Jogo 12 – A arte de produzir efeito sem causa x O conto do amor

Jurado: Luís Augusto Fischer

Site/blog: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=N820861

Sobre: É professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicou mais de 20 livros, de ficção e não-ficção.

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Duas novelas justinhas em seu formato, sem sobras ou faltas (não anotei qualquer passagem inutilmente obscura, qualquer lance meramente decorativo, nas duas obras), bem editadas, conduzidas com segurança pelos autores; as duas com linguagem adequada aos propósitos de cada relato e aos limites do ambiente social envolvido; nas duas, três figuras reiteradas — um homem adulto, seu pai e uma mulher —, o que implica algumas tensões de presença semelhante em ambas (a relação pai-filho, a relação entre o protagonista e uma mulher), ainda que com abismais diferenças de enredo. Duas novelas, enfim, que fariam bom papel em qualquer mercado, em qualquer língua. Como escolher entre elas?

Naturalmente se poderia partir para a averiguação das diferenças marcantes entre as duas. Contardo Calligaris, já por sua experiência pessoal, faz as ações ocorrerem num mundo glamuroso, que se poderia chamar de “jet-set” já que de fato os personagens dependem de jatos para se encontrar, entre Nova York e a Itália, com direito a paragens outras, tudo muito limpo e educado, em que os protagonistas não apenas pertencem às classes confortáveis (o protagonista é psicanalista) mas também são cultos, irônicos, sensíveis ao mundo da arte e informados da mais requintada tinta intelectual do Ocidente; seus conflitos radicarão na vida interna de cada um, na sempre difícil lida do indivíduo com as heranças e as conquistas pessoais (e com surpresas do destino, que não cabe mencionar para não roubar o encanto dos futuros leitores). Lourenço Mutarelli, também evocando sua experiência pessoal — os dois são sim representantes dessa onda austeriana que alguns têm chamado de “autoficção”, elaboração narrativa algo fantasiada mas tendo por base a empiria da vida dos autores —, dá protagonismo a um zé-ninguém, um sujeito de classe média baixa que deixa o emprego numa revenda de autopeças mas mantém na cabeça números e nomes do catálogo que havia decorado, para voltar a viver com seu pai, habitante de um lamentável apartamento, tudo muito acanhado, muito apertado, sem horizonte, sem grana, gerando um efeito de enclausuramento consistente com o andamento do enredo (o qual vai-se revelando pouco a pouco, quando vamos tendo notícia de que aquela saída da revenda tem a ver com o fim de seu casamento, em mais um momento que não cabe explicitar aqui, em nome do gozo dos candidatos a leitor).

Mas é claro que diferenças de enredo, de mundo social e de geografia não podem decidir a qualidade, que estará sempre em outra parte, não no enredo. Meu critério, então, foi o de superioridade artística, que poderia ser chamado de radicalidade artística: enquanto a sensível, inteligente e psicanaliticamente ousada narrativa de Contardo Calligaris poderia ser traduzida filmicamente quase sem nenhum problema, dada a sua natureza visual (há uma engenhosa trama envolvendo afrescos pintados em uma capela interiorana da Itália, que além de tudo oferece uma interessante eletricidade à leitura, na linha de uma narrativa de suspense) e sua linguagem relativamente transparente, a novela de Lourenço Mutarelli depende de uma linguagem em muitos sentidos poética, espessa de significação (o protagonista vai progressivamente perdendo a capacidade de linguagem, e essa perda é enunciada no plano narrativo de modo icônico, num jogo de grande habilidade e eficiência), que compõe a novela em nível talvez mais importante do que o próprio enredo, de forma que sua obra, para poder falar na língua do cinema, precisaria alterar-se muito, perdendo parte substantiva de sua natureza estritamente literária. Quer dizer: Mutarelli é mais literário do que Caligaris.

Não é pouco o resultado que Mutarelli obtém nessa que é uma obra de sua maturidade literária (para dar um exemplo apenas, esta novela é em muitos pontos superior a O natimorto, novela que era já bastante boa); creio mesmo que se trata de autor com força para permanecer no repertório de leituras válidas e representativas de nosso tempo. Calligaris, de sua parte, está estreando na ficção, e com um acerto que faz prever muita coisa boa. Mas enfim, aí está o voto: Mutarelli segue adiante, Calligaris fica para outra.

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