Jogo 9 – Cordilheira x Areia nos dentes

Jurada: Beatriz Resende

Site/blog: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4785831E7

Sobre: Professora do Departamento de Teoria do Teatro da Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Escreve regularmente para suplementos literários do Rio e São Paulo. Atualmente é Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Difícil duelo gaúcho em partida que só se resolveu nos últimos momentos.

Evidentemente, diante do romance de Daniel Galera — já experiente, premiado, convidado a participar da coleção Amores Expressos — ficamos mais exigentes.

Em Cordilheira, Galera é o mesmo escritor competente das obras anteriores, mas a narrativa tem, na minha opinião como leitora, dois problemas.

Primeiro, deixar escapar a excelente ideia de apresentar um círculo de autores argentinos como um bando de estropiados, maníacos, perversos. Só faltou um cego. Situação interessante, de algum modo pondo em discussão o tema da vida literária, da relação entre vida e obra. Poderia ser ocasião inteligente de nos fazer pensar sobre as “igrejinhas” formadas por escritores, na Argentina e no Brasil. E mais: a misoginia, as visões autocentradas, as vaidades. No entanto, com a solução dos suicídios um tanto gratuitos — especialmente no caso de Holden, autor/personagem — o que se tornara um dos temas prinicpais da obra termina mal resolvido, como se fosse importante demais para a narrativa, que termina não dando conta dele.

Do segundo problema, a culpa é de Flaubert com aquela história de “Madame Bovary, c’est moi“. Mesmo assim, o próprio Flaubert recorre a diversos pontos de vista, ou simplesmente fecha a cortina da carruagem no momento em que Emma seria a única narradora possível. O último capítulo de Cordilheira, quando o narrador recupera a palavra de Anita, faz a gente pensar: para que foi complicar o romance com essa voz feminina assumindo a condução da obra? Sempre que um recurso de construção da narrativa se torna gratuito ou pouco rentável, isso incomoda.

Antônio Xerxenesky surge como um escritor hábil e, contrariamente ao que afirma na dedicatória do livro ao pai, bem-humorado. As estratégias narrativas são sempre denunciadas pelo próprio autor, anulando a ideia de “efeitos especiais” desnecessários. É assim que Xerxenesky desqualifica a besteirada dos mortos vivos, que vai para segundo plano, e acaba ficando com a velha questão que nos persegue desde a Grécia antiga quando Sófocles escreveu Édipo Rei e foi retomada por Freud para marcar nossas vidas: como é difícil matar o pai. Nesse momento, Miguel e Juan ganham contornos mais nítidos e viram, de fato, personagens, tanto no faroeste como na história do velho aposentado mexicano que se debruça sobre o computador para escrever um livro.

Ao contrário do que pode parecer, não é fácil contar uma história de faroeste no Brasil. No livro de Xerxenesky, a evidência do pastiche se mistura a um gosto pessoal pelo gênero, tributário do cinema americano. Guardando as devidas proporções — para o sucesso não subir à cabeça de nosso autor — este me parece ser o segredo de Philip K. Dick em Blade Runner e de J. G. Ballard em Crash ou Running Wild. Às injunções do gênero, que podem ser óbvias ou limitadoras, os autores mesclam reflexões que vão desde o cotidiano das grandes cidades globais à violência e o sofrimento dos solitários.

Areia nos dentes resulta um romance que prende a atenção e diverte, mas deixa um certo travo, arenoso, na garganta do leitor. Apesar disso, o jovem autor promete e levou esse round com sua obra — apresentada, generosamente, por Daniel Galera.

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