Jogo 7 – A arte de produzir efeito sem causa x Jonas, o copromanta

Jurado: Luís Francisco Carvalho Filho

Sobre: É advogado criminal em São Paulo e foi diretor da Biblioteca Mário de Andrade. Pesquisa punição criminal no Brasil Colônia e Império. Publicou O que é pena de morte (Brasiliense, 1995), Nada mais foi dito nem perguntado (Editora 34, 2001) e A prisão (Publifolha, 2002), além de co-escrever o roteiro do filme Um crime delicado, dirigido por Beto Brant.

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Quando um certo dr. Plausível indicou meu nome para participar da Copa de Literatura, minha vontade era dizer não. A ideia de uma copa me fez lembrar o mundo do futebol, o mata-mata muitas vezes decidido “injustamente”. A escapada oportunista de um perna-de-pau, o gol fora de casa, a retranca intransponível, a contusão, o erro de arbitragem, a falta de inspiração, a sorte, o azar, tudo isso pode determinar a derrota do melhor time para uma equipe tecnicamente inferior. Diferente de um campeonato por pontos corridos, onde prevalece no fim, em tese, a organização, a regularidade, a força do elenco, a capacidade efetiva dos times vencedores.

No plano literário, a perspectiva parece até irresponsável. Por que um livro deve vencer outro e seguir na disputa? A escolha de uma obra entre duas por um jurado, escolhido sabe-se lá por quê, teria, sempre, a marca da subjetividade, do arbítrio. Por outro lado, ainda que eu olhe para tudo e para todos com dose extremada de ceticismo, não sou crítico profissional nem amador. Não domino o instrumental necessário para a tarefa, e sempre que me arrisquei, confesso, me arrependi.

Mas tenho outro defeito. Não sei dizer não. E aqui estou, destinado a escolher entre dois livros: Jonas, o copromanta, de Patrícia Melo, e A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli, autores interessantes, bem sucedidos e que, se tiverem um mínimo de juízo, devem se lixar para a minha opinião.

Estabeleci um critério de antemão. Venceria a disputa o autor que provocasse em meu espírito maior estranhamento.

Para minha surpresa, os personagens centrais das duas obras veem as letras “dançando” em seus sonhos… Amargurados, obcecados ou destruídos, tentam solucionar enigmas desprovidos de lógica e caem no vazio aparente da loucura. As duas obras tangenciam a vida de escritores: Rubem Fonseca, em Jonas, o copromanta; William S. Burroughs, em A arte de produzir efeito sem causa. Pura coincidência? Lucas Murtinho que explique o jogo que me foi dado. Até nas ilustrações dos dois livros — editados em 2008 pela Companhia das Letras — uma convergência de formas pode ser percebida:

Jonas, funcionário burocrático da Biblioteca Nacional, prevê o futuro a partir da observação criptográfica e dos desenhos diários das próprias fezes, que coleciona em álbum, e sente-se plagiado pelo escritor Rubem Fonseca (transformado em personagem de Patrícia Melo), perseguindo-o pelas ruas do Rio de Janeiro para desmascarar o que considera um complô formado para invadir sua mente e se apropriar de seu dom.

O personagem de Lourenço Mutarelli, o Júnior, funcionário de loja de autopeças, larga tudo, mulher, emprego, volta para a casa do pai; perdido no infortúnio da traição, mergulha na bebida, no delito, no sono e, inconscientemente assombrado pelo espectro de Burroughs, na observação mórbida de letras e palavras que se multiplicam até o infinito.

Li os dois livros simultaneamente, como se o embaralhar do jogo ajudasse a decidir. Eu me senti obrigado a ler, ainda, o conto de Rubem Fonseca que serve de pano de fundo para a história de Patrícia Melo, “Copromancia” (Secreções, excreções e desatinos, Companhia das Letras, 2001).

E para evitar a perspectiva de um apressado estranhamento em relação a uma das duas obras (o adivinhar pelo exame das próprias fezes pode soar para o leitor da resenha como algo por si só extraordinário, esquisito, e saliento que o livro de Patrícia Melo não é escatológico), abro parênteses para registrar que a copromancia não é invenção de Rubem Fonseca.

Na Internet está (N.E.: Estava. O link a seguir leva a uma página que reproduz parte do conteúdo do site citado.) o site da Associação Copromântica Brasileira, criado para evitar que esta “digna profissão” fique “à mercê de aproveitadores inescrupulosos ou mesmo de pessoas voluntariosas, mas totalmente despreparadas”. Verifiquei, admito que um pouco espantado, a existência — cúmulo do corporativismo — de Projeto de Lei de Iniciativa Popular, seguido de abaixo-assinado, com o objetivo de regulamentar a profissão do “copromante”, assim considerado, para fins legais, “aquele que estabelece juízos a partir do estudo das configurações de massa fecal de qualquer espécie, calculando e elaborando cartas fecais”, com reserva de mercado estabelecida para a análise da “interrelação entre cartas fecais na avaliação de relacionamentos entre pessoas, entidades jurídicas e nações”. Apesar de se tratar de “ciência e arte de raízes bastante antigas”, pré-históricas, caso o Congresso Nacional aprove a iniciativa estaremos caminhando para a queda da última trincheira no processo de erosão da privacidade que atinge os nossos tempos. A quebra do sigilo fecal.

Mente, portanto, o personagem do conto de Rubem Fonseca quando afirma que “copromancia” é “palavra inexistente em todos os dicionários”, palavra que compusera “com óbvios elementos gregos”, assim como mente o Rubem Fonseca construído por Patrícia Melo, que alega ter criado um “neologismo que uniu duas ideias em latim, fezes e adivinhação”. Se a palavra copromancia não está nos dicionários disponíveis, não é por não existir. Uma explicação razoável para o esquecimento está no mais antigo léxico de nosso idioma, o Vocabulario Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau, editado em Coimbra entre 1712-1728, texto precioso e disponível no site do Instituto de Estudos Brasileiros da USP: “da supersticiosa e falsa arte de adivinhar se acham nos autores muitas outras espécies, que passo em silêncio, por serem matéria indigna da curiosidade de um cristão” (verbete “Adevinhação”).

Mas vamos voltar aos dois livros.

Jonas é o narrador da obra de Patrícia Melo, capaz de sentenciar de forma elegante sentimentos que costumam escapar da percepção comum: “É fácil ser impreciso e confundir as pessoas”. Quanto tempo demora a saudade, o luto? “O resto da vida. Aumenta. Diminui, mas nunca desaparece. Nunca.” Narrador capaz de contar (assim como o personagem de Rubem Fonseca, o original) tudo o que se passou com Jonas até o desfecho que o leitor desconhece. O que particularmente me incomoda em Jonas, o copromanta é justamente esse narrador tão lúcido, suficientemente distanciado do abismo que se oferece diante dos próprios pés, a reconstituir sonhos, pensamentos, diálogos e gestos como se fora a memória de terceira pessoa.

Diferentemente, a trajetória de Júnior é lançada pelo narrador onipresente, terceira pessoa mesmo, que a tudo observa descrevendo os sonhos, pensamentos, diálogos e gestos do protagonista. O que particularmente me incomoda em A arte de produzir efeito sem causa é justamente uma espécie de reforço narrativo do que o ouvido absoluto do escritor já havia captado. “Estão tirando coisas de dentro de mim. Eu preciso ir”, diz Júnior ao amigo. Por que então o narrador deve surgir e realçar que “um parasita destrói o seu cérebro”?

O narrador criado por Mutarelli é também capaz de sentenciar de forma elegante sentimentos que costumam escapar da percepção comum: “Nenhum sentimento se compara ao de ser perdoado”.

Mas é na descrição objetiva da cena e nos diálogos mais corriqueiros e ingênuos que a obra de Lourenço Mutarelli se apresenta forte e, por isso, provoca o meu estranhamento. “Quando eu era novo, tudo era mais simples. Não tinha tanta doença”, ou “Tem coisas que é melhor não mexer”, ou “Às vezes não parece que tudo se repete?”. Observem este trecho e os grifos que tive a ousadia de fazer em duas pequenas frases que, no meu olhar, poluem:

Júnior acorda tamanho é o silêncio. Sente-se bem. O relógio do vídeo não marca a hora. Todos dormem. Não há café na garrafa. Júnior lava o rosto, escova os dentes com o dedo e penteia o cabelo com as mãos. Não muda de roupa porque as suas roupas estão guardadas no quarto do pai. Procura não fazer barulho ao sair. Chama o elevador. Enquanto espera, percebe uma rachadura no piso. Uma linha sinuosa que parte de uma coluna e avança quase até as escadas. O elevador demora. Júnior desce de escada. Percebe que a rachadura se repete a cada piso. Uma discreta ameaça. O porteiro não está na guarita para abrir o portão. Júnior espera. Ansioso por um café e pelo primeiro cigarro, anda até o portão. Passa o braço pela grade e aperta o interfone preso do lado de fora. Está dentro e fora. Em poucos segundos o porteiro surge correndo. Abotoando as calças.

— Vai sair?

— Eu só toquei porque não tinha você.

— Então não vai sair?

— Não, quer dizer, vou. Só estou falando isso para você não pensar que estou do lado de lá chegando. Para não pensar que toquei para entrar. Entendeu?

— O senhor já está dentro. Por que eu ia pensar isso?

— Não é isso. É que eu toquei de fora, entendeu?

— O senhor vai ou não vai sair?

— Vou.

O porteiro aciona o botão que destrava a saída. Júnior, por um momento, parece ausente e permanece ali parado [...].

Seria mesmo necessário ressaltar a “discreta ameaça” ou o estar “dentro e fora”?

Talvez um dos maiores desafios literários seja a transposição para o papel do mistério que habita a insanidade. Ler não é como ir ao cinema, onde a música, o som (inclusive do silêncio), os efeitos especiais etc. permitem uma experiência sensorial mais fácil. Houve um instante, lendo A arte de produzir efeito sem causa, em que senti aquele arrepio que só o medo pode provocar. Por isso, ele leva o meu voto.

Pelo menos aqui, vence Lourenço Mutarelli e perde Patrícia Melo. Ao jurado, as batatas.

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