Jogo 16 – O filho eterno x Rato

Jurado: Luiz Antonio de Assis Brasil

Site/blog: http://www.laab.com.br/

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Prezados desportistas literários: em campo Rato, de Luís Capucho, e O filho eterno, de Cristovão Tezza. O tempo estará sujeito a chuvas e trovoadas. Soa o apito inicial.

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Rato, de Luís Capucho, é uma narrativa que inicialmente privilegia o espaço, descrito sob o ponto de vista de um narrador-protagonista. Sem se nomear ao longo do relato, o rapaz começa por detalhar o entorno, para, em seguida, esmiuçar “Cabeça-de-porco”, apelido do casarão, e cada um dos sobreviventes que o habita. Nesse sentido, a ilustração da capa funciona como convite ao leitor (extra e intratextual) para subir as escadas e entrar no recinto, a fim de percorrer as peças constituintes de “Cabeça-de-porco”: um a um, os moradores lhe serão apresentados. Ademais, a capa denota outra especificidade: o foco apontado para o canto inferior da entrada. Precisamente na página vinte e nove, o leitor dá-se conta do motivo pelo qual a visão narrativa é direcionada de baixo para cima: “Eu sou um rato. Saio da toca sobressaltado, rápido, para conseguir um pouco de comida, mas meu mundo mesmo é a toca.” É, pois, desse viés, sob uma perspectiva homoerótica, que narra o anfitrião. Vou chamá-lo assim, haja vista a posição de “superioridade” que ocupa como filho da responsável administrativa do casarão.

Antes de entrar, ele chama atenção para a sensação de lilás, cor da atmosfera que envolve o ambiente, associada ao cheiro exalado pelos homens. A seguir, o narrador abre o portão de ferro, apontando Peri, que mais adiante ele ressaltará: dei ao cachorro o nome do índio de José de Alencar. Já dentro da casa, descreve os quartos dos hóspedes, a sala, e a pequena peça onde ele e a mãe repartem um beliche, recebem amigos e cozinham.

O anfitrião mostra o primeiro quarto, ocupado por Júlio, alcoólatra de finais de semana; Gaúcho, marinheiro bonito; Carlos, marinheiro nordestino; Oliveira, bonachão expansivo; seu Verúcio, conserta-tudo. Para ele, os hóspedes são, primeiro, avaliados de acordo com o desejo sexual que lhe despertam. Assim, Gaúcho e Carlos, por seus portes físicos e sensualidade, ganham destaque em relação a Oliveira e seu Verúcio. No outro quarto, ficam Guilherme, moreno, alto, com bigodes; Valdir, extrovertido; Arthur, com seqüelas da poliomielite; Antônio, “baixinho, barrigudinho, sofre de ataques de epilepsia”; Amaral, “cara descomplicado”; Jofre, alcoólatra e Plínio, namorado do narrador. Desses, apenas Guilherme e Plínio excitam sexualmente o narrador. Os outros dois — Valdir e Arthur — contrapõem-se a ele e sua mãe, pois encabeçam a resistência ao pagamento do aluguel. Há ainda um quarto onde “moram dois caras estranhos”, e dois últimos aposentos em que residem Ernesto, sobre quem o narrador nada informa, e Nogueira, “velho de barriga enorme e redonda”. A descrição do alpendre e do quintal ocorre a seguir. Na profusão descritiva, a mãe do rapaz é revelada como “de uma bondade burra, irritante, mas a bondade sempre tem razão”. Além das personagens que habitam “Cabeça-de-porco”, o narrador relaciona-se com Ari e sua esposa.

Apresentar os moradores se revela como pretexto para o anfitrião mostrar a si próprio e confessar suas preferências sexuais. Imerso no ato confessional, maneira encontrada para ele manifestar queixas, o anfitrião não desincumbe com eficiência a tarefa a que havia se proposto, já que esquece a existência do leitor, antes convidado a ouvir sua história. Dessa forma, contamina o leitor o tédio que o rapaz afirma sentir acerca de tudo e todos.

O rato, digo, o narrador, não efetua trabalhos domésticos, nem os “considerados masculinos”, não gosta de jogo de futebol, pois é “relacionado ao universo masculino”. Entre o tédio e a vadiagem, o rapaz conta com o amparo financeiro da mãe, que ganha seu sustento lavando as roupas dos hóspedes, já que o dinheiro pago pelos aluguéis, ela repassa à proprietária do imóvel. Justamente aí se instaura o conflito da narrativa. Dona Creuza viaja a fim de visitar um parente hospitalizado; Valdir e Arthur se aproveitam de sua ausência para convencer os outros hóspedes a decretarem a suspensão definitiva do pagamento da locação. O narrador abrigara-se na casa de Ari e aguarda o retorno da mãe.

No entanto, o imobilismo não é o principal traço do protagonista, pois, diariamente, o rato e Plínio percorrem a cidade em busca de um espaço afastado onde possam manter relações sexuais. O desejo, ou o sexo — sua concretização —, portanto, é a mola propulsora da ação. Por conseguinte, na inter-relação do rapaz com as outras personagens, evidencia-se o egocentrismo como sua característica fundamental. Eis o grande entrave da narrativa, visto que não há avanço, nem retrocesso: o narrador continua a esperar, “Cristo pode voltar com seu generoso pau sob fralda de nuvens: bondoso, belo, balsâmico”. Assim, o rato sobrevive do furto do tempo.

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O rato também está presente em O filho eterno, de Cristovão Tezza. Talvez o pequeno mamífero metaforize uma das diferenças entre as duas narrativas, pois “na biblioteca que o mestre deixou na ilha [...] o pequeno rato foi avançando com a voracidade de um arqueólogo, lendo um livro atrás do outro…”

Anos depois, o nascimento de um filho portador de Síndrome de Down é responsável pelo desencadeamento de vários conflitos — internos e externos — na vida do rato, agora um pai desempregado, que acalenta o sonho de se tornar um escritor. Engana-se quem se deixa envolver pela aparente simplicidade do fio narrativo de O filho eterno. A existência de fios paralelos, que garantirão o lastro necessário à tessitura narrativa, constitui o método maiêutico por meio do qual o passado vai desvelando o presente. Nesse processo, os livros, aqueles devorados pelo rato, farão a diferença.

Tomado pelo pânico inicial, o desejo do pai é de se livrar do filho, cuja autonomia está para sempre comprometida. Ele ainda não sabe que a existência se faz por elos que ligam um rito de passagem a outro. Não me refiro ao eterno retorno de um destino inexorável, mas às inúmeras experiências materializadas ao longo da vida. Logo, sem perceber, o pai que “sempre teve alguma ponta de dificuldade para lidar com o afeto” dedica-se ao menino. Paralelamente, entrega-se à escrita de livros, com futuro tão incerto quanto o do filho e o dele mesmo.

Aos dois anos e dois meses após o nascimento, Felipe ensaia os primeiros passos. “A linguagem, no entanto, se atrasa penosamente.” Consideradas as devidas proporções, o pai também trava um embate com a linguagem. Pela palavra impressa no papel intenta organizar o seu mundo. Para o menino, “o tempo será sempre um presente absoluto”. Enquanto cuida do filho, remexe no baú mnemônico e dali puxa as histórias vividas na adolescência e na juventude. O passado se transforma em presente, como também os espaços longínquos: Alemanha e os trabalhos clandestinos; Lisboa e a Revolução dos Cravos; Brasil, ditadura, os amigos daquele período com quem compartilhou sonhos. O resgate do passado significa a procura de peças que precisam ser encaixadas no mapa dos afetos.

Felipe, o pai descobre com o tempo, organiza seu universo pela afetividade. Então, é o afeto que o une às pessoas que o rodeiam, ao time de futebol, aos desenhos na televisão, aos jogos no computador, à pintura. Por sua vez, o menino demonstra amabilidade, mimetizando tanto a realidade circundante quanto os programas exibidos pelos meios de comunicação. Impedidas de desaparecerem, as dificuldades se atenuam, pois “[...] a tentativa de acompanhar o menino exerceu também uma influência inversa, a do filho sobre ele, também um pai com permanente dificuldade para a vida adulta madura, seja isso o que for, ele pensa, sorrindo”.

Assim simplificada, a narrativa O filho eterno perde parte do vigor, caracterizado pela linguagem contundente, que corta tal qual bisturi operando a autópsia da vida. Daí emergem as tramas paralelas cujos fios se entrelaçam à narrativa principal, dando-lhe consistência.

Todavia, mesmo em resumo tão exíguo, torna-se perceptível a semelhança e a diferença entre o narrador de Rato e o pai de O filho eterno. Se de início, ambos são egocêntricos, a necessidade de transformação do pai, bem como o modo catártico de que ela ocorre, diferenciam as narrativa analisadas, já que no final da história de Tezza, para pai e filho “[...] o jogo começa mais uma vez. Nenhum dos dois tem a mínima idéia de como vai acabar, e isso é muito bom.”

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Finda a breve análise das duas narrativas, vamos ao resultado do jogo, com candidatos manifestando grande disparidade entre si. A ausência de uma trama bem elaborada, de narrador e personagens que denotem complexidade psicológica, compromete, inevitavelmente, a performance de Rato, de Luís Capucho. Seu adversário, O filho eterno, é o vencedor, ao revelar uma história muito bem construída. Embora o título remeta ao filho, o pai é a personagem sobre quem recai o foco da história. A partir de sua visão, são expostas — sem subterfúgios — as contradições imanentes ao ser humano. A personagem não somente convence o leitor como o cativa. Assim, percorrer com o narrador (e com o pai) as sendas da narrativa, em um contínuo desvelamento das incoerências denotadas no exame da geografia dos afetos, é uma grande compensação estética e, principalmente, humana.

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