Jogo 5 – Flores azuis x Dias de Faulkner

Jurado: Tiago A.

Site/blog: http://avidadetiago.apostos.com/

Sobre: É leitor e antes de ser jurado frequentou assiduamente as caixas de comentários das edições anteriores da Copa. Mantém o blog A vida de Tiago A.

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Bem amigos da Internet! Estamos aqui para mais um jogo das oitavas de final da Copa de Literatura! Vamos acompanhar o confronto dos livros de dois jovens escritores brasileiros — um, nato, a outra, naturalizada —, que chegam a esta Copa com muita moral!

A Associação Paulista dos Críticos de Arte deu a Flores azuis o título de melhor romance de 2008 — mesmo ano em que um júri formado pelos escritores Bernardo Ajzenberg, Cíntia Moscovich, Paulo Lins, e Luiz Rufatto, entre outros, concedia a Dias de Faulkner o Prêmio Jovem Literatura Latino-Americana, oferecido de dois em dois anos pela Meet — Maison des écrivains étrangers et des traducteurs de Saint-Nazaire — a um escritor latino-americano que, contando menos que 35 anos de idade, não tenha publicado livro algum até então.

As duas equipes já estão no gramado! Céu limpo, temperatura agradável, neste momento você vê o árbitro convidando os capitães ao círculo central. Eles se cumprimentam, trocam suas flâmulas — no cara-ou-coroa, Flores azuis leva a melhor, e escolhe ficar com o campo à nossa esquerda para começar jogando a favor do sol. Sobrou então para Dias de Faulkner a tarefa de dar o pontapé inicial nesta partida que promete — promete! Faça sua festa, torcedor amante da literatura nacional! Acerte seu relógio aí, que eu acerto o meu relógio aqui, porque— Au-to-ri-za o árbitro! Rola a bola na Copa de Literatura Brasileira! É mata-mata — é decisão — vale vaga nas quartas de final!

1º tempo

Tratar da semana que William Faulkner passou no Brasil não é a única ambição de Dias de Faulkner. Se eu começasse a descrevê-lo em tais termos, porém, não lhe estaria fazendo grande injustiça, porque termina que esse é seu aspecto mais sobressalente mesmo, muito embora ele também queira se ocupar de um determinado “cenário literário” e do modo como um escritor famoso se comporta aí.

Episódios fictícios se mesclam a outros que presumo terem realmente acontecido, haja vista as constantes alusões que o texto faz a biografias, ensaios, depoimentos, e notícias de jornais da época. Na primeira cena, vemos Faulkner no avião, vindo de Lima para São Paulo; o mês é agosto, o ano é 1954, e ele é “a figura mais esperada para o I Congresso Internacional de Escritores”, que será realizado durante a semana como parte dos eventos que comemoram o quadricentenário da cidade. Como o governo dos Estados Unidos estivesse interessado em estreitar laços culturais com a América Latina, cumpre Faulkner também uma espécie de missão diplomática nestas terras brasileiras, mas ele não parece estar muito satisfeito com isso, não. Ao longo de sua estadia, fará de tudo para não ter que discursar; adiará um bocado sua ida ao Congresso; e, quando não estiver bebendo, estará querendo ir beber.

Faulkner estava bêbado o tempo inteiro. Usava o cabelo empapado de água para ver se cortava o porre, o que lhe deixava quase sempre com o paletó ligeiramente úmido à altura dos ombros e o odor inconfundível de álcool. A pior denúncia do seu estado era o nariz de um eterno vermelho, sanguíneo de vodka, rum, gim e toda espécie de bebida que caísse no copo. Atropelando os compromissos se metera perambulando pela noite paulistana, fazendo os mais recentes amigos de infância, tentando recriar Nova Orleans da juventude, percebendo que, ao fim de tudo, o dia se intrometia mais do que os diplomatas zelosos dos bons costumes e imagem norte-americana. Apesar da vigilância severa, Faulkner escapara a toda medida, a todo controle. Certo dia, descendo ao saguão (em pijamas?), caminhou até a portaria de onde avistava a rua e todo o entorno, a Praça Ramos de Azevedo, o trânsito, as palmeiras, olhou em volta e perguntou: O que estou fazendo em Chicago?

A estória começa na página 9 e vai até a 113, o que daria 105 páginas a serem lidas, não fosse a circunstância de só haver prosa em 77 delas; as outras 28 servem apenas para marcar intervalos entre os doze capítulos. Como o livro está num formato 12,5 x 19 cm, estimo que ele deva ter muito menos que trinta mil palavras: que seja vendido como romance é só mais um indício de que um dia, no Brasil, romance vai ser tudo aquilo que alguém disser que é. Sabe-se que E. M. Forster, para atender aos propósitos das conferências que deram origem a Aspects of the Novel, achou razoável considerar romance toda obra ficcional em prosa com mais de 50 mil palavras; mas mesmo quem não reza segundo a cartilha dele encontrará dificuldade para chegar a conclusão diferente neste caso aqui, pois Dias de Faulkner possui apenas um grande evento e centra seu foco sobre um personagem só durante quase todo o tempo, exceção feita a pequenas porções do terceiro capítulo, quando somos temporariamente convidados a seguir as ações de um repórter que quer entrevistar o escritor. Dias de Faulkner é, portanto, no máximo uma novela…

…uma novela na qual se substituiu o esforço de criação do personagem por uma série de referências ao sujeito que lhe serviu de modelo, como se a simples evocação do nome “Faulkner” e a coincidência de alguns dados biográficos tornassem desnecessário o trabalho de conferir maiores contornos ao protagonista. A narração em terceira pessoa procura guardar uma distância segura dele, e quanto mais perto ela chega mais se denuncia o quanto esse Faulkner é 2-D, um “velho senhor do Sul” que fala coisas “no seu sotaque sulino”. Quando for preciso que Faulkner abra a boca para dar um tostão maior de sua voz, vai-se recorrer ao ardil de pô-lo paradão em frente a uma plateia para que ele responda a perguntas de jornalistas, aspirantes a escritor, et cetera — três capítulos do livro estão assim estruturados, todos eles pálidas versões da entrevista que o Faulkner de carne e osso concedeu à Paris Review. Apesar de notar que houve, aqui e ali, a intenção de me levar a visitar a consciência do personagem, não consigo mencionar uma tentativa dessas que tenha me parecido satisfatória, pois não diferencio a qualidade de uma ideia da qualidade de sua expressão em palavras, e acho bastante sofrível este tipo de prosa aqui:

Ele se sentia como do alto de uma ravina contemplando os autores erguendo seus livros, gritando seus nomes anônimos, os rostos deformados, era inevitável demonstrar o horror às mãos estendidas, querendo puxá-lo pelos pés, era assim que se sentia, e o outro (o irlandês) impedindo que o alcancem. Os dois, não Dante e Virgílio, mas Faulkner e Joyce, no meio do inferno, não os bares e todos os luxuriosos becos, vielas de Dublin, Oxford ou Paris, mas o inferno mesmo ou lugar nenhum ou não lugar, não bar, não homens, não paisagem e não conversa sobre banalidades, nem medida nem tempo, não histórico, o inferno; sem vida porque não há morte, e Joyce como mestre, e não Proust, compreendendo o temor também, em suas vestes longas e louros sobre a cabeça, e tudo enfadonho como as palavras de apresentação da obra, a biografia resumida a uma sucessão cronológica e o joguinho de “concordo” ou “discordo”, influências e “o que você acha…” Réplica e tréplica que se propõem a escritores quando no mínimo são dois, como se fossem gladiadores verbais e o público — educadamente — desejando ver o sangue correr na arena. O aço reluzente da navalha desembainhado não evita a vontade de exigir, apesar de travarem a língua, antes que escape: Sacrifica! Sacrifica! Cujo único sinal de clemência surge dos aplausos finais.

Até existe a vontade de falar da relação de Faulkner com suas influências literárias; mas o resultado, por se manter sempre na superfície, acrescentou pouquíssimo ao pouco que eu já sabia. Seja no sonho com Conrad, seja no quase-encontro com Joyce em Paris, não se vai além do clichê do escritor-herói: “Enquanto saboreava um sanduíche, Faulkner — como bom fã — admirava alguma coisa de prosaico e belo que tinha aquela cena comum. Um homem mastigando um sanduíche. [...] Ter visto Joyce valeu mais do que qualquer coisa que outro escritor pudesse lhe ensinar.”

Eventualmente, quando o objetivo era me fazer contestar a fé que depositei na narrativa, a jogada também não saía inteiramente conforme o ensaiado. Fazer isso dá trabalho: um trabalho que às vezes não se quis ter nesse livro. A solução fácil que se achou foi reproduzir notícias de jornal que, de vez em quando, à la plantão da Globo, interrompiam a programação para trazer uma versão que contradizia, ou não confirmava por inteiro, uma que tinha sido contada anteriormente. Ficava evidente ali a intenção do drible nas minhas expectativas de leitor, o que, porém, era executado de maneira apressada, mal-acabada, as costuras à mostra menos por moda do que por descaso. E é assim que um capítulo com grande potência ficcional, como o que narra a visita ao Butantan e o flerte com a “jovem L.” (que um passarinho me contou ser Lygia Fagundes Telles), é posteriormente minado pelo informe quase solene de que “O Correio da Manhã de quinta-feira anunciava que a ida dos congressistas ao Instituto Butantan fora transferida de sexta-feira para domingo pela manhã. Dia em que Faulkner chegaria aos Estados Unidos.” Não sei se os jornais noticiaram essas coisas na vida dita real, mas preciso acreditar que há jeitos melhores de denunciar que o que foi feito há algumas páginas pode não ser a versão definitiva, ou que talvez versão definitiva seja algo que nem exista; e quem me mostra que isso é possível é o próprio Dias de Faulkner, nos capítulos em que se sugerem mudanças de ponto de vista, como os que narram a chegada do escritor ao Brasil com “versões que diferem em alguns pontos laterais, cuja essência, porém, é a mesma” (é feio, mas é sic).

No que diz respeito ao estilo, me espantou a maneira como, repetindo coisas que tantos já repetiram, esse livro ainda conseguia repetir-se a si mesmo. Se existe um clichê segundo o qual escritor tem que ser um sujeito grave, Dias de Faulkner vai lá e diz que Faulkner “tem qualquer coisa de grave”, que ele insiste “com o olhar grave” e que parte do rosto de Joyce “parecia grave, traço de um grande escritor”. Não há imagem gasta que não possa ser gasta ainda mais aqui, e foi assim que eu li que “as horas são cheias de uma angústia cuja origem não sabe explicar” e que “as horas lhe doíam como um soco”. Não são exemplos isolados.

Tinha visto há pouco James Wood dizer em How Fiction Works que “não há nada mais difícil do que criar um personagem de ficção”, oferecendo como prova “[...] a quantidade de livros de neófitos que [têm] seu início marcado por descrições de fotografias”. “O romancista inexperiente finca os pés no estático, porque este é bem mais fácil de ser descrito do que o móvel: tirar tais pessoas da detenção gelatinosa e dar-lhes movimento numa cena é que é difícil”, comenta ele, que ainda confessa: “Quando encontro uma ekphrasis extensa, [...] fico apreensivo, com a suspeita de que o escritor está se agarrando a um corrimão do qual receia se soltar”. E eu, mesmo sem enxergar maiores problemas na extensa ekphrasis que Dias de Faulkner trazia logo na terceira página, e embora ainda ache que nenhum recurso estilístico está interditado a priori, admito que quando vi descrição de foto aparecer de novo na página 29 comecei a sentir um pouco da apreensão de que fala o crítico — uma apreensão que foi se tornando enfado à medida que eu via o truque ser repetido outra vez (p. 40), e mais outra (p. 82), e mais outra (p. 83), sem razão que justificasse tamanha insistência, a não ser, talvez, o medo de largar do corrimão.

Já nos acréscimos, quero dizer que essa novela suplica, clama, implora por uma copidescagem bem feita. Há defeitos desde a epígrafe — “elas são Então faça como todo mundo e decida que elas são [...]” — até o posfácio — “PRÊMIO JOVEM LITERATURA LATINO AMERICANA CONCEDIDO ESTE ANO CONCEDIDO AO BRASIL”. Nos créditos do livro não se esclarece quem foi o profissional responsável por sua revisão, mas ele bem que poderia ter recomendado a correção de alguns lapsos — “reuniam-se este-se toda sorte de autoridade desconhecida” — e a extirpação de vários solecismos injustificados — “as explicações que ouvia pelo caminho dissuadiam sua atenção à L. que vez por outra, a procurava com os olhos quando longe, e tentava se aproximar quando mais perto”; “reconheceram-no quando entrou no salão, o que por nenhum motivo especial causou palmas, e o que levou a caminhar acenando ligeiramente”; “tratou dos principais dados biográficos que se conhecia”; “disse: Boa noite, senhores e senhoras. Ao que foi traduzido e foi retribuído na saudação”; “Como lembrança, trazia nas mãos um catálogo de Portinari, e no bagageiro a coruja em madeira dada por um diplomata brasileiro ávido em conhecê-lo e que, lamentavelmente, Faulkner estava indisposto”. De uma boa revisão também poderia ter saído a sugestão de que determinado trecho — “Faulkner estava bêbado o tempo inteiro. Usava o cabelo empapado de água para ver se cortava o porre” — viesse entre aspas ou tivesse sua autoria explicitada em algum lugar, de alguma maneira, para evitar acusações de você bem sabe o quê; o escândalo protagonizado por Ian McEwan há poucos anos na Inglaterra serviu para mostrar que essas coisas ainda são levadas a sério. Hoje em dia, com google ao alcance até mesmo do mais inepto dos resenhistas, ser pego com as calças na mão está cada vez menos difícil.

2º tempo

Flores azuis nem tocou na bola e já está ganhando de goleada, tantos foram os gols contra do adversário no primeiro tempo. Daí não se conclua, porém, que a etapa complementar vai ser marcada por toquinho de lado, administração do resultado. Não. O baile ainda nem começou.

Jogando num esquema tático tradicional mas sem deixar de contar com os avanços do elemento-surpresa, Flores azuis é um romance epistolar com duas linhas narrativas que nos vão sendo apresentadas de maneira interpolada: de um lado, uma estória narrada em cartas; de outro, a estória do personagem que as está recebendo — e lendo. São nove capítulos; são nove cartas; e a coisa toda começa assim:

19 de janeiro

Meu querido,

Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso. E que é justamente no momento mais suave, o primeiro encontro, o primeiro olhar, que a separação começa a existir. Eu prefiro acreditar que a separação nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um instante que se repete, a cada espera, a cada volta, cada vez que sinto a tua falta, cada vez que pronuncio teu nome. Eu acredito que, ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu seja capaz de fazer com que você se vire e olhe, e, sem perceber, estenda entre nós um atalho, uma ponte.

Assinadas apenas por um sugestivo A., as cartas vão chegando à casa onde Marcos foi morar depois que se separou da mulher, com tudo a indicar que seu real destinatário é o inquilino anterior. Mas Marcos, incapaz de resistir à curiosidade, vai acabar abrindo os envelopes e lendo tudo — e à medida que o fizer terá sua rotina transformada e nos revelará que não são raros os pontos em comum entre essas duas estórias de separação.

Faz tanto tempo que o gênero epistolar existe, e sua origem se confunde de tal modo com a do romance tout court, que seria muita pretensão de minha parte querer tratar aqui dos inúmeros desafios que ele apresenta para os escritores que resolvem encará-lo. Me deixem, então, mencionar brevemente aqueles que me parecem ser os dois principais, quais sejam incutir no leitor a crença de que o que ele está lendo é mesmo uma carta e pô-la para cumprir na trama um papel que não seja o de mero artifício a que se lançou mão para resolver apressadamente determinado ponto sensível da narrativa. É bastante provável que você já tenha visto muita gente boa ser vencida por tais obstáculos e que agora receba com um pé atrás a notícia de que alguém resolveu fazer (mais) uma incursão no gênero. Conheço bem seu ceticismo. Compartilhava dele quando li na contracapa de Flores azuis que sua autora havia composto, “com uma prosa sutil e uma engenhosa montagem, esta trama de amores despedaçados e destinos possíveis, que homenageia e ao mesmo tempo desconstrói o gênero do romance epistolar”. Mas, ah, como foi bom poder testemunhar, finda a leitura, que a descrição não era 100% papo de vendedor… Este aqui é um romance que põe para jogar a seu favor as contraintes dentro das quais escolheu operar.

Tanto a voz que escreve as cartas quanto o tom emprestado a elas me pareceram sempre estar na medida exata; em momento algum me peguei pensando, “Ninguém escreveria isso numa carta”. Acredito que muito dessa conquista se deva à circunstância de as cartas serem cartas de amor, escritas por uma personagem que ainda não se conformou com a separação e que pretende agora, à sua maneira, reconstruir os fatos, dar a sua versão, a fim de tentar ainda mais uma vez estender “um atalho, uma ponte” entre ela e o outro, que a deixou e foi-se embora, para que ele “leia e volte”, para fazê-lo “sorrir ou sofrer”. O tom algo confessional dessas cartas e sua prosa um tanto, digamos, poética podem cansar um ou outro leitor inteiramente avesso a mimimis, etc. e tal, só que sou testemunha de que tudo está a serviço da construção da personagem missivista e ainda arrisco dizer que mesmo esse leitor poderá se satisfazer bastante com o bom uso da técnica de alternância de vozes entre as cartas — escritas na primeira pessoa — e os trechos que contam as desventuras de Marcos — narrados na terceira, com diálogos e discurso indireto livre bem construídos que só:

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. Uma mulher que o acompanhe em momentos de maior sociabilidade, e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. Mas as mulheres só compreendem o que interessa a elas, pensou ao desligar o telefone. E a necessidade de desmarcar um encontro aquele dia era algo que Fabiane não tinha o menor interesse em entender. Reagira fazendo-lhe as mais diversas recriminações. Era a segunda vez que ele desmarcava, é verdade, mas amanhã, amanhã à noite, sem falta, dissera no telefone. Ela aceitara após longa relutância.

— Está bem, amanhã à noite, mas, se você desmarcar mais uma vez, uma única vez que seja, juro que acabou. Se é que existe realmente algo entre nós.

— Não vou desmarcar, prometo, hoje foi mesmo um imprevisto.

— É, sábado também, pelo jeito a sua vida anda cheia de imprevistos.

— Não, sábado foi porque Manuela estava gripada, não ia ter como levá-la, eu já te expliquei.

— É, agora você usa a sua filha como desculpa para tudo.

As mulheres belas costumam ser as mais complicadas, talvez porque a beleza tenha lhes dado facilidades demais, muitas opções e pouco confronto com a realidade. As mulheres belas costumam ser egoístas e infantis, jamais saem do papel da pequena princesa e esperam que o homem, qual um súdito, ou um pai que tudo consente, as mime sem nada exigir, apenas porque são belas. Fabiane era uma mulher belíssima, pensou.

Se a voz e o tom das cartas não possuem sabor de artifício (embora o sejam), também não o tem o impulso dado à narrativa pela decisão de sempre pôr, de um lado, a carta do dia e, de outro, a reação de Marcos àquela carta, naquele dia. É interessante notar, aliás, a maneira como os temas — e aqui a palavra tema aparece conforme o uso que a ela dão os músicos — vão sendo antecipados ao longo do livro, o paralelismo entre o que é contado nas cartas e a estória de Marcos. Para dar apenas um exemplo, confronte-se um trecho da primeira carta, à p. 8…

A distância deveria imediatamente impor um tom mais solene, ou menos íntimo, afinal há a distância. Mas como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao meu lado, há pouco deitado ao meu lado, na minha cama, onde todo dia, todas as noites, algo tão íntimo como dividir a cama e os lençóis da cama quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá, abertos, escancarados, com suas manchas e sua noite impregnada. Como alguém sai da cama da gente para a formalidade?

…com um do segundo capítulo, à p. 35:

Pouco depois a ex-mulher chegou, os dois toques da campainha anunciando que era ela, coisas que não mudavam. Levantou do sofá e foi abrir a porta. Ela entrou como se, em vez dela, entrasse um exército inteiro, uma multidão, o perfume espalhando-se pela casa, ela ocupando imediatamente todos os espaços. Deu-lhe um beijo em cada face.

— Oi, Marcos, tudo bom?

Oi, Marcos, nunca se acostumaria a ouvir a ex-mulher chamá-lo assim, alguém que por tanto tempo o chamara de meu bem, de meu amor, ainda mais daquela forma distraída, desinteressada, oi, Marcos, vivera anos com a mulher, tiveram filhos, casa, conta conjunta, uma vida, e um dia tudo aquilo deixava de existir e ela se tornava apenas uma desconhecida perfumada que entrava pela porta e dizia, como diria a qualquer um, oi, Marcos.

Ao final, foi muito gratificante poder constatar que essas coincidências não eram gratuitas, perceber-lhes o propósito e ver que, em vez da palavra final, quis-se dar ao livro a possibilidade de que dele se façam leituras diversas. Fechei-o com a sensação de que tinha me entregado aos cuidados de um profissional, alguém que, se não está inteiramente no controle de seu ofício, é extremamente hábil ao criar tal impressão — e qual seria, se não esse, o traço maior do bom escritor?

Decido, então, que é Flores azuis que passa para as quartas de final. Ganhou o jogo dando olé. Pode ser um tanto exagerado dizer que ele “desconstrói o gênero do romance epistolar”, mas não tenho dúvida de que este livro traz, sim, algo — ou que, pelo menos a mim, trouxe.

Para dizer, porém, no que consiste esse algo, seria preciso entregar um elemento da trama — “o envelope fechado e todas as suas leituras e possibilidades” —, a prova excelente de que, sim (e me permitam a desfaçatez de uma auto-citação), “há jeitos melhores de denunciar que o que foi feito há algumas páginas pode não ser a versão definitiva, ou que talvez versão definitiva seja algo que nem exista”. Embora não tenha encontrado jeito de falar mais desse ponto sem entregar o ouro de vez, estou bastante disposto a conversar sobre ele com outros leitores de Flores azuis — e esse papo pode começar aqui mesmo, nessa mesa redonda pós-jogo que é a caixa de comentários, onde spoiler é permitido. Tenho certeza de que qualquer grande omissão desta minha resenha terminará sendo suprida pelos jurados que apitarão as próximas fases; aposto que esse livro vai longe na competição e espero que ele possa receber o tratamento que, conquanto mereça, porventura não tenha encontrado aqui.

Mas de antemão anuncio: não ficarei nem um pouco surpreso se, chegando à grande final, ele sair da 3ª CLB envergando a faixa de campeão.

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