


Jurado: Alex Castro
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Para a Copa de Literatura, fui escalado para ler O filho eterno, de Cristovão Tezza, e Rakushisha, de Adriana Lisboa. Dois autores que eu nunca tinha lido escrevendo sobre assuntos que não me interessavam: síndrome de Down e Japão. Pensei: vejamos se um deles consegue me interessar.
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Rakushisha foi escrito com o auxílio de uma bolsa Fellowship, da Fundação Japão, que permitiu à autora viajar a este país. A trama é simples: Haruki, desenhista nissei sem vínculos afetivos ou linguísticos com a terra de seus ancestrais, encarregado de ilustrar a tradução brasileira do diário do poeta Basho, é enviado ao Japão para se inspirar. No metrô do Rio, conhece uma moça, Celina, que lhe pergunta sobre o livro japonês que está carregando. Num impulso, Haruki a convida para ir ao Japão com ele e ela, num impulso, aceita — torrando assim todas as suas economias. Tantos impulsos parecem excessivos e o leitor mais safadinho pode imaginar que estamos prestes a entrar em “nove semanas e meia de amor no Japão”, mas a autora cedo deixa claro que a relação entre os personagens é puramente platônica. Chegando lá, Haruki e Celina logo se separam, e ele some um pouco da trama, que se centra nas andanças da moça em Kyoto, intercalada com trechos dos diários e poesias de Basho.
A partir daí, nada mais acontece, o que não é problemático por si só. Meu romance preferido é Água viva, de Clarice Lispector, e quero ver alguém descrever sua “trama”. Mas, em geral, nos romances em que nada acontece, as personagens embarcam em poderosas viagens internas que lhes causam toda sorte de revelações até que, ao final, literalmente não são mais as mesmas. Não é o caso em Rakushisha: Celina, por exemplo, não muda, não conclui nada. A progressão de sua narrativa é uma revelação de fatos do seu passado para o leitor, mas não uma revelação para si mesma. À medida que Celina andava por Kyoto, nós, os leitores, fomos conhecendo mais sobre seu passado mas ela mesma não mudou, não cresceu, não descobriu nada sobre si mesma. Para Celina, o livro começa como termina.
Existe certa indecisão entre surpresa e não-surpresa que, a meu ver, esvazia o livro de tensão. No começo das reminiscências de Celina, somos apresentandos a Marco e Alice: fica imediatamente claro que são a filha e ex-marido de Celina, e que ambos não estão mais em sua vida; como não existe ex-filha, a hipótese mais provável é a menina ter morrido ou, no mínimo, estar sob a tutela exclusiva do pai em algum local distante. À medida que o romance progride, Celina continua pensando em Marco e Alice, mas sempre em termos vagos e algo misteriosos. No finalzinho do livro, vem a revelação completamente anticlimática: Alice tinha morrido num acidente de carro em que Marco era o motorista!
Confesso que fiquei perdido quanto às intenções da autora. Já me parecia tão óbvio que a menina estava morta que isso ser oferecido como grande revelação surpreendente me soou quase como que um menosprezo à percepção do leitor. Das duas uma: se a autora quisesse que a morte de Alice fosse a grande revelação do final do romance, deveria ter dado menos pistas. Por outro lado, se não era para ser surpresa, o melhor provavelmente teria sido deixar as pistas e eliminar a grande revelação bombástica: os leitores perceptivos preencheriam as lacunas e concluiriam que a menina estava morta. Como está, o final tem gosto de decepção: “era isso o grande mistério? Mas isso eu já sabia desde o meio do livro!”
A narrativa é intercalada com poesia e trechos do diário de Basho. Reli o livro especificamente para encontrar pontes ou conexões entre as citações e a trama do romance, e não consegui: elas me pareceram tão aleatórias quanto à primeira leitura, aumentando assim a impressão amorfa do romance.
Por fim, algumas lições de moral me pareceram um pouco dispensáveis e bastante óbvias até, dignas de um livro de auto-ajuda mas não de um romance. Já na terceira página, quase que dando tom ao livro, podemos ler:
Essa é a verdade da viagem. Eu não sabia.
A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que somos feito a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Mitsuo Basho num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.
Nada poderia ser mais brochante do que esse parágrafo. Além de ser claramente uma tentativa do autor de impor ao leitor a moral da história, é brega.
Uma das minhas regras de revisão é: quando encontrar um trecho particularmente bom, corte-o: os trechos que os autores mais gostam em geral são os piores, os que mais destoam do resto do trabalho. Mas tudo bem, eu penso: todo mundo sempre acaba esquecendo um ou outro. Vai ver esse foi o da Adriana.
Infelizmente, não foi descuido de revisão. No último parágrafo da última página, literalmente fechando o livro, o trecho acima está reproduzido de novo. Ou seja, houve dolo. Única coisa grosseira em um texto tão sutil, a dispensável mensagem foi novamente martelada na cabeça do leitor, para garantir que ninguém saia do livro sem saber que a “verdade da viagem” é que o nosso “único bem” é o “talento para viajar”. Ok, entendi.
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A princípio, confesso, O filho eterno, de Cristovão Tezza, não me apeteceu. Não conheço ninguém com síndrome de Down e o assunto não me interessa. Previa um romance demagogo e apelativo, cheio de momentos “chora agora”: aquelas longas cenas em que você sente que o autor está preparando o terreno e minando sua resistência, até culminar em uma frase de efeito absolutamente brega mas que ainda assim, para seu imenso ódio, te faz chorar.
Ao final de O filho eterno, realmente, sentado sob o sol na varanda de um Starbuck’s de Nova Orleans, eu estava às lágrimas: não por causa de uma cena específica construída pra me fazer vazar, mas por estar na presença de um dos poucos romances realmente grandiosos escritos no Brasil nos últimos anos. E fiquei grato à Copa de Literatura, pois sem ela eu jamais teria tido essa experiência.
Não darei muitos detalhes sobre O filho eterno. É daqueles livros gigantescos e gigantescos que, tomando qualquer tema como mote, seja a caça a uma baleia branca ou a destruição de um arraial no interior da Bahia, rapidamente alçam vôo e abarcam o bem, o mal, a condição humana, a inteligência, a autoria, a paternidade, a masculinidade e tudo o mais.
Um trecho preferido: um dia, o menino se perde. Ao lado do desespero de pai buscando pelo filho, o narrador tem um drama adicional linguístico: depois de anos sistematicamente negando a condição do filho e somente se referindo a ela por eufemismos e tergiversações, ele precisa finalmente… descrevê-lo! Não vai mais poder se enganar ou negar a verdade: se não descrever o filho com precisão, ele jamais será encontrado. Mas como articular o que ele mesmo ainda não aceita completamente?
Teria de achar a palavra certa para explicar, as pessoas não sabem — talvez dizer “você viu meu filho? Ele é um menino com problema”, ou “ele é meio bobo”; ou “ele é deficiente mental”, e tudo aquilo não corresponde nem ao filho nem ao que ele quer dizer para definir o seu filho; ele é uma criança carinhosa mas meio tontinho, talvez assim ficasse melhor; não pode dizer “mongolóide”, que dói, nem “síndrome de Down”.
Freud disse uma vez, sobre Nietszche, que nenhum outro homem tinha tamanho auto-conhecimento. Pensei bastante nisso enquanto lia O filho eterno. Nunca vi nenhum autor (nenhuma pessoa, na verdade) se expor tanto. Jamais, em nenhuma autobiografia, o narrador se mostrou tanto em suas fraquezas, em suas vacilações, em seus pequenos pensamentos mesquinhos. Somente sob o fino véu da ficção isso seria possível.
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O filho eterno, de goleada. Provavelmente vai ganhar a Copa. Feliz do Brasil se produzisse dois livros do nível desse no mesmo ano.










