Jogo 9 – O amor não tem bons sentimentos x O dia Mastroianni

Jurado: Leandro Oliveira

Site/blog: http://odisseialiteraria.com/

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A avaliação de livros tão distintos torna necessário encontrar elementos que possam conduzir o veredicto a algo mais claro que um simples “gostei mais desse do que aquele”. Nesse sentido elenquei quatro aspectos que fixaram minha atenção durante a leitura das duas obras. O primeiro foi reconhecer as idéias contidas no enredo das obras. Ligado a isso, o segundo passo foi avaliar a originalidade dessas idéias — afinal mesmo os temas mais comuns da literatura podem interessar ao leitor se forem explorados dum modo original. Estando bem claros esses dois primeiros pontos, é mais fácil avaliar o terceiro aspecto: o modo como a história é contada, ou seja, o estilo de cada autor. Em último lugar, cabe avaliar a capacidade de construção de personagens que interessam aos leitores.

O amor não tem bons sentimentos é um longo delírio do atormentado narrador, que encontra a prima morta. Hipóteses são apresentadas e refutadas formando uma narrativa de contradições e nonsense, tendo a família como um núcleo opressor. A base desse núcleo é Dolores, a mãe do narrador, que o abandonou quando criança e posteriormente foi presa, acusada de matar o marido. No delírio do narrador rondam elementos sexuais e de morte, uma espécie de embate contínuo entre Eros e Tanatos. Sem dúvida, o ponto forte do livro é a qualidade do texto de Carrero, reflexo de um escritor maduro e experiente. Porém, infelizmente, somente um texto bem escrito não é capaz de sustentar o interesse do leitor e, basicamente, esse é seu maior defeito.

Os circunlóquios do texto não tornam as idéias mais interessantes ou intrincadas. Essa ausência de desenvolvimento da idéia principal — que não vai além da tematização da loucura — faz parecer que a falta de originalidade é resultado, na verdade, da ausência de idéias que sustentariam toda a loucura do personagem. O tom também não incita à curiosidade sobre a ação (que, aliás, poderia surgir naturalmente em torno da morte da menina, como num thriller, por exemplo). No fim, o interesse pelos personagens foi convertido em enfado.

Abrir o livro e ter na primeira página uma citação de Baudelaire num enredo em que os dois personagens principais apenas transitam por lugares com o objetivo de farrear: assim é O dia Mastroianni. A figura do flâneur é importante porque nos diz que tudo ali espelha algo, e já no início o leitor reconhece o que é: o olhar inverso do escritor sobre a crítica. Mas nada é sério e o olhar é cheio de humor e ironia. A dupla itinerante, Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, é engraçada demais para ter seus modos rebatidos por contra-argumentos sérios dos críticos. Também o autor não cai na armadilha de utilizar a ficção como recalque para um acerto de contas com desafetos. À medida que os outros personagens são apresentados, o leitor se rende à brincadeira e passa rir de todo o desdém contido na história.

As marcas da contemporaneidade que tanto incomodam alguns críticos, como as cenas de sexo, a banalidade do enredo ou o niilismo de personagens, estão todas em O dia Mastroianni. Cuenca faz uso proposital desses elementos para ironizar as tentativas que vemos frequentemente de classificar uma diversidade de escritores contemporâneos (inclusive ele) como seguidores de Rubem Fonseca ou dos beats americanos. Mostra que na literatura não existe imposição de regras do que pode ou não pode ser feito e sim escritores que utilizam recursos de um modo bom ou ruim. E Cuenca faz, sem dúvida, bom uso do que tem na mão. As piadas autodepreciativas, com ironia por todo lado, mostram um escritor que se recusa a rezar pela cartilha do que se deve ou não fazer na literatura. Ao transformar os pontos de vista de críticos em clichês, Cuenca vira a mesa. Sua obra conversa com a tradição, ao mesmo tempo em que afirma o contemporâneo do caos cultural em que vivemos. Suas referências são cultas — literárias com Beckett, musicais com Tom Jobim e Miles Davis ou cinematográficas com Fellini —, mas também pops — com desenhos animados, como o Mxyzptlk da Liga da Justiça. Desse balaio de gatos saiu um livro engraçado, original e surpreendente.

Cuenca pode não ter o estilo maduro de Carrero: seu texto tem defeitos — pessoalmente achei desnecessárias as passagens em que uma voz explicita recursos da obra para criticá-los em seguida —, mas ganha de O amor não tem bons sentimentos nos outros três aspectos. Com isso, enquanto o livro de Carrero diminui a cada página, a obra de Cuenca cresce, fazendo o leitor se divertir com o inusitado do enredo. Por tudo isso, avança O dia Mastroianni.

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