


Jurada: Simone Campos
Site/blog: http://simonecampos.blogspot.com/
Sobre: É escritora, tradutora e produtora editorial. Estreou na literatura aos 17 anos, com o romance No shopping (7Letras, 2000). Desde então, participou de diversas antologias, como Geração 90: Os transgressores e 25 mulheres. Em 2006, publicou seu segundo romance em papel, A feia noite (7Letras), e em 2007 a ficção científica online Penados y rebeldes. Em 2009 publicou seu primeiro livro de contos, Amostragem complexa (7Letras), patrocinado pelo programa Petrobras Cultural. Participou das duas edições anteriores da Copa de Literatura Brasileira.
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O que me chamou a atenção de chofre foi o tanto que O verão do Chibo e Galiléia têm em comum: são ambos livros rurais, usam narradores não-confiáveis, fragmentam a narrativa e… são do selo Alfaguara. Apesar disso, não podiam ser mais diferentes.
Tem muita coisa certa com O verão do Chibo, muita coisa mesmo — como não ser mais um romance de jovem autor em área urbana com narrador blasé —, mas falta brilho.
Seu narrador tem o vocabulário e as referências literárias de um paulistano de vinte e tantos anos, mas brande acessórios de infância idílica rural — figurinhas, amigos imaginários e insetos amestrados. Entendi. O narrador não é uma criança literal. Na literatura, quase nenhuma é. Penso em Senhor das moscas (William Golding), em João Carlos Marinho e sua Turma do Gordo e em Ranxerox (HQ de Liberatore). Penso também em Escola para bobos (Sokolov). E pensando neles concluo que, em O verão do Chibo, o encaixe ficou forçado.
O verão de Chibo foi escrito por dois autores, Emilio Fraia e Vanessa Barbara. Para mim, a costura do texto é aparente. Vejo duas personalidades distintas escrevendo, personalidades essas que talvez nem correspondam a cada autor. Isso não me incomoda, exceto por ter gostado muito mais de uma delas. Parece que uma está tecendo um sentido que a outra destece meio atabalhoadamente.
Gosto de audácia, mas falta recompensar o leitor para seguir aturando a experiência. Faltam pepitas pelo caminho. O livro é chato… No penúltimo capítulo melhora um pouco. No começo, longas descrições de brincadeiras, com contradições e invenções enxertadas pelo narrador para tentar tornar aquilo mais interessante (ele sabe que está sendo ouvido e julgado). Um milharal, ingrediente de filme de terror, com uma área proibida. Não dá medo, nem entretém: não transcende a página.
Os ingredientes estão todos no lugar. Eu os vejo em seu lugar. Mas escrever um bom livro talvez não seja receita de bolo. Ou talvez seja exatamente que nem bolo: fica ruim sem o ingrediente secreto.
Sobre este ingrediente secreto, suspeito que ele nem possa ser captado por termos como “ter o que dizer” ou “experiência de vida”. O ingrediente secreto está nas entrelinhas; é ele que faz um livro ser melhor ou mais querido que o outro. Há muitos livros importantes sem o ingrediente secreto, mas esses livros não são queridos nem necessariamente bons.
Não quero com isso dar na cabeça do cozinheiro e cozinheira, só dizer que, como nerd, encafifei: então não basta cumprir tudo o que o livro de receitas manda? Não basta ser esforçado e aplicado? Ainda tem que ter mão boa pra massa? Pois é, oficinas literárias, pois é…
Juro que estou decepcionada com este insight e que queria muito que Chibo fosse ótimo e me arrebatasse.
Leio a sinopse de Galiléia: “três primos atravessam o sertão cearense para visitar o avô, patriarca que definha na sede da fazenda Galiléia”. Penso que aquele livro vai me matar de tédio. Quem quer saber de velório no meio do mato? Eu não.
Mas Galiléia se passa mais na cabeça e nos corações dos homens do que no mato. É bom não ser chauvinista de rejeitar (ou aprovar) um romance pela sinopse ou ambientação — aprendi isso quando li Ruffato (quem quer saber de migrantes?, etc.). Leia pelo menos uma página, aí desista.
Li a primeira página e fui até a 45. Da 45 fui à 65. Da 65 à 117, e da 117 quase ao final. E não, não estava fácil, o livro exigia de mim, eu voltava atrás e conferia coisas — como quem era o narrador daquela vez, e se o que ele falou batia com o que o outro tinha falado. Às vezes, simplesmente pra saborear de novo alguma passagem. Ainda assim, debelei Galiléia em poucas sentadas — ao contrário de Chibo, livro de 115 páginas que me tomou quase o tempo do maisquememória (400 pg.) para ser lido.
Galiléia é dois em um: romanção e romancinho. É romanção porque tem um clã — com questões mal-resolvidas que talvez venham de séculos. É romancinho porque é curto (236 pg.) e espiamos esse clã pelo buraco da fechadura, conforme as vozes dos personagens vão se alternando. Formamos nossa própria imagem bullet-time.
Certos filmes antigos nos parecem hoje muito lentos, pois quanto mais nos fomos acostumando à linguagem do cinema, mais as elipses foram sendo toleradas. Hoje, via de regra, um homem não precisa mais ser visto dando um beijo na família, descendo de elevador, entrando no carro, dirigindo, estacionando e trancando o veículo para sabermos que ele foi para o trabalho. Não estamos fascinados com o mero movimento das imagens; exigimos mais. O mesmo aconteceu, talvez por influência, com a literatura: as descrições caudalosas tendem a ser substituídas por símbolos evocativos e/ou referências a um repertório compartilhado. Daí haver tanta Bíblia (e sociologia) no livro.
Atribuo a isso o fato de muitas das cenas de Galiléia — não só as cenas-chave — serem arrebatadoras. Foi nitidamente escrito com paixão, mas Ronaldo Correia de Brito não cometeu o erro de muitos apaixonados com algo a dizer: se empolgar com o próprio virtuosismo e empastelar a execução. Se há algum senão, foi ter pesado um pouco a mão nas referências bíblicas — mas talvez o problema seja comigo, pois na época da leitura estava traduzindo um comentário bíblico.
No momento preciso em que li o final, ele me soou abrupto: e a resolução? Mas no momento seguinte eu já estava revendo toda a forma como tinha lido o livro. Aquilo era a resolução. Adonias não tinha ido à fazenda Galiléia se achar, mas se perder. E, por que não dizer?, me soou de alguma forma um final feliz. Missão cumprida. Galiléia tem o ingrediente secreto.










