


Jurado: Bernardo Brayner
Site/blog: http://livrosquevoceprecisaler.wordpress.com/
Sobre: Nasceu no Recife, em 1975. É publicitário e atualmente está também traduzindo o livro Uma história oral do nosso tempo, de Joe Gould.
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Ah, a infância. Quanta gente acha que a infância é não ter responsabilidades, não se preocupar. Não era bem assim, pelo menos comigo. Ganhar a pelada na hora do recreio era mil vezes mais importante que a corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética. Minha infância foi mais perto de O senhor das moscas, de William Golding. “Matem o bicho! Cortem a garganta! Tirem o sangue!” Com medo de apanhar dos mais velhos no colégio, resolvi me trancafiar com alguns livros e gibis. Coleção Vaga-lume, A mina de ouro (da coleção do cachorrinho Samba). Se não fossem eles, os livros, a coisa poderia ser preocupante de verdade.
Insight besta: Todo mundo faz ficção quando fantasia sobre a sua própria infância.
O fazedor de velhos e O verão do Chibo são livros que têm crianças como protagonistas, livros sobre a passagem para a maturidade, sobre a passagem do tempo, resvalam no romance de formação. O mesmo tema para estilos completamente diferentes. E a Copa de Literatura Brasileira colocou-os como adversários, igual a Os meninos da rua Paulo.
O fazedor de velhos é o sexto livro do carioca Rodrigo Lacerda. Ganhou o prêmio de melhor livro juvenil da Biblioteca Nacional, além de ser incluído no catálogo White Ravens 2009. O livro é um romance de formação sobre Pedro, um garoto inteligente, mas que sofre de grande preguiça mental. “Eu não lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo.” A mãe lê poesia para Pedro, que aos poucos começa a gostar da coisa. “O conteúdo dessas leituras era relativamente variado. Digo relativamente porque as preferências da minha mãe, mesmo sendo variadas entre si, se repetiam sempre. Depois de um tempo, começamos a reconhecer alguns nomes de gente — Castro Alves, José Régio, Gonçalves Dias, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa…”
Pedro cresce. No colégio perde uma garota para um cara mais velho. Mais tarde, coitado, fica desiludido com a faculdade de história. As decepções o levam a conhecer um velho professor, Nabuco, o fazedor de velhos do título, que passa algumas tarefas a Pedro. E são essas tarefas que vão fazê-lo pensar sobre a vida e o tempo. Como diz o personagem do professor: “Falem com o tempo. Conversem com ele. Fiquem íntimos dele. O tempo é a nossa única companhia garantida até o último instante.” O trabalho de Nabuco na formação de Pedro faz com que este último se descubra ficcionista e que passe a trabalhar com a matéria do tempo de uma forma bem diferente da do historiador. Mas ele tem que correr. O tempo é curto. O professor está muito doente.
O problema de O fazedor de velhos é que o tempo não lhe faz bem. O começo, revelando como o personagem se afeiçoou à literatura, é promissor. Essas lembranças são muito legais para quem gosta de ler. A voz narrativa é coloquial e verossímil para um rapaz de 20 anos, mas carrega um monte de clichês: “um garoto de fora do colégio, mais velho, que fazia dela gato e sapato”. Com o desenrolar do livro, cresce o tom de lição de vida. “Envelheci muitos anos em poucas horas. Fiquei muito feliz com isso.” Piores são os títulos dos capítulos, que mais parecem nomes de músicas do Kid Abelha: “Noite triste”, “Ultrassonografia do amor”, “…E assim por diante”. Spoiler: no final tem até casamento e bebê. A sensação é que no meio do caminho o livro se transforma em um roteiro da Globo Filmes, a ser dirigido por Daniel Filho. Um exemplo de diálogo entre o Professor Nabuco e Pedro:
— (…) O que eu sou? — perguntei, como se tivesse conversando com um Deus particular, que sabia as respostas para todas as minhas perguntas.
— Você é um bom coração.
Não li outros livros de Lacerda. Pode ser um grande escritor, mas errou a mão neste. Na tentativa de escrever um livro para um público mais jovem, deixou tudo muito explicadinho, certinho. Toda a empatia que o leitor cria com o personagem vai diminuindo a cada drama com a namorada ou com a doença do professor.
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O fazedor de velhos é escrito em linguagem clara e conta uma história. Já o seu concorrente faz questão de esconder a tal história, brincar de esconde-esconde com o leitor. O organizador da Copa de Literatura Brasileira, Lucas Murtinho, já disse no Twitter que os escritores brasileiros contemporâneos em geral ou brincam com estilo ou capricham na história. O segundo participante desta disputa faz parte do primeiro time.
Finalista do Prêmio SP de Literatura, O verão do Chibo é um livro escrito a quatro mãos pelos paulistas Emilio Fraia e Vanessa Barbara. A grande sacada é a voz que os autores encontraram para o narrador, uma criança de sete anos. A linguagem não cai na pieguice e no “alumbramento”, mas constrói um universo consistente: até a passagem de tempo é própria do universo infantil, com os meses rebatizados, como o mês-palha. O verão do Chibo é, também, um livro de ausências. Crianças (o narrador, Chibo, Cabelo, Tambor) brincam num milharal e numa casa da árvore enquanto fazem guerra de guloseimas, treinam insetos, planejam contra espiões e discutem uma possível traição à rainha da Bulgária. Chibo é o nome do irmão mais velho do narrador, que desaparece sem se explicar. Homens de galocha passam a visitar o milharal. Época de colheita. Visitam a casa de uma das crianças. Surge tensão entre os desconhecidos e a criança em um plano. Surge tensão sexual entre um dos desconhecidos de galochas azuis e a mãe do narrador em outro plano. Nada é mostrado, ou melhor, muita coisa não é percebida pelo narrador. Com o fim do verão fica a sensação de vazio. Para o personagem e para o leitor.
O próprio método de criação do livro foi pensado como um jogo. Como se revelou numa entrevista, um dos autores escrevia uma parte do livro e a enviava ao outro, que continuava a história. O lírico se junta ao pop, o mítico se encaixa no cinematográfico. Tudo como um jogo. A principal influência dos autores deve mesmo ter sido Cortázar.
História mesmo não tem: “O calendário caiu do prego, as tábuas se desprenderam, e isso foi tudo”. Apenas sugestões de acontecimentos no universo particular dos garotos, numa linguagem confeitada de alusões e onomatopeias:
Nunca houve um besouro como o Bob. O Bruno e o Chibo viravam dias catando cascudos e testando um por um nas corridas, mas nenhum era tão bom. Além disso, o Bob brilhava no sol, era muito verde e redondo, parecia uma joaninha do submundo. O Cabelo ensinou o Bob a esfregar as patas quando queria comer, treinou o Bob em sessenta centímetros rasos com e sem obstáculos, levantamento de migalhas, natação de poça de cuspe, salto com vara. O Cabelo tornou o Bob sociável: ele ficava paradinho na mão da gente, tomava sol do lado do Bruno, vinha abanando o rabo quando abríamos o pote.
O tectectec da máquina tinha desaparecido, nenhum sinal dos barbudos também.
Ele faria croc ou cataplush…
A falta/busca do outro, que se espelha na própria escrita do romance, é um tema recorrente. Ausência: “A pior briga entre o Bruno e o Cabelo aconteceu pouco antes da gente se dividir, quando eu não estava; assopro umas formigas do braço queimado e penso — talvez por causa disso”. Talvez o Chibo, o irmão mais velho, nem tenha realmente existido.
O tempo, aqui, faz o trabalho inverso. O livro parece melhor depois de lido. Provavelmente porque cria um universo muito particular.
O verão do Chibo não é a obra-prima que dizem por aí. Mas tem muitas qualidades. Não lembro de um romance escrito a quatro mãos que tenha se saído tão bem. Uma das conquistas foi manter o ritmo e a cadência até o final, sem que o leitor se chateie no meio do livro pela repetição que é inerente (uau, consegui usar essa palavra) à obra. Mas a principal é não contar a história, como convém a um narrador que não entende o que se passa.
O vencedor é O verão do Chibo, que ganhou porque gostei mais. É isso. Mas torço o cérebro para encontrar mais razões. Essa falta de argumentos me fez consultar um amigo, outro juiz da Copa, e a refletir sobre a minha relação com os livros. Pensei que ler me agrada ou não. Sem muitos motivos, sem muitas argumentações, sem muita explicação. Alguém já disse que quando racionalizamos um sentimento, ele deixa de ser um sentimento. Deve ser isso.
Procurando direitinho até acho uns argumentos: embora O fazedor de velhos tenha uma história mais desenvolvida, O verão do Chibo compensa com imaginação. O segundo livro só poderia ser contado daquela forma, sem muita clareza, com repetições, sem entender o que está em sua volta — afinal o narrador é uma criança de sete anos.
Eu poderia dizer que O verão do Chibo ganhou pelo que não escreveu. Poderia dizer que venceu por esconder na hora de mostrar. Poderia dizer que venceu por fazer um romance de formação diferente. Poderia dizer que venceu pela sutileza e por lembrar que a imaginação ainda é a matéria-prima da literatura. Venceu porque criou o seu próprio universo em miniatura. O verão do Chibo passa. O fazedor de velhos vai pro conselho de classe.










