


Jurado: Leandro Oliveira
Site/blog: http://odisseialiteraria.com/
Sobre: Escreve o blog Odisseia Literária e foi jurado das duas primeiras edições da Copa de Literatura Brasileira.
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Antes do começo do jogo, o autor da resenha e o organizador da Copa gostariam de apresentar aos leitores as mais sinceras e cordiais saudações rubro-negras.
Julgamentos tendem a ser monótonos de tão previsíveis. Em meio a tudo aquilo que nos motiva durante uma leitura, tudo que faz com que nos voltemos para a literatura, surge uma noção caduca de imparcialidade. Dessa noção vem o compromisso com certa coerência racional, com a higienização do nosso pensamento para que surja dali o mais esquemático quadro de virtudes que visa organizar aquilo que foi paixão ou ódio ou indiferença ou qualquer outra manifestação singular que ocorre durante uma leitura. Contrapondo tal método, gostaria de seguir outra direção e indicar aqui o resultado com base em critérios parciais de um ponto de vista pessoal sobre o texto literário. Aqui a analogia com o futebol que nos é trazida à atenção pelo título do concurso não faz o menor sentido porque ao contrário do que ocorre numa partida, cujo vencedor fica óbvio pela leitura do placar, na literatura erros e acertos envolvem um grau de subjetividade que invalida qualquer tentativa de descrição pragmática de suas características.
Tendo em vista tudo isso, é preciso revelar então qual seria a subjetividade que envolve a minha escolha: a capacidade de tirar o leitor de seu estado, movendo-o para outra direção, revigorando a literatura. A tradição literária parece ser costurada como uma delicada colcha de retalhos, onde alguns livros são como tecidos que não combinam, suas cores não tornam mais belo o conjunto. Outros apenas estendem o pano, repetindo linhas, cores ou a harmonia do que já agradava. Os raros são os que criam uma nova beleza, ensinando a ver novas formas e transformando todo o conjunto. A partir desses novos, virão outros similares, que ditarão a tendência do próximo conjunto de cores. São livros assim que me fazem sair de um estado inerte e, por isso, me agradam.
O ponto da partida, de Fernando Molica, parece estar na classe de livros que se costuram à tradição literária apenas estendendo-a. O livro possui um enredo tradicional onde o narrador, a partir da vigília para uma cobertura jornalística de homicídio, começa a rememorar alguns eventos de seu casamento e sua carreira. A leve narrativa começa com algumas histórias bem humoradas de um quase lendário repórter, chamado João Carniça. Esse humor do início é interessante porque cativa o leitor, fazendo com que a leitura engrene, e pouco depois, quando o leitor é apresentado ao repórter Ricardo (o narrador da história), o ritmo faz com que a leitura avance fácil e contribui para a boa impressão deixada. Ótimo, se minha expectativa fosse apenas ler um bom livro. Mas O ponto da partida teve o efeito de uma notícia de jornal: depois de lido passa-se a outro, seu conteúdo esquecido.
Não se trata de dizer que é um livro ruim, pelo contrário; mas não atingiu minhas expectativas — que, novamente ressalto, são bem individuais. Algo bastante positivo que encontrei durante a leitura foi o modo como a visão dos dois protagonistas se modifica ao longo da história. Adélia, a ex-mulher do narrador, no começo é descrita de modo a causar imediata antipatia. No entanto, à medida que a narrativa avança, os tons vão mudando, e ao final, mesmo sendo uma criminosa, nutrimos certa simpatia por ela. No caso de Ricardo ocorre o inverso: no início nos afeiçoamos por seu estilo bon vivant, mas à medida que percebemos o quanto de irresponsável há nesse estilo sua imagem vai ficando cada vez mais arranhada. Essa problematização dos personagens, que nos leva a não saber bem como classificá-los, certamente é a maior qualidade do romance. Porém, apesar disso, mesmo com o interesse durante a leitura da narrativa, ao final não senti nenhum envolvimento com os personagens.
Flores azuis, de Carola Saavedra, intercala cartas de uma mulher abandonada — que assina as cartas apenas com a inicial “A” — e a história de Marcos, um homem que não entende as mulheres ao seu redor — sua ex-mulher e sua filha. A qualidade da narrativa, principalmente as cartas que transtornam o personagem que as recebe aparentemente por engano, logo chama atenção do leitor, mas outra qualidade torna o livro o vencedor da partida. Flores azuis é um livro que se multiplica, contando pelo menos duas histórias — uma simples história de amor e uma análise sofisticada do jogo literário, tornando o próprio leitor parte da estrutura do romance. Tal trabalho narrativo é feito de um modo que demonstra uma escritora capaz de enxergar a tradição e ampliá-la, dando vigor a um gênero que parecia declinar.
Como já foi dito, o romance possui uma estrutura que intercala cartas e a própria narrativa, e é essa estrutura que permite uma aproximação entre Marcos e cada leitor da obra. Como o protagonista, nós também temos acesso ao conteúdo das cartas e as lemos com curiosidade, estabelecendo assim um jogo literário bem explorado por Saavedra — o que demonstra um exímio domínio técnico da narrativa. Lemos primeiro na sexta carta enviada (p. 92):
Talvez você pense isso, que eu seria capaz de construir as mais variadas tramas, as mais complexas teorias, e até um leitor para estas cartas, não seria?
E depois, na nona e última carta (p. 148):
E não apenas as cartas e seu formato epistolar, mas também outra história, a do leitor dessas cartas. Já te falei disso? Dessa outra história, desse personagem que inventei, esse personagem com uma vida tão diferente da tua, alguém que recebe por engano esse texto destinado a você, abre as suas páginas por descuido ou por curiosidade, e, sem perceber, pouco a pouco, se encanta e se transforma.
Os trechos acima sugerem uma multiplicação que torna o leitor das cartas todos os leitores que atravessam as páginas do romance. Essa sugestão indicaria que as cartas extraviadas estariam sendo remetidas não a um Marcos, personagem do romance, mas que o próprio personagem é um elemento compósito dessa alegoria construída por “A.”, a autora desconhecida que preenche os espaços do imaginário comum dos leitores.
É interessante observar nesse jogo literário como existe um trabalho consciente de resgatar elementos da narrativa epistolar e atualizá-los, revestindo-os de características que são ressaltadas na contemporaneidade. Um trabalho em que a escritora se arrisca ao apanhar a malha da tradição e tentar costurá-la com novos tecidos para nos revelar novas cores naquilo que nos acostumamos a ver sempre do mesmo modo. A própria “A.” admite na sétima carta que escreve dialogicamente, levando em conta uma infinidade de textos literários que compõem toda a literatura (p. 108):
Sei que aí está a minha maior derrota, ainda que eu me esforce em te dizer algo original, te direi sempre as mesmas coisas, ainda que eu use dos mais variados artifícios e te diga que a cada vez elas mudam porque o tempo e você e o rio que passa, ainda que eu use dos mais variados artifícios e, sedutora, te diga que há algo que nunca foi dito e que te digo agora [...] ainda assim, te direi as mesmas coisas.
Enfim, o que mais é preciso dizer? Flores azuis é melhor porque é provocativo. Em dado momento nos é imposta a necessidade de participar do jogo, de reorganizar nossas certezas, de formular hipóteses, de nos mover frente ao romance. Como era isso que procurava durante a leitura dos romances, Flores azuis é o vencedor.










