na epoca eu estava estressado, ficava com medo de perder meu emprego, sentia muito a pressao, até que finalmente encontrei o livro, o capturei, o livro ficou mais facil para mim, passou aquele medo, la no fundo eu pensava ” qualquer coisa eu leio e relaxo” uhhuhah. Penso nisso até hoje.
até por sinal nessa epoca eu tive um sonho, mais facil ter sido um pesadelo…
eu tava andando num lugar muito estranho, parecia uma caverna, e tava escuro, e eu tava sozinho, andei muito até ver uma saida, quando deixei aquele lugar, vi que era um canion e dava para ver o fundo e a terra era muito seca e eu continuei andando, até que derrepente eu encontrei o Livro, nossa eu respirei muito em paz, até conversei com ele ”vc ta aqui?!?” e ele falava “ta tudo bem agora”.
O filho da mãe 2 x 7 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: ANTÔNIO XERXENESKY
1.Pedi à comissão organizadora que anulasse meu voto.
1.1 Não por achar que estou sendo imparcial, mas sim porque os leitores, ao verem minha decisão, podem localizar, na 2ª edição de meu livro Areia nos dentes, um “blurb” elogioso de Ricardo Lísias ao meu romance, e achar que meu voto é por “amizade”, “troca de favores”, ou algo assim.
1.2 De qualquer forma, me disseram que só anulariam meu voto se ele fosse decisivo.
2. Vamos ao que interessa (serei breve, brevíssimo).
2.1. Se Bernardo Carvalho e Ricardo Lísias tiverem, neste mesmo instante, um ataque cardíaco e morrerem, eu diria que Bernardo Carvalho provavelmente “foi” um escritor melhor.
2.2 A carreira de B.C. é sólida como a de poucos brasileiros contemporâneos. Desde seu primeiro livro, ele vem construindo uma obra consistente, com temas e formas recorrentes, mas não repetitivas.
2.2.1 O apuro técnico de B.C. impressiona. Ele nunca soa como um amador ou iniciante. Nem mesmo quando era um iniciante (ver: Aberração).
2.2.2 Ele é, de certo modo, “nosso escritor sério”. Aquele interessado em discutir “questões sérias” de “forma séria”. Ele é um prato cheio para acadêmicos. Quantas relações podem ser traçadas entre Nove noites e a antropologia?
2.2.3 Um amigo me disse, certa vez, que se Bernardo Carvalho fosse inglês, seria tão idolatrado quanto um Ian McEwan. Será?
2.3 Já Ricardo Lísias, se morresse no mesmo dia que Bernardo Carvalho, talvez não “permanecesse” como B.C. provavelmente “permanecerá”. Sua carreira não tem a mesma consistência. Ainda que certas formas sejam recorrentes (ver: a repetição nervosa e sintomática), antes de O livro dos mandarins, não havia muito o que destacar na produção do autor, que lançou algumas novelas interessantes, mas irregulares, muitas vezes derivadas demais de Kafka.
2.4 Claro, os dois não acabam de morrer neste instante (espero), então Lísias continuará produzindo e nada impede que sua carreira se torne tão interessante quanto etc. etc. etc. etc. etc.
3. Todavia, não estamos comparando escritores e suas carreiras. O objetivo da CLB não é ver quem produziu mais coisa bacana no passado ou quem tem o melhor corte de cabelo. O embate é entre livros, não autores.
3.1 É aí que o bicho pega, gurizada. O filho da mãe apresenta um Bernardo Carvalho no piloto automático. Antes fiz a defesa da carreira dele construída por recorrências estilísticas (uma história contada de vários pontos de vista) e temáticas (contato com outra cultura, homossexualismo). No seu último romance, isso pesa para o lado negativo. O filho da mãe não toma riscos. Não se trata de um romance ruim porque Carvalho parece incapaz de escrever um livro ruim. Mas também não acrescenta nada à sua obra.
3.2 Já O livro dos mandarins, meus camaradas, que salto. Podemos traçar a origem do romance no conto que o autor publicou na revista Granta, um conto com nomes repetidos, doppelgängers e uma trama amalucada. Tudo isso foi expandido e melhorado em O livro dos mandarins.
3.2.1 Quando o leitor abre o grosso volume, realmente não imagina todos os labirintos que Lísias o fará percorrer. Esse é um livro realmente enganoso. Até o índice, com seus títulos de capítulo, é enganoso. Sinto certo receio de discutir o romance, com medo de que vá revelar coisas na trama que estragarão as surpresas de quem ainda não leu.
3.2.2 O recurso das repetições enquanto sintomas de um desvio intelectual/moral/psicológico do protagonista, tão comum nas narrativas de André Sant’Anna, ganham diferentes usos aqui. Nomenclatura: essa talvez seja uma chave de leitura de O livro dos mandarins. A maneira como o narrador/protagonista (o narrador não é o protagonista, todavia está contagiado por ele) nomeia cada objeto, pessoa e local que entra em contato – é isso que prende o interesse do leitor e que, de certa forma, faz a trama avançar, pois sinaliza as mudanças no personagem principal, o arco pelo qual ele passa.
4. Falei que seria breve, e assim fui. O livro dos mandarins é imprevisível, vigoroso, “experimental no bom sentido”, por isso ganha meu voto. Ficarei feliz da vida se levar o prêmio de campeão da Copa.
O filho da mãe 2 x 8 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: LEANDRO OLIVEIRA
Com o desenvolvimento da internet e de suas várias ferramentas de expressão é quase imprescindível hoje que as pessoas tenham opiniões sobre os mais diversos assuntos. Pouco, ou muito pouco, se faz para persuadir o sujeito a avaliar sua própria capacidade de opinar num ou noutro tema, mesmo que seja um tema que ele conheça de modo superficial. Por isso o que digo aqui poderá soar anacrônico. O fato é que a leitura dos dois romances me fez pensar sobre minha própria capacidade de avaliação de obras literárias. Não sei ao certo se tomo a melhor decisão e se meu voto realmente refletirá o resultado da minha capacidade de avaliação, embora tenha (creio) argumentos que embasarão essa escolha.
O resultado é que, embora tenha sentido maior prazer na leitura de O filho da mãe, meu voto vai para O livro dos mandarins. Esse conjunto de sensações que rotulo como “sentir maior prazer na leitura” se refere a apenas um item na avaliação de um leitor, mas que pesa bastante no final das contas: a estética. O texto de Bernardo Carvalho me atrai, leio seus livros com facilidade, uma página puxa outra e no fim, o resumo é aquele “gostei” que muitas vezes parece inócuo – especialmente num tempo em que qualquer um que possua uma conta no Facebook clica num botão para avaliar algo sem nem ao menos acabar a leitura. Mas – ao contrário dos botões do Facebook – o leitor gostar de um livro ainda é algo importante, embora em muitos círculos a sistematização do pensamento tem sido tamanha que dificilmente ouvimos algum resenhista ou crítico literário dizer que gosta da leitura deste ou daquele autor. Contar bem uma boa história – antes característica fundamental para qualquer bom escritor – tornou-se quase um defeito. Discordo desse pensamento que iguala alguns dos maiores escritores a talentosos alunos capazes de escrever uma bela redação. Esse é o maior elogio que poderia fazer a uma obra com uma linguagem tão atraente como O filho da mãe e insisto nesse elogio a quem me pergunta sobre o livro.
Ao mesmo tempo, porém, renegar boa parte do que me move a apreciar a literatura por simplesmente elevar essa qualidade a um patamar que desconsiderasse tantas outras belas características de O livro dos mandarins seria como adotar uma visão míope, um erro para alguém que se esforça tanto em perceber detalhes. A obra, em primeiro lugar, é arriscada, tentando abrir espaço por novos terrenos da literatura e da linguagem. Por exemplo, seu narrador é de uma complexidade absurda. Quem está contando a história? O Lísias autor? O Paulo personagem? Os dois? Ou nenhum deles? Outro ponto: o resultado final dessa escrita. O livro dos mandarins que está sendo pensado no enredo é o mesmo livro que temos em mãos e que tem o mesmo título? Como chegamos a um entendimento tão contrário ao que está sendo narrado? O livro de Lísias parece aquele médico que está numa festa e usa um vocabulário próprio que leigos não conseguem entender. Seu objetivo não é usar a linguagem para comunicar, mas para construir uma identidade. O livro dos mandarins repete frases surradas dos manuais de auto-ajuda empresarial, mas o resultado é exatamente o oposto: o exemplo de sucesso é, na verdade, fracasso e as qualidades do bom profissional são canalhices. Por último, é preciso destacar a qualidade da narrativa, com a forma sendo moldada em função do conteúdo. Por isso, o caráter pedagógico da repetição, como base de construção da obra, o desfilar de estereótipos e lugares-comuns, como estratégia de esvaziamento da identidade e crítica ao capitalismo, as frases truncadas como reflexo da ausência de coerência e coesão do discurso da auto-ajuda empresarial, o uso de um vocabulário que apaga emoções, refletindo a racionalização da vida em favor do acúmulo de capital. Tudo isso sem citar sua principal característica: o humor. A sátira ao absurdo realista do ambiente de auto-escalão empresarial, com sua admiração a Fernando Henrique Cardoso, as descrições fantasiosas de platitudes, melhoradas por ghost-writters, o hiperbólico olhar somente para si mesmo, transformando a realidade medíocre em imagens de oportunidades maravilhosas, tudo isso faz de O livro dos mandarins uma obra cruelmente benigna. Esse é, enfim, o livro do ano.
O filho da mãe 2 x 9 O livro dos mandarins
——————–
Jurada: SIMONE CAMPOS
Estou feliz. Dois livros muito bons chegaram à final da Copa de Literatura Brasileira deste ano – na minha opinião de apitante veterana, algo sem precedentes. Menção honrosa seja feita à pesquisa extenuante que certamente foi feita para ambos, e, principalmente, ao fato desta pesquisa não ter comparecido de forma pesada. O livro de Bernardo Carvalho é corajoso por nos fazer questionar a simbologia da mãe como bondade pura, e bom porque trama e narrativa têm a qualidade habitual no autor. O livro de Ricardo Lísias, cuja partida de quartas de final apitei, é corajoso por se propor a bandeirante na inexplorada selva corporativa brasileira e bom porque surpreende com método e trilha escolhidos para levar a empreitada a cabo.
Pela originalidade escandalosa sem prejuízo do “algo a dizer”, ganha O livro dos mandarins, no photochart, por um focinho.
O filho da mãe 2 x 10 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Os dois competidores são a antítese acabada um do outro: O filho da mãe é mais curto, escrito em prosa cuidada. O livro de Lísias é longo, cheio de repetições estilísticas que parecem torná-lo ainda mais longo e escrito em uma prosa que busca emular o estilo entre o burocrático e o demente que seu protagonista, Paulo, pretende usar na redação de seu ambicionado O livro dos mandarins, seu futuro best-seller de negócios baseado na sua suposta experiência como CEO na China. É um sarcasmo deliberado ao mundo das grandes corporações — principalmente à sua versão tupiniquim, sempre disposta a importar acriticamente micagens estrangeiras de gerenciamento. FdM tem as qualidades da prosa bem pensada de Bernardo Carvalho, mas não se equipara a grandes obras do autor como Nove noites e Mongólia. Já LdM, com todos os problemas que sua extensão e estilo acarretam, representa um tipo de livro que parece fazer falta em nossa literatura: a sátira que não descamba para o “engraçadinho” e apresenta sua vítima sob uma luz crua e virulenta. Provavelmente LdM não tem uma história tão fascinante que daqui a séculos possa ser lida apenas por suas peripécias imaginativas, perdendo-se as referências (como acontece com o Gulliver de Swift). Mas no aqui e agora de nossa literatura, é, dos dois, o mais relevante (palavra pomposa essa). E por essa razão, é o vencedor.
O filho da mãe 2 x 11 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: DR. PLAUSÍVEL
O filho da mãe é um livro gostável, mas morno… Não me convenceu como narrativa nem dos problemas da Rússia, nem da dor de mães órfãs de seus filhos, nem dos martírios da guerra, nem do amor homossexual. Tampouco me convenceu como amostra de boa escrita. Muitos trechos de oFdM têm problemas de nitidez ou de semântica funcional. Achei os exemplos abaixo abrindo o livro a esmo. Das quatro páginas q reli, três tinham problemas –talvez por coincidência. Notem os negritos:
p.64-65 Acabam de beber as cervejas e saem do bar. … Continuam ao longo do canal. Um deles arremessa a garrafa de cerveja vazia na água, mas acerta alguma coisa no caminho. A garrafa se espatifa contra o casco de um barco amarrado na berma. ¿Como assim, *a* garrafa? ¿Que garrafa? E ¿quê exatamente acontece com ela depois de atirada? ¿Ela *acerta* uma coisa, ou *esbarra* numa coisa q desvia seu curso, fazendo-a bater no barco? Ou ¿essa coisa q ela “acerta” é o barco? Nesse caso, ¿o atirador não viu o barco? Se não viu pq o barco tá abaixo do nível da berma, então ¿como é q a garrafa atinge o *casco*, q é uma concavidade voltada pra baixo? Se não viu pq tava escuro, ¿por quê isso não é dito, meudeudocéu?
p.108 …recebe um soco no estômago e cai. Não consegue respirar. Está contorcido de dor. Demora alguns segundos para se levantar e sair novamente atrás do ladrão. ¿Durante qto tempo ele se contorce de dor pra justificar dizer q *tá* contorcido? Não pode ser “alguns segundos”, ainda mais se não consegue respirar: qdo alguém não consegue respirar, tenta se estirar.
p.192 Vinte homens iam morrer ali mesmo, por sua causa, para tentar salvá-lo. ¿Os homens iam morrer *pra* tentar salvá-lo? ¿É o batalhão suicida? ¿Não seria *ao* tentar?
Tanto oFdM qto seus revisores qto seus leitores (os q não percebem tais detalhes) são vítimas da inespecificidade duma boa porção do português. Os olhos passam por cima de certas palavras e não enxergam o q elas tão *dizendo*. É como se elas denotassem, não objetos e relações, ações e emoções, mas apenas impressões voláteis e avulsas. Justiça seja feita q não é um problema específico de oFdM: quase todos os livros q li nessas quatro edições da CLB são vítimas do mesmo mal. Deve ser um novo estilo em formação. Paciência.
Mas além dos problemas dessa ordem, achei oFdM repleto de lugares-comuns –a que o autor talvez precisou recorrer por inexperiência em tratar da guerra, por não tar embebido em guerra como parte de seu ser. Pro brasileiro, a guerra é um assunto externo, sempre no estrangeiro, uma abstração. Assim, as mães em oFdM são abstrações eufônicas e desossadas –ou soam como abstrações, *mesmo* q tejam baseadas em depoimentos. Sobre o homossexualismo, pode ser pq o assunto tbm teja distante da experiência direta do autor –não sei *nada* sobre Bernardo Carvalho–, mas no romance entre Andrei e Ruslan (aliás, quatro dias e ¿já amando?), alguns trechos q deveriam ocupar um lugar fundamental soam clichezaços, coisas q qqer GLS empunhando um violão em Capoeiro das Letras já compôs em verso e cantou em cima de três acordes. Não eram pra tar no livro dum autor potencialmente festejado pela crítica dum país inteiro.
É irônico q os trechos mais autênticos e interessante de oFdM sejam qdo fala de Dmítri, q é marido e pai. E é decepcionante q, após quase 180 páginas de platitudes, as últimas nove –quase totalmente desmembradas das precedentes– contenham o único trecho com algo original, algo simbólica e emocionalmente expressivo. Chegou tarde demais, pra mim.
No jogo q apitei, já disse quase tudo q tenho a dizer sobre O livro dos mandarins, e é nele q voto.
O filho da mãe 2 x 12 O livro dos mandarins
——————–
Jurado: FERNANDO TORRES
Eu não imaginava ser tão difícil encerrar esta Copa de Literatura Brasileira. Primeiro porque quase tudo já foi dito sobre os livros que aqui chegaram, e o mais importante, por ser a final mais justa de todas as edições da Copa. Nas copas anteriores, alguns favoritos caíram antes da finalíssima. Na edição passada chegaram à final dois azarões e muitas resenhas ressaltaram dar a vitória para o menos pior.
Este ano parece indiscutível que O livro dos mandarins e O filho da mãe são os melhores livros competindo. Por uma ironia, nenhum dos dois foi agraciado nos tradicionais prêmios literários aos quais concorreram.
Em um evento marcado pela injustiça, parece ainda mais irônico pela primeira vez se fazer justiça. Será que ficamos caretas?
* * *
Full disclosure. Ainda que desnecessário. Tenho certa amizade com Ricardo Lísias. Não conheço Bernardo Carvalho pessoalmente.
* * *
Vocês conhecem aquela fórmula, em que um protagonista inapto para o convívio com a sociedade passa pela trama a se transformar e se deformar? Geralmente esse protagonista é artista. Por sinal, em muitas vezes, ele cumpre a jornada do herói, ou sucumbe durante ela.
Então, Paulo é exatamente o oposto disso. Ele nunca se transforma, suas ações são lineares, coerentes, previsíveis… Tudo o que um escritor não busca em seu protagonista. Mas a ironia de Ricardo Lísias o salva, o faz bufão para tripudiarmos de seu neoliberalismoefeagaceano. Paulo é o único personagem que muda durante o romance, apenas enquanto referência aos outros.
Na realidade, a trama construída por Lísias é o verdadeiro protagonista a cumprir a dialética Hegeliana. Formação, deformação e síntese constante. Helicoidal.
Mas o patético é, que ao final da obra, a vingança não se completa. Paulo não sucumbe ao próprio sistema que representa. E nós, que torcemos que suas desventuras afinal o derrotem, saímos derrotados, pois não há qualquer alteração significativa do Status Quo, mas apenas a conformação e acomodação dele.
* * *
Já o livro de Bernardo Carvalho tem um defeito que fica patente logo de início: o título. Lembro-me de um conto de Quim Monzó em que se relata um escritor que escreve um conto perfeito, mas que qualquer tentativa de dar um nome a ele, ou mesmo de se abster e nomeá-lo, estragam o conto por completo. Ao final o joga na lixeira.
Não creio que seja tão radical a ponto de dizer que o título estraga o livro, mas tira dele um certo brilho.
Ao ler, logo percebemos que estamos diante de uma obra bem escrita, bem estruturada, bem pensada. Mas parece faltar um tempero. Fico tentando explicar se “o livro não empolga” ou “não convence”. Mas não sei se chego a entender como um livro com tantas qualidades não me empolga, não me convence.
Lembro de ler algumas “grandes obras” ou “clássicos” que apesar de toda minha dedicação, não cheguei à mesma conclusão de sua fundamentalidade. No fim, acho que o problema está em mim.
* * *
Assim, meu voto fica para O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias.
O filho da mãe 2 x 13 O livro dos mandarins
——————–
Campeão CBL 2010 / 2011
O livro dos mandarins














