Jogo 14 – O gato diz adeus x O livro dos mandarins

Conheça o último finalista da Copa de Literatura 2011. Boa leitura!

——————–

Jurado: Doutor Plausível

Site / blog: http://drplausivel.blogspot.com

Sobre: Amônio Plausível abriu consultório em São Paulo em 1982 e desde então está em franca decadência financeira, moral e física. Extravasa alguns de seus pensamentos menos impublicáveis num blogue incongruamente co-autorado por um guitarrista de jazz.

——————–

*
Três minutos após o apito inicial, nosso eutímico doutor já paralisou o jogo e chamou os dois capitães ao centro do gramado.
«Digue uma coisa» disse, abrindo um sorriso walterbrennan. «¿Quem foi aí q decidiu seguir esse boçal acordo ortográfico?»
O Adeus F.C. apontou pro Tião Gentefina e o S.E. Mandarins dedurou o Colônio Penal.
«¿Cês não têm vergonha?» bradou o douto juiz, erguendo o cartão vermelho duas vezes. «Já pra fora, os dois.»
«Peraí, só sigui as regra» redargüiu o Tião.
«Regra é o raralho. Já pra fora.»
«Só usei o purtuguêis correto, pô» obtemperou o Colônio.
«CortuguÊs porreto de rú é côla. Cai fora agora.»
«O sôr tá seno arbitrário» choramingaram os dois.
«É pq sou o árbitro, seus tronhos. Fora daqui.»
O povão aplaudiu o juiz e nem ligou q o jogo continuasse com dez em cada time. Pq pô, né? Uma interpretação fátua da língua consegue aviltar e conspurcar, com peso de otoridade, um dos sustentáculos da identidade duma nação, e quase todos os jogadores e times –q deveriam ser os primeiros a negar-se terminantemente a jogar– dizem amém. Tenha a santa.

**
Aos leitores q acharam esse intróito um disparate ofensivo e patético, descabido numa resenha literária, tenho isto a dizer: vcs tão errados. A pífia representação da literatura brasileira no panteão de idéias da humanidade tem sim muito a ver com o q faz os usuários desta língua delegarem sua ortografia e gramática (idealmente sujeitas a variações e contradições, conquanto resultado da história) a comitês engalanados de caga-regras da forma; e a eles delegarem tbm suas decisões de escrita ou leitura. A questão é ¿qual é a força motriz duma língua e duma obra literária: a forma ou o conteúdo? Ai, que discussão véia, né? Mas grande parte dos literatos brasileiros –puxados pelo cabresto de análises literárias formalistas– se concentram na forma e na técnica tal qual moscas cismadas em atravessar uma vidraça. Quase nunca dá certo. Às vezes, dá. Temos, neste jogo, dois livros q brotam diretamente do formalismo. Um deles se deu mal; o outro conseguiu criar uma experiência única e radiantemente, desaforadamente brasileira brazuca brazófia .

***
Tem poucas coisas mais maçantes do q livro com personagem escritor num triângulo amoroso em estória auto-referente de múltiplos narradores com a mesma voz; então, pra interessantizar o enredo, insira taras sexuais.

Nãonãonão, não creio q tenha sido essa a gênese de O gato diz adeus; acho q a trama propulsora veio primeiro, e só depois é q Michel Laub aplicou idéias estruturais exógenas à gênese pra ver em quê dava. Tirando a impressão aqui e ali de q ele escreveu essa estória pq viu pela janela os vizinhos brigando no apartamento em frente e achou q dava um livro, a trama é interessantíssima, e um grande achado: ¿que é q acontece qdo a sexualidade doentia dum casal sado-masô resulta nisso q é a razão primeira da sexualidade: um bebê? É um tema q poderia ter sido problematizado e desenvolvido literàriamente com estrondoso sucesso por um ótimo observador do humano tal como Laub… se ele não tivesse decidido usar um artifício literário totalmente inadequado e, além disso, surrupiado de autores anteriores.

Bàsicamente, o artifício usado em oGdA não funciona com a estória contada. Sérgio e Márcia tinham um casamento conturbado por episódios de sado-masoquismo q terminaram por incluir Roberto, um ex-aluno de Sérgio. Teòricamente, o livro é o texto q Sérgio escreve ou logo após ou 18 anos após a morte de Márcia, q sucumbiu numa depressão pós-parto mal explicada. Sérgio afirma q escreve pra esclarecer à filha nascida desse parto o motivo por quê preferiu q Márcia se separasse dele e fosse viver com Roberto. O motivo é este: não quer(ia) q sua filha cresça(cesse) presenciando ou testemunhando o sado-masoquismo do casal. Imagine crescer “ouvindo os gritos [de Márcia] durante toda a noite”, qdo um “pedido pelo soco se transformaria em outros pedidos”. ¿Notaram a incongruência?

Ok. Deixemos esse detalhe de lado, por enquanto. Apontar a incongruência dá problema se algum espertinho alegar q oGdA tá num limbo entre o real (literário) e o imaginado, entre o passado e o futuro: ¿os múltiplos narradores são os personagens narrando post-factum, ou são todos um único narrador imaginando tudo aquilo no futuro? As duas possibilidades têm falhas, e não se complementam. Se os narradores são os próprios personagens, o livro tá mal ajambrado. Numa nota explicativa, quase se desculpando, Laub indica q seu livro foi influenciado por As I Lay Dying, de Faulkner, “em sua temática, linguagem e estrutura”. ¿Linguagem? Dê-me uma quebra. Ser personagem de Faulkner não é bolinho: vc tem q ter uma voz única e inconfundível –um sotaque sintático-semântico, digamos. Essa voz indica de onde vc veio, pra onde vc vai, como vc pensa, por quê vc faz o q faz no contexto da estória em questão; em Faulkner, essa estória em q vc tá é apenas uma das muitas em tua vida: o livro começa depois de vc ter vivido outras estórias e, qdo ele terminar, vc vai continuar vivendo mais outras; e Faulkner faz isso com tua VOZ, com teu sotaque. Mas em oGdA, há sòmente uma voz, sòmente um sotaque. Isso tá longe de Faulkner. Então a hipótese dos múltiplos narradores fica meio capenga.

Vejamos portanto a outra interpretação: as falas dos personagens vêm dum único narrador pretendendo expressar os pensamentos de todos eles. Isso explicaria a mesma voz em toda palavra do livro. Nessa interpretação, a motivação de Sérgio parece até nobre: ao confessar seu passado conjugal e prever (ou descrever) as críticas futuras a seu abandono da filha, ele pretende explicar a ela a razão pra poupá-la de crescer vivendo com um casal problemático. Perfeito. Exceto por um detalhe: Márcia já morreu; Sérgio tá escrevendo o livro *porque* Márcia morreu. Então ¿pra que cargas d’água Sérgio escreve? Um escritor escreve pra ganhar a vida sendo lido por leitores; mas se o personagem é escritor, espera-se q ele tenha um motivo tramático pra escrever. Mas se Sérgio escreve post-factum, não há motivo aparente pra q ele dê uma de Prospero em filme de Peter Greenaway (q, numa grande sacada, filmou The Tempest, de Shakespeare, com *todos* os diálogos falados por Prospero, o mago q planejou tudo q acontece na peça); e se ele escreve esse livro ante-factum, com Márcia morta, não há nenhum motivo plausível pra escrevê-lo. Exceto…

Exceto se Sérgio for realmente um grande cretino q deu desculpas covardes pra não assumir a filha, achou um grande trouxa pra criá-la, e agora vem com esse papo ainda mais cretino de ser o porta-voz dos vários envolvidos. Exceto se na verdade oGdA tá sendo psicografado por Roberto, q… q…

oGdA é um livro cheio de excetos, desnecessàriamente enredado em si mesmo. Numa literatura nacional mais pujante e menos dada a bancar a espertinha, seria alguns capítulos num penetrante livro de 300 páginas. Neste de 70, é como se Laub mostrasse o canto esquerdo inferior duma grande pintura sua e se deliciasse com nossa incapacidade de intuir o resto do quadro com precisão. Mas tenho mais q fazer na vida do q ficar decifrando cambalachos de personagem cretino. Pô, Laub, não dá pra aceitar UM personagem dando uma de Faulkner. ¿Cadê os outros? Quebra o galho: escreve as outras 230 páginas dessa promissora estória. Vc consegue. *Vc* consegue.

****
A cultura brasileira tem um aspecto q sempre me encucou. Perante a dificuldade de expressar econômica, coerente e pungentemente algo pau a pau com a exuberância torrencial das complexas idéias contemporâneas originadas no primeiro mundo, o brasilês volta-se sobre si mesmo, hipnotizado pelo som das próprias palavras, seus ecos e sua ortografia –não necessàriamente pelo q elas denotam: daí q esta língua tem se tornado cada vez mais insípida e burocrática, sua literatura cada vez mais imitativa, críptica e auto-referente. Escrever coerente e longamente em brasilês é um trabalho penoso. Daí q, ao mesmo tempo em q o Brasil não é um profuso criador de boas tramas, de estruturas narrativas complexamente inter-articuladas, de microcosmos simbólicos, o país produz nuvens de noveletas, estroços de esboços, bordões aos borbotões, batologias às bacias, paroxismos de psitacismos. Me parece sintomático q aqui proliferem e vinguem tão exitosamente fenômenos culturais tais como a poesia concreta, as letras-lista, o espiritismo, a Praça da Alegria, a Escolinha do Professor Raimundo, as novelas de capítulos diários –ie, meios culturais em q a recorrência, a iteração e o ramerrão são virtudes.

Em 1948, quatro dias antes de ãã desencarnar, Monteiro Lobato –aquele racista remorado ranzinza– concedeu à rádio Record uma entrevista em q começa com uma apologia da repetição:

«Eu toda noite ouço o Zé Caninha, naquele programa –¿como é q chama?– “Cartório de protesto”. E gosto imensamente dele por uma coisa, uma grande descoberta q eles fizeram … Eles descobriram q é um grande erro tar renovando o programa. O certo é repetir todas as noites a mesma coisa. O público acostuma, gosta, e não quer mudança. Eu hoje fico danado qdo eles mudam as pilhérias. Gosto de ouvir todas as noites as mesmas pilhérias. E aconselho aos técnicos de rádio q estudem, até, esta descoberta. É uma descoberta psicológica muito interessante, muito importante. Até aqui, o rádio era baseado na renovação constante dos programas. Novidade em cima de novidade. Pois bem. Eles descobriram q isto é errado. O certo é dar todos os dias a mesma coisa. O público acostuma e gosta e prefere … Eu quero q mude um bocadinho todo dia, levemente. Mas qdo eles mudam demais, eu fico danado.»

Bonitinha, né, sua ingenuidade. Mas notem como, ao falar, o próprio Lobato se ecoa, repisa o mesmo caminho já andado. É como se apenas enunciar uma idéia não bastasse pra expressá-la. Lobato morreu aos 64. Tivesse vivido mais 15, teria sido fã da Praça da Alegria, cuja fórmula recorrente e bordônica tá na tv brasileira há 54 anos. Cinqüenta e quatro anos. Em referência a seu criador, chamemos aqui de ‘nobreguismo’ o uso de esquetes formulaicos feitos de recorrências e bordões.

Não falta inteligência à cultura brasileira. Mas nesta língua trabalhosa e nebulosa, a inteligência pura pena demais pra se expressar sem empolação, condescendência ou gongorismo, e pra construir uma ponte entre o sofisticado e o chucro. Uma solução foi usada por Jorge Furtado –o cara q inventou o hiperlinque cinemático: um meme é explicado e lincado a outros, q tbm são explicados e lincados, e assim a tendência recorrentista do português é usada pra hieràrquica e cumulativamente juntar sinapses q vão ganhando cada vez mais significado a cada recorrência, construindo bordões estruturais mais do q lexicais. Funciona muito bem, qdo realmente se tem algo a dizer. O exemplo supremo de furtadismo é o curta-metragem Ilha das flores.

Pois bem. Em O livro dos mandarins, Ricardo Lísias criou um genial amálgama de nobreguismo e furtadismo.

Um problema com o nobreguismo –a repetição mecânica de fórmulas e bordões– é que não há como evitar q ele descambe prà chanchada. A repetição mecânica é tbm um dos atributos da sexualidade, e o nobreguismo e a chanchada se atraem irrefreàvelmente, como crianças num parquinho. Não adianta lutar contra, e Lísias não teve escolha: uma vez dentro do esquema nobreguista, pimba: putaria e corrupção. Água morro abaixo, fogo morro acima e chanchada em nobreguismo, ninguém segura.

O q redime oLdM brilhantemente a meus olhos e, no fim das contas, o eleva a meu panteão pessoal de livros favoritos na história da CLB, são duas singularidades.

Uma é q suas recorrências incansáveis, sua lógica hiperlínquica, sua construção paulatina de bordões, sua noção do agora como nodo numa hierarquia de escala global, são marcas do texto icônico de Furtado revigoradas pela inventividade e pelo instinto humorístico de Lísias. O protagonista Paulo é òbviamente um doente mental com um melê de sintomas histéricos, paranóicos e sociopáticos, e sua obsessividade e compulsividade são a cara do furtadismo. (Todo livro, peça ou filme é uma doença mental passageira, com enormes regiões da realidade suprimidas. Imagine viver 100% do tempo dentro dum miniverso ilha-das-flores ou crime-e-castigo. A propósito, veja Shutter Island ["Ilha do Medo", blérg].) Os paralelos com o estilo de Furtado são muitos. Tantos q, num dos primeiros capítulos, me irromperam vivamente os ritmos e entonações de Ilha das flores, na voz do ator Paulo (!) José; a partir daí, o livro todo me foi “lido” por ele. Façam o experimento: vejam o curta-metragem e em seguida leiam, digamos, as primeiras 50 páginas de oLdM imaginando a voz do ator.

A segunda singularidade de oLdM é seu sarcasmo. Ô coisa q falta neste país, viu. O triunfo de Lísias é ter achado o alvo perfeito pra piadas furtadistas: a repetição mecânica é um atributo dos bordões e da sexualidade, mas tbm é da industrialização desmiolada, do empreendedorismo autômata, da auto-ajuda corporativa, do marketing fraudatório, da lucratividade sociopática. O livro tira um sarro fenomenal do mundo corporativo em geral e do brasileiro em particular, com sua desnaturalização, sua dependência de idéias importadas, seu foco em reciclagem e rearranjo de idéias, ao invés de em sua produção. O mundo corporativo –composto 99% de imitadores vazios em posições subalternas, todos babando por uma promoção vinda dalgum Olimpo misterioso e etéreo– leva bordoada atrás de oblíqua bordoada do sarcasmo lisiano. O prazer dele escrevendo aquelas maluquices é patente: quase dá pra ouvi-lo gargalhando escondido atrás da página. A pilhéria constante é avassaladora… e –como pra agradar Lobato– muda um bocadinho a cada capítulo, levemente. Troça em cima de troça. Alguns exemplos: Paulo começa com nome e cargo q sua ambição empresarial vai apagando e transformando em outras coisas até ele terminar como um monomaníaco anônimo vagamente consciente do q o cerca; logo nas primeiras páginas, seu português de médio escalão já denuncia q ele jamais chegará à diretoria global de coisa alguma, e só foi promovido a seu cargo atual por alguma falha sistêmica temporária no Princípio de Peter; o futuro q vai resolver todos os problemas simplesmente não existe: o futuro *será* a China mas *é* sempre o Sudão; na única cena em q é forçado a demonstrar sua “brasilidade”, Paulo desmaia vergonhosamente; o sucesso da iniciativa privada brasileira passa necessàriamente pela ilegalidade; o Brasil não será uma potência econômica por sua criatividade e sanidade: será pela lascívia de sua lucratividade e pelo dinamismo de sua docilidade: é o país onde, implantando, tudo dá –e, corrompendo, todas dão.

Lísias (se o interpreto bem) quer dizer coisas, transcender o formalismo q sem dúvida deu origem a oLdM. Uma grande ironia é q o próprio autor, segundo me consta, é um defensor da otoridade da crítica formalista, pra quem a avaliação duma obra literária passa primordialmente pela análise de sua “linguagem, estilo e técnica estética”… E por isso, seu livro (¿Eu já disse q é genial? Sim, é genial.) tá construído sobre maquinações formais e não sobre percepções do humano: não é um insight sobre como gente de fato funciona qdo não tá numa Praça da Alegria, numa doença mental ou numa metáfora. O formalismo quase nada diz: é pouco mais q um passatempo entre um conteúdo e outro; e, contràriamente ao q teorizam certos literatos, o critério de valor duma obra não muda há 5 mil anos: ou a obra diz claramente algo q preste, ou não diz. O q me impressiona deveras em oLdM é q, ao associar o ramerrão típico brazuca à descerebrada compulsividade corporativista, Lísias realmente diz algo através da forma, algo específico deste livro, algo especìficamente ao brasileiro: demonstra a tese de q, pra ser um executivo eficiente no terceiro mundo, é preciso ter um certo grau de idiotia –e infira-se o resto.

Há mais um motivo pra q oLdM seja especìficamente brazuca. O leitor brasileiro há de rir bem mais q outros embora grande parte da trama seja uma chanchada apoiada no q é, em essência, um trágico insulto à mulher –a mutilação clitoriana. É um tema perigoso pra pilhérias, mas ainda dentro do repertório humorístico dum país em q pouco de nacionalmente hediondo ou horrendo acontece há mais de 150 anos. Mesmo em seu valor como crítica, oLdM chega demasiado perto de ser uma extensa e elaborada piada masculina sobre a sujeição da mulher como fonte de lucro empresarial. No ultimíssimo capítulo –qdo o leitor tá prestes a, por assim dizer, voltar à realidade–, Lísias tenta demonstrar q tá consciente da tragédia, q a crueldade fora da chanchada existe de fato: q não tamos muito longe duma situação em q muitas brasileiras pobres e ignorantes amputariam seu clitóris voluntàriamente pra ganhar uns trocados dum empresário débil mental. Mas esse capítulo vem tarde demais pra universalizar o livro: grande parte dele é aceitável e compreensível apenas no Brasil, e além de suas fronteiras não passará ileso.

E, acreditem ou não, é justamente por isso q vence esta peleja. ¿Vcs já se deram conta da enxurrada de informações q um leitor brasileiro precisa conhecer a priori sobre, por exemplo, a França pra poder entender um livro francês mais ou menos do mesmo jeito q um leitor francês o entende? Então. De tanto ler obras-primas da literatura universal, o escritor brasileiro carrega à frente dos olhos a cenoura da “universalidade do particular”. Desde pirralho, o brasileiro é treinado a apreciar e gostar de literatura importada, a entender seus cacoetes, temas e opiniões: o particular se torna universal por treinamento. Mesmo eu, aprecio e gosto de muita literatura estrangeira; até prefiro. Mas sinto falta de literatura brasileira sofisticada q outros países não entenderiam ou aceitariam muito bem, q precisariam duma compreensão a priori sobre o brasileiro pra entendê-la mais ou menos. Seria necessário focalizar melhor o amor-próprio. Um país inteiro q se prostra tão abjetamente perante um comitê de caga-regras ortográficas é às vezes incompreensível até pra mim, q aqui vivo há mais de 50 anos. O Brasil é um país singular, e precisa achar em si mesmo, não alhures, sua melhor literatura –própria e singular. Disso, oLdM talvez não seja o melhor exemplo imaginável; mas, dos livros q li nestes quatro anos de CLB, é o único de incontestável e brilhante brasilidade.

This entry was posted in CLB 2010 / 2011 and tagged , , , . Bookmark the permalink.

29 Responses to Jogo 14 – O gato diz adeus x O livro dos mandarins

  1. Crítica muito boa, com destaque pro começo. Me fez viajar bastante e me deu uma vontade absurda de ler O Livro dos Mandarins.

  2. Kelvin says:

    Estupenda, Dr.
    Um pensamento sobre certa irredutibilidade tradutória que é tão rara na literatura brasileira. Mas fico me perguntando: o que distancia Lísias de chatos como Guimarães Rosa ou Francisco J. C. Dantas – nos quais também opera uma “brasilidade”? Prefiro mil vezes a do Lísias, embora não saiba dizer a razão. Talvez seja por conta dessa desavergonhada hilaridade que vc apontou tão brilhantemente.

  3. Célio says:

    Ótimo texto, divertido e provocador, Dr.

    Apesar de ter gostado, não vejo sentido nele. Que outros livros brasileiros você colocaria no escaninho da repetição de bordões? E quanto aos livros “linkados” como Ilha das Flores? Não haveria antecedentes na literatura, como Cortazar que são os ascendentes mais sólidos? Quais outros exemplos dessa veia?

    Acho que o texto vai naquele linha de “o problema da literatura brasileira é x”, mas esse x me pareceu totalmente arbitrário.

    Mas, de novo, foi um prazer ter lido.

  4. Porra, PUTA resenha. Brilhante mesmo! Volto mais tarde pra comentar mais criticamente, por enquanto ficam os adjetivos.

  5. Na caixa de comentários da resenha anterior havia uma conversa sobre, resumindo muito, a falta de grandes escritores brasileiros na atualidade. Com esta resenha fica claro que temos pelo menos um grande crítico.

  6. Luca says:

    Sobre OLdM, quando li a definição do Dr. sobre o que ele chama de nobreguismo, lembrei imediatamente de O Paraíso é Bem Bacana, do André Sant’Anna (para mim outro grande livro que surgiu por aqui nos últimos anos). E quando ele relacionou esta estética da repetição à sexualidade, a aproximação me ganhou de vez.

    Ah, e o final da resenha do Dr. é um achado, bela análise de muita coisa que eu tentava formular na cabeça e encontro aí escrita num só parágrafo. Mas não vou bater muita palma, que não pode. Então: clap :)

  7. Márcio M. says:

    Resenha DO CARALHO (mesmo o plausível se contradizendo na questão do formalismo). Talvez seja realmente o melhor caminho para nossa literatura apostar na transcendência do nobreguismo (ui). Eis que, na ausência de grandes temas, essa pode ser nossa “salvação”. Contrariando o doutor, uma salvação formalista, o que, pra mim, não representa problema. Sou da turma do Schopenhauer que, em “Sobre o ofício do escritor”, diz expressamente: o bom literato é aquele que consegue trabalhar a forma. Para Schop(!), o conteúdo demandaria uma originalidade rara, pois quase tudo de necessário já foi escrito e não há novos assuntos que façam valer a qualidade de um livro. O Lísias parece ter seguido essa regra à risca. Pra mim, já é o vencedor moral da Copa.

  8. AM says:

    Ora, já está fartamento bem dito, mas vou redizer: Resenha DO CARALHO. Dr Plausível mandou e comandou. É isso que se pode ter aqui, nesse espaço, produzido por um sujeito que só é conhecido por seu pseudônimo, e que não apareceria em NENHUM veículo nacional. Só me resta fazer o que já fiz antes diante de tão rematada excelência: aplaudir.

    Comentários puxa-conversa:

    1 – O dito “romance” do Laub só me incomodou *mesmo* com o final no qual ele indica as referências. A vc, todavia, parece que incomodou pouco, pois vc centrou fogo no Faulkner, e sequer mencionou que se trata de uma parafernália referencial ostentada a posteriori. “O que quer o Autor com isso?”, me perguntei. Dr, please, expatiate. :-)

    1.1 – Nessa linha aí, de onde vem sua crença no poder da ficção do Laub? Vc já leu qqer coisa que o Laub tenha escrito da estirpe desse livro do Lísias? Me comprometo: continuo lendo o Laub livro a livro (como fiz com o Cuenca, p ex) mas não vejo nada, e leio por ser minha obrigação, por trabalhar com isso, e saber que coisas boas podem vir das fontes mais insuspeitas. Mas não continuo lendo porque achei o livro X ou Y do Laub importante, fascinante, de ruptura, imperdível, etc – e tudo isso, cum grano salis, poderia dizer do LDM (e de outras coisas do Lísias, que tem botado pra fuder – veja-se o conto que saiu na Granta, os parangolés que ele põe nos envelopinhos, ou os textos supostamente biográficos que ele vem espalhando por aí, p ex).

    2 – O problema do nacional na literatura: essa inversão que vc propõe parece saída fácil. Contra-exemplo: o livro do Gao Xingjian funciona não por ser dotado de uma chinesidade lapidar, mas por operar em um espaço no qual há algo de chinês – uma moralidade alternativa, um modus vivendi peculiar, etc – *e tb* algo de Proust, Perec, Faulkner… Se a resolução da coisa, do dilema de todo autor, privilegia um dos lados, a coisa ou tende a uma forma de neocolonialismo literário, ou tende ao regionalismo. Estou aqui apelando, mas de boa fé, e por não saber até onde vai seu argumento – mas acho viável dizer que Mirisola em “Fátima fez os pés” e Marcelino no “Contos negreiros” estão cheios de brasilismos, de inserções que exigiriam notas de rodapé para um gringo – e obviamente não é isso que produz o valor e o interesse que essas ficções possam ter.

    3 – Vamos dar mérito a André Sant’Anna, que tb investiu nessa lógica do formulaico que é explorada em LDM, e fez bem.

    Falei essas coisas todas, pois estou aqui tb pra puxar conversa. Mas o que importa mais é dizer, de novo, que o senhor, Dr, arrebentou. Sua resenha está o bicho, honra esta ágora, e é uma das razões que me levam a crer que esse espaço é realmente importante e valioso, e que será uma pena e uma perda se o Lucas Murtinho não perseverar com o trabalho.

  9. Ok, claro que o bom escritor deve ser capaz de trabalhar a forma. Mas quanto à questão do conteúdo e de que tudo já foi escrito e não existe nada que faça valer a qualidade de um livro, não, né?

    A resenha do Plausível foi docaralhesca, divertida, instigante. Minha visão do panorama literário varonil é mais ou menos parecido (mas temos o Daniel Galera, e eu sou fanboy dele). O brasileiro trabalha a forma porque é mais fácil. E, né, raríssimos os livros que trazem alguma novidade de forma; os que eu conheço no máximo reciclam o que já foi trabalhado.

  10. nunca havia comentado na copa,
    mas isto que colo abaixo me faz vir aqui e dizer: muito obrigado pela concisão, lucidez e pertinência (é bom quando uma crítica faz-nos pensar sobre muito do que lemos e já escrevemos ou pretendemos escrever):

    - isto:

    ¿Vcs já se deram conta da enxurrada de informações q um leitor brasileiro precisa conhecer a priori sobre, por exemplo, a França pra poder entender um livro francês mais ou menos do mesmo jeito q um leitor francês o entende? Então. De tanto ler obras-primas da literatura universal, o escritor brasileiro carrega à frente dos olhos a cenoura da “universalidade do particular”. Desde pirralho, o brasileiro é treinado a apreciar e gostar de literatura importada, a entender seus cacoetes, temas e opiniões: o particular se torna universal por treinamento. Mesmo eu, aprecio e gosto de muita literatura estrangeira; até prefiro. Mas sinto falta de literatura brasileira sofisticada q outros países não entenderiam ou aceitariam muito bem, q precisariam duma compreensão a priori sobre o brasileiro pra entendê-la mais ou menos. Seria necessário focalizar melhor o amor-próprio. Um país inteiro q se prostra tão abjetamente perante um comitê de caga-regras ortográficas é às vezes incompreensível até pra mim, q aqui vivo há mais de 50 anos. O Brasil é um país singular, e precisa achar em si mesmo, não alhures, sua melhor literatura –própria e singular.

  11. Dr.;

    Se estivesse comendo ervilhas, elas teriam saído pelo canal lacrimal.

  12. Hugo Crema says:

    Kelvin, concordei muito com o que o Plausível defendeu aí e digo mais. A brasilidade do Lísias é diferente da de um Rosa, da de um Palmério por não se ater a um caráter mítico, fundacional. Não se quer demonstrar ou inaugurar um Brasil, e sim usar o Brasil pra se inaugurar uma literatura. A supracitada brasilidade é canhestra e não burocrática, se filia mais à de um Machado, à de um João Antônio do que à de um Oswald. É usar o que temos de torto pra entortar um cânone ao invés de fundá-lo.

    A propósito, puta resenha. O livro do Lísias tem minha torcida desde o começo, e o Plausível conseguiu pôr em palavra por que.

  13. Hugo Crema says:

    Pra completar, tenho visto alguns comentários relacionando os Mandarins ao Paraíso é bem Bacana. Tenho pra mim que o Sant’anna tem um proposta bem original, que precisa levar mais adiante; mas nem vejo tanta correlação assim, além da apropriação do jargão corporativo imbecil.

  14. Márcio M. says:

    Faulkner dizia que o amor, o dinheiro e a morte são os três temas fundamentais para qualquer literatura. Quem sou eu pra duvidar.

  15. Kelvin;

    Querido, pare de atirar no velho Guima (quem bem merecia ser nome de rio, se já não o for). “Tutaméia” é uma das coisas mais divertidas que há, além da cena ajustada ao limite dos bois se encurralando feito laranjas caindo no funil – e o burrinho pedrês é coisa séria.

    Quanto ao brasileirismo nas letras, a busca do nacional, tendo a dizer que eu não vou nessa, que estou fora. Mas se estivesse, queria saber fazer assim, de forma plausível.

  16. Plausível,
    Excelente. Desmonta um e disseca o outro, e ainda diverte e intriga. Formalismo, nobreguismo e furtadismo na cultura brasileira. Universalidade e particularidade nas literaturas nacionais. Língua e literatura. Há muita coisa inteligente e instigante.
    A resenha confirma o que discutimos antes. Bom escritor faz falta porque cria leitor. Sintomaticamente esses jogos que andavam chochos encheram-se de comentários…
    Mas pra não perder o hábito da polêmica, aí vai: vc diz que um dos males da cultura brasileira é o nobreguismo (com seu amor às repetições, auto-referências, mais bordão que conteúdo), mas os exemplos que vc cita estão fora da literatura, e o Lísias explora bem o nobreguismo, transforma-o numa virtude, por paródia ou não (se é que é possível fazer a paródia do paródico). Isso quer dizer que, da ótica da literatura brasileira, nobreguismo não é problema? Qual é, então? Formalismos/experimentalismos de outra natureza, como esse que carregou o Laub? Ou o eterno abismo entre os registros da língua, como vc sugere com os comentários sobre a reforma? Como juntar essas pontas (hipervalorização de experiências formais, encastelamento da língua culta) para explicar a marcha lenta da literatura brasileira das últimas décadas? Será que é esse mesmo o problema? Ou o buraco é mais embaixo?
    PS: aumentou a vontade de ler o Lísias, depois de ler vc e Simone aqui. Vou ver se a Liv. Cultura entrega aqui em Júpiter. Ricardo não tá na Amazon…

  17. “Sinto falta de literatura brasileira sofisticada q outros países não entenderiam ou aceitariam muito bem”. Sim.
    E, caso não tenha ficado claro, do caralho a resenha.

  18. Pô, muito obrigado a todos pelos comentários e questões.

    Em parte talvez por ignorância, parto de premissas muito diferentes das q vários comentários supõem, e vou tentar responder àlguns deles mais tarde. Por agora, uma resposta geral. Muito do q falei sobre oLdM parte de opiniões minhas (admito q peculiares) sobre a língua portuguesa do Brasil, o brasilês; e tenho uma impressão muito forte —embora não exaustivamente fundamentada, pq não vivo disso— de q a língua duma pessoa é o recipiente idiossincrático em q ela deposita suas percepções: as q nele não cabem, a pessoa simplesmente não tem, ou passa bem sem, e é o formato desse recipiente o q distingue uma língua de outra. É difícil enxergar q a gente não tem certas percepções, ainda mais qto se trata de percepções excluídas da língua q a gente fala. Daí q a literatura de cada língua tbm tem características idiossincráticas q são difíceis de perceber, apesar de elas, tal como uma eminência parda, controlarem quase tudo q é expressável nessa língua. Acho q é preciso ter um tipo específico de sensibilidade pra enxergar isso. Então, muito do q escrevi sobre oLdM não tem a ver com literatura em si, com a identificação duma dada obra como parte duma tradição formal ou conteudista; tem a ver com a língua, com o brasilês, com aquilo q os músculos invisíveis da língua levam vc a dizer ou interpretar, *em vez de* outra coisa. É um assunto etéreo, admito, e um q infelizmente não tenho muita competência pra destrinchar. Mas é algo assim: vc lê uma tradução inglesa dum original de outra língua e, sem nenhum dado factual, só pelo movimento mezzoscópico das idéias e raciocínios, vc é capaz de perceber q o original é francês; vc lê uma tradução brasileira e, pelo andamento das frases, vc sabe q é uma tradução do espanhol e, pelos raciocínios, vc sabe q o espanhol já tinha sido traduzido dum original em inglês. Atribuo o amorfismo de muita produção brasileira em parte ao excedente avalânchico de produções estrangeiras q um brasileiro culto *tem* q conhecer, várias vezes maior do q o excedente estrangeiro q precisa tar na biblioteca de, sei lá, um francês ou japonês ou euaense ou mesmo um espanhol. O excesso de influência estrangeira sobre o brasilês não seria tão deletério se o escritor não fosse tão amiúde achatado ora por uma reforma ortográfica, ora por um debate idiota sobre a “norma” “culta”, ora por tradutores pouco sensíveis, ora até por tensões entre seu linguajar regional e as demandas do mercado sulista ou entre a gramática q sai de sua boca naturalmente e a q ele acha q se espera q ele escreva. Atribuo uma boa parte do sucesso de oLdM *como texto* ao Lísias ter, por assim dizer, se deixado levar pelo linguajar do executivo paulista e encontrado nesse linguajar as fórmulas de colocar o q ele queria dizer. Vejo aí, claro, uma coerência entre o q ele fala como analista e o q escreve como ficcionista —q, tal como Márcio M. apontou, desinfla um pouco meu argumento sobre o formalismo.

    Resumindo o acima, não é duma literatura de côco, miséria e samba, q tou falando; não é uma questão de “literatura nacional”, mas de q certas sinapses tendem a se juntar originalmente em certas línguas e não em outras; “literaturas idiomáticas” talvez fosse um termo mais próximo ao q tou pensando (catso, o adjetivo de nação é nacional; ¿o de língua é o quê?). É uma questão de aguçar a percepção daquilo q se perde qdo o escritor pega o vernáculo de seu dia-a-dia e o *traduz* prà “norma” “culta” pra não ser escorraçado ao publicar seu livro, como se ele fosse um escolar. Aliás, o escorraçamento começa na escola, não? Fosse eu um ditador, aboliria o “ensino” de gramática no primário e secundário. Coisa mais sem noção, sô.

  19. Kelvin (2)
    Acho q a ‘brasilidade’ de oLdM tá em tantos aspectos, q ficaria trabalhoso listar. Fora os q já citei no jogo, acho q o livro tem um clima de improviso e inseriedade presente em todo escritório de médio escalão no Brasil ao norte de SP, em todo corredor, em toda salinha de café. As premissas do q se diz ali, e da linguagem usada ali, são muito peculiares ao Brasil. É mais o lance das premissas do q propriamente da linguagem em si —q é o flanco por onde outros atacam.

  20. Célio (3),
    Justamente não citei outro livros com bordões pq não há. Há o q citei: obras curtas de poesia concreta, letras-listas, esquetes, coisas do tipo. OLdM é *o* livro q pega essa tendência do brasilês e a leva adiante a outro nível. As coisas q conheço do Cortázar são diferentes: são mais como uma espiral maníaca q vai enredando os personagens mais e mais a cada recorrência. Os bordões de oLdM não interferem em nada na trama; já as espirais do Cortázar são elas mesmas a trama.

  21. AMP (8),
    “um sujeito … que não apareceria em NENHUM veículo nacional”
    Se eu tivesse procurando elogio, esse taria de bom tamanho. Obrigado.

    1- Tbm não entendi bem por quê o Laub colocou aquilo no final. Ele deve ter se arrependido, pq deu munição a críticas como a minha e não adicionou nada. Vi algo parecido nalgum romance ano passado (não me lembro qual), e a impressão q tive ali foi duma mescla de “auxílio ao estudante” com “aviso ético ao Creative Commons“. Achei incauto, pq haverá quem interprete presunção.

    1.1- Do Laub, só conheço esse livro; mas sim, vejo muita coisa potencialmente excelente nele. Ele mostra uma percepção aguçada de como acontecem interações reais entre humanos —coisa q oLdM só arranha. Acho q, em oGdA, Laub caiu na armadilha de estruturar uma trama no subjuntivo presente imperfeito pretérito da passiva pronominal, ficou brincando com a idéia e ignorou tudo q ele conseguiria fazer com seus personagens. O formalismo faz esquecer q, pra ser interessante pra humanos, trama é entre personagens, não entre formas. À medida q lia o livro, fui ficando insatisfeito por ver q o próprio Laub se distraiu do foco em seu talento.

    2- Meu argumento sobre a literatura “idiomática” (?) e não “nacional” já tá ali no (18), meio confusamente. Não se trata de “até onde vai” meu argumento, mas de “de onde ele sai”. Há idéias q se juntam facilmente numa língua e, em outras, só pegam no tranco. É cansativo pegar no tranco, ficar insistindo e insistindo nas sinapses difíceis, como se só désse pra ser sofisticado e complexo sendo intricado ou “culto”. O caminho das coisas q a língua diz com facilidade e ligeireza vai muito mais longe; só é preciso encontrar o artífice q pegue as peças e as monte num todo forte e significante.

    3- Durante a, digamos, confecção desse jogo, pensei bastante em tua resenha sobre O paraíso é bem bacana, e fico contente q alguma coisa na minha tenha trazido esse livro à baila. Pq é assim, né?: o Brasil tem coisas nalguns cantos, coisas q um escritor sofisticado e generoso pode elevar a um lugar ainda inexplorado da humanidade, se ele enxergar o q o brasilês pode fazer.

    Vc e outros dizem q minha resenha tá do caralho; termino dizendo q O livro dos mandarins é q tá. Louros ao Lísias, please.

  22. Refrator (11),
    HAHAHAHAHAHAHA
    Obrigado, não só por esse mas por outros comentários teus por aí. Tou vendo tbm q vc tá esquentando os motores pra me redargüir. ¡Manda brasa, curvelano!

  23. Caminha (16),
    Não vejo problema nos bordões. Eles são um sintoma de outra coisa, e é melhor eu nem falar dela aqui; começo a falar de gramática, e aí fico chato. Mas em meu blogue tem uma série q chamo de “Origens lingüísticas do atraso brasileiro”. Sim, é pra ser mezzo cômico.

    Lísias conseguiu a coisa rara de sintetizar várias soluções brasilescas numa sincronia entre linguagem, caracterização e trama. Olha os personagens, por exemplo. São pessoas q qqer brasileiro reconheceria em qqer lugar como brasileiros; e se vc trabalha em escritório, mais ainda: eles têm esse cinismo soft aliado a uma subalternidade morosa e gersônica. Até os personagens sudaneses são brazucas: olha como eles tiram sarro de Paulo pq ele desmaia qdo vai jogar futebol (e esse é, claro, um problema: como caracterização psicológica de personagens, Lísias não vai *até o Sudão*; vai até Pirapora d’Oeste; mas tudo bem, tamos no âmbito cômico). A brasilidade do livro tá em sua linguagem e redundâncias, mas tbm em seus raciocínios, em seus desfechos. Tem tbm outros níveis de brasilidade: ¿por quê Paulo desmaia com sua dor nas costas no único momento em q é forçado a demonstrar sua “brasilidade”? Considerando q sua dor é certamente um sintoma histérico, ¿é um símbolo de quê? ¿Por quê se justifica q um leitor brasileiro veja nessa dor nas costas um possível símbolo de algo sobre o Brasil englobando sua confusa política? Tem coisas aí q, como eu disse, leitores estrangeiros não enxergariam de cara.

    Mas não me interprete mal, por favor; meu jogo não tá diagnosticando a literatura brasileira e criticando por falta de brasilidade. Tem lugar pra todo mundo. Disse apenas q “sinto falta” de literatura sofisticada especìficamente brasileira, uma falta q oLdM ajudou a sanar.

    Dos outros pontos q vc resumiu, falei em respostas anteriores. Mas pra vc, especialmente, q ainda não leu oLdM, acho q vai gostar.

  24. Perdão pelos itálicos.

    Agradeço muito a todos pelos elogios. Como diria o AMP, agora é a ágora.

  25. Dr.;

    Eu tenho muito pouco a oferecer, ainda que numa de mezzo cómico, nessa discussão própria à uma coiné brasílica, muito riscado pelo canivete de Richard Morse num pedaço de pau-brasil. A hipótese é muito forte, que dado o oxímoro me obriga a dizer que é uma tese, e indica que há uma configuração expressiva de expressões que indicaria que o melhor é: deixa rolar e não atrapalha, seu gramático mala – ainda que, antes deva haver um esforço monumental de orientação para se escrever; do tipo, conhecer a gramática que logo mais pretendo dispensar. De alguma forma, o que você sugere tem ressonância em propostas como a do portuñol selvagem da moçada cartoneira ao redor do Douglas Diegues. O que vocês todos parecem buscar é um horizonte literário, ou linguageiro, de não fugir da vida que vivemos por aqui – sendo o “aqui” qualquer lugar em que seja possível chamar de Brasil; se não for mais, azar -, e que, impreterivelmente a vida dita só tem nexo com o que é dito enquanto o que se diz é dito na boca de gente viva – mesmo que seja um cadáver autor. Posto de outra forma, o pecado à Laub e outrem seria a de propor uma comunicação natimorta porque se exime da reponsabilidade de estar vivo, escrevendo enquanto tal, e tratando a si-mesmo como escritor póstero, como se tamanha dobra temporal fosse possível somente pelo desejo expresso numa forma; também conhecida como a “fórmula do sucesso”- e não precisasse de mil e uma maquininhas de motores quânticos para movimentar. Mas, e aí sou eu, acho isso tudo muito grande – e nem sempre grandioso. É muito bonito, gosto muito dos livros de Richard Morse e tal, aprendo muito lendo você e foi uma surpresa ler Douglas Diegues – e vocês todos, muito diferentes, por fim, só para confirmar a tese de cada um -, mas eu me pergunto: o que acontece com a sua discussão quando reduzimos a escala? E se reduzimos a escala, o que acontece quando ampliamos a escala? O que permite eleger a nação como escala segura? Porque, ainda que concordando, há toda aquela parafernália cartoneira de literatura de fronteira, que é o portuñol selvagem. E aí, as semelhanças dissolvem em diferentes planos de determinação – porque exprimir como “de fronteira” forja uma relação adversa à expressão do tipo “coiné americana” à Morse, fazendo com que a relação entre escalas figurem maiores ou menores graus de determinação, de forma que “nação” seja de uma forma cruzada, epifenômeno de um e de outro.

    Não me fiz entender, eu sei. Mas enfim: “AHÁ! UHÚ! Ô LÍSIAS, EU VOU LER SEU LIVRO!”

  26. Refrator,
    É legal ver q vc entendeu. É mais legal ainda ver q não entendeu tudo, pq aí tenho algo a dizer… <:•)

    Sim. Acho —tal como o Morse (Nice to meet you.)— q o Brasil (como nação ou parafernália de nações) tem coisa nova a oferecer no âmbito humano. No âmbito da literatura (q é o q tá na berlinda aqui) tem esse lance da língua q é européia e vai se mesclando com tupi-guarani num degradé à medida em q avança ao centro da Sudameris e vira espanhol lá no Pacífico, do jeito inverso do q aconteceu na Iberia.
    É difícil esquecer q o português é uma degeneração do espanhol, falado por aquela gente empurrada pro fim do mundo conhecido até 1492. Mas pra não ser xingado por colonialistas atávicos, o escritor brazuca tem q se adequar (cóf-cóf) à “norma” “culta” q vem daquele fim de mundo.

    Mas o brasilês já é *outra* coisa: é a(s) língua(s) do Brasil, ponto. Isso não quer dizer *de maneira alguma* q a temática de coinés tais como o portuñol selvagem TENHA q ser “a voz das águas, do sol, das crianças, dos pássaros, das árvores, das rãs” (pra citar Manoel de Barros na Wikipedia), ou ser abordada “a partir da chave do atraso” (como disse o Stephen na PC2). Os coinés e o brasilês natural q um escritor fale podem perfeitamente ser usados pra investigar *q-u-a-l-q-u-e-r* tema do âmbito humano. Veja o q fez o Lísias: pegou um linguajar de escriturário paulista e o relacionou com a doença mental, com o FHC, com a globalização, com a elegância masculina fake, com a mutilação clitoriana &c. Criação, em parte, é isso: juntar duas coisas antes separadas e registrar as faíscas q saltam. Pra q algo assim dê certo, basta q o *escritor* tenha uma inteligência sofisticada, como o Lísias tem.

  27. Dr.;

    É legal ver que eu entendi. Tava apertado aqui, que só vendo.

  28. E ¡¡PARABÉNS AO LUCAS MURTINHO E ESPOSA PELO FILHO!!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>