Bem-vindos ao nosso jogo especial de Carnaval. Uma boa leitura a todos!
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Jurado: Fábio Silvestre Cardoso
Sobre: É jornalista e professor universitário. Desde 2005, é colaborador do jornal Rascunho. Já escreveu, entre outros, para o Digestivo Cultural e para o Jornal do Brasil. Esta é sua terceira participação na Copa da Literatura Brasileira.
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O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, e Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, encontram-se em um grande jogo desta primeira fase da presente edição da Copa de Literatura Brasileira. Em verdade, pode-se afirmar que se trata de um “clássico” (do ponto de vista da disputa e do que está em jogo), tomando aqui como referência o significado que o vocábulo possui junto aos amantes do futebol. Além da disputa da Copa, o confronto entre Bernardo Carvalho e Edney Silvestre é o primeiro reencontro público das duas casas editoriais, que, no final de 2010, perderam a compostura em público em torno de um jabuti. Para quem não se lembra, o fato de Leite derramado ter levado o prêmio de livro do ano, a despeito do fato da primeira colocação de Se eu fechar os olhos agora, fez até mesmo que se criasse uma disputa política a esse respeito, mobilizando cartas e manifestações de lado a lado – de Caetano Veloso a Reinaldo Azevedo, passando por Luiz Schwarcz e Sérgio Machado (os dois últimos, responsáveis pela Companhia das Letras e pelo Grupo Record, respectivamente). Por tudo isso, nota-se, já neste primeiro parágrafo, que este é um duelo bem interessante para os amantes de confrontos polêmicos, bem como para os apreciadores da literatura em geral.
O livro de Bernardo Carvalho traz a história de uma busca. Escrevi “história”? Fui impreciso: são várias histórias que, a princípio, de tão distantes parecem que não vão se encaixar, ou, pior, não serão compreensíveis ao leitor. Assim, se no início trata-se da busca de uma mãe por seu filho, à medida que a narrativa toma corpo o leitor descobre que a obra aborda vários casos de encontros e desencontros de famílias tristes demais. Experiente em ambientar suas narrativas em habitats diferentes ao público brasileiro (haja vista Mongólia e Nove noites), Bernardo Carvalho escolheu, desta feita, a Rússia para dissecar sobre a tragédia familiar que tem nas mães o núcleo de seu drama. Toma emprestado, ainda, o conflito geopolítico entre a Chechênia e a Rússia como o dado que garante verossimilhança ao romance.
De sua parte, o romance de Edney Silvestre também versa sobre uma busca. Desta vez, dois garotos, numa pacata cidade do estado do Rio de Janeiro, enfrentam o grande desafio de suas vidas: desvendar o crime cuja vítima é uma mulher que aparece mutilada às margens de um lago. Naquele mesmo ano, diversos eventos políticos acontecem no mundo. O homem chega ao espaço e a disputa internacional entre Estados Unidos e União Soviética alcança um novo patamar, com o Brasil como observador. Os garotos Paulo e Eduardo têm seu caráter forjado diante de uma experiência extraordinária, o que faz do livro de Edney Silvestre uma peça singular no aspecto não apenas literário, mas de formação das personagens principais dessa história.
Se eu fechar os olhos agora também conta com uma estrutura bem articulada, enfatizando as diferenças sociais e culturais de Paulo e Eduardo. O primeiro recebe como criação as surras do pai e o desprezo do irmão; o segundo é menos preparado para o que se chama de “vida nas ruas”, sentindo-se não apenas mais fragilizado como também inadequado para as diversas situações que ambos enfrentam ao longo do romance. E esse, talvez, seja o grande destaque do livro: trata-se de uma história de suspense, sem descuidar do contexto histórico e do seu relevante significado para o momento em que os jovens daquela cidade simples do Rio de Janeiro viviam. Assim, é notável que o autor não acrescente peso político às atitudes dos garotos, mas é como se a política estivesse ao redor, conspirando a favor daqueles que desejavam manter o crime oculto e desfavorecendo aqueles que desejavam buscar a verdade por trás do discurso oficial. Existe um tom amargo nessa evidência que o autor sub-repticiamente transmite: as mazelas do Brasil parecem orgânicas às raízes culturais do país. Diante do desafio de compor esse mosaico de eventos de ordem internacional e local, o autor demonstra um desempenho admirável na construção da narrativa.
Todavia, mesmo esse esforço de imaginação de Edney Silvestre não é capaz de superar a mágica composição narrativa de Bernardo Carvalho em O filho da mãe. Se o argumento aqui parece excessivamente sentimental para um romance adulto (as mães como personagens decisivas nos conflitos bélicos), é sua condução que dá ao livro um tom essencialmente elevado. Dito de outra maneira, a obra de Carvalho acerta não apenas no gênero e no tom da narrativa, mas, essencialmente, na articulação das histórias, o que demonstra o pleno domínio do autor sobre os mecanismos internos do fazer literário, para utilizar um jargão acadêmico. Aqui, a propósito, poder-se-ia justificar essa vitória exclusivamente pela formação dos autores – ou técnicos, como quero chamá-los neste texto, aproximando-me da metáfora do futebol. Todavia, muito embora a formação de Carvalho, que é jornalista, seja próxima à de um intelectual acadêmico (possui mestrado pela Universidade de São Paulo), a regra no Brasil é exatamente a de que os melhores contadores de história são os que não contam com toda essa formação intelectual. Mais: pesa a favor de Edney Silvestre o fato de, como repórter de TV, ter de contar histórias diariamente em sua profissão.
O elemento central que torna o romance de Carvalho mais poderoso do que o de Silvestre é o engenho do texto. Explico melhor: no texto de Carvalho, especialmente se comparado ao de Silvestre, o quebra-cabeças da história está inacessível às tentativas de descoberta do leitor. Isso porque o texto do autor de Se eu fechar os olhos agora, ainda que estabeleça uma narrativa a um só tempo singular e original, não escapa a uma estrutura até certo ponto previsível, mesmo quando se trata da revelação do desfecho da história. Carvalho, por sua vez, manipula os diversos personagens e as cenas quase que como a despistar o leitor num labirinto em que só ele conhece tanto os caminhos como os descaminhos. Para os leitores, cumpre prestar atenção para não se perder; ao escritor, cabe trair as expectativas por um desfecho habitual. É a partir dessas diferenças que o público toma conhecimento das artimanhas de seus técnicos/autores, e as de Carvalho são as de um exímio estrategista. E ele consolida isso lançando mão de outros elementos.
Afinal, vejamos: tanto O filho da mãe quanto Se eu fechar os olhos agora utilizam-se de inúmeros dados factuais como referência (seja o conflito geopolítico na Chechênia, seja a chegada do homem no espaço) para construir uma espécie de sentido verossímil à história. Carvalho e Silvestre apostam na reconstituição descritiva dos cenários em questão (a São Petersburgo de 2003, a pequena cidade fluminense de 1961). O que muda? Em Carvalho, o leitor quase crê que aqueles eventos efetivamente aconteceram da maneira como ali estão narrados, enquanto no livro de Silvestre essa hipótese logo é descartada à medida que a história se desenvolve. Alguém pode contra-argumentar, aqui, enfatizando que a ficção não deve obedecer à lógica de um reality show. É verdade. Entretanto, é de causar alguma sensação o fato de volta e meia o leitor duvidar da ficcionalidade da história que lê. E o talento do romancista se mostra na concepção de uma história tão original que o impasse da dicotomia ficção-realidade fica em suspenso.
Tal constatação pode ser estendida, ainda, à caracterização das personagens: em Bernardo Carvalho, não há necessariamente um herói ou mesmo um único culpado. Os únicos inocentes são os leitores tragados nessa disputa por amor, ego, compreensão e, por que não?, tolerância. Mesmo as mães, nesse caso, têm seu papel de culpa nos dramas que se desenvolvem nas páginas do romance. Já no livro de Edney Silvestre, está claro que a única culpa de Paulo e Eduardo é estarem no lugar errado e na hora errada, e a obstinação da dupla efetivamente qualifica os personagens como os heróis do romance. O leitor, a essa altura, pode perguntar: mas em que necessariamente todos esses pontos garantem a vitória de O filho da mãe sobre Se eu fechar os olhos agora? Ora, ao combinar diversos aspectos singulares para a concepção de sua história, Bernardo Carvalho compõe um livro cujo mérito ultrapassa o da boa escrita ou, “simplesmente”, o do bom romance. E isso não é pouco. Em outras palavras, não é que o livro de Edney Silvestre seja fraco – é melhor do que muito romance de medalhões por aí –, mas suas qualidades, que não são poucas, não conseguem alcançar o domínio da técnica literária de Bernardo Carvalho. E isso só é possível se observar no detalhe. Mas, enfim, já houve quem dissesse que os clássicos são vencidos nos detalhes.
Talvez, se tivesse encontrado outro adversário, as qualidades de Se eu fechar os olhos agora não seriam tão elementares assim. Perante o romance de Bernardo Carvalho, a estrutura do livro de Edney Silvestre é apenas correta demais. É por esse motivo que a vitória de O filho da mãe é o triunfo do exercício da criação literária em sua mais plena forma.











Juro que ao acompanhar (pela primeira vez, diga-se de passagem) as premiações para Ficção Brasileira em 2010, eu simplesmente não conseguia compreender como O FILHO DA MÃE não obtera nada. Provavelmente deve haver algo como o pensamento “Bernardo Carvalho já ganhou tudo isso antes, não precisamos lembrar dele ESSE ano.” Creio que o romance foi dos mais injustiçados.
Comecei a ler o autor em 2010, depois de muitas indicações de amigos e tornei-me fã. E foi com grande apreensão que vi seu romance ser equiparado na Copa com o papa-prêmios do ano passado (que, confesso, não me deu vontade de ler). Alguns amigos até me responderam “o Silvestre é que devia ficar com medo do Carvalho”.
Fico feliz que meu favorito tenha passado pelo menos dessa fase. =)
Notando que a pacata cidade do interior do Rio de Janeiro é a cidade na qual Edney passou sua infância (ou assim ouvi dizer da boca dele), então mais uma vez: se arte é enganação, ponto pro Bernardo Carvalho.
Excelente resenha; não há o que acrescentar nem o que tirar. Li os dois livros e concordo que o livro do Bernardo Carvalho é o melhor, pelos mesmos motivos apresentados no ‘julgamento’. Contudo, Se Eu Fechar Os Olhos Agora também é um ótimo romance, e é uma pena que ele saia logo na primeira fase.
Sinceramente, aqui das braguilhas e botões – dado que costumam trabalhar em conjunto -, eu desconfio que o resenhista, por elegância ou alguma outra coisa que não se confessa, foi generoso com Edney Silvestre. Muito generoso. Mas só desconfio.
Como falei no jogo anterior é minha estréia como torcedor literário. Como antes disso sou torcedor futebolístico, acho que o professor Silvestre Cardoso entende muito de literatura e pouco de futebol. Jogo sem placar, pode isso? Fiquei com a impressão que a vitória se deu apenas pela envergadura do Bernardo Carvalho e que “o pleno domínio do autor sobre os mecanismos internos do fazer literário” foi um pênalti marcado pelo juiz pra dar a vitória ao clube que possui mais tradição e maior torcida.
Vinícius! Acho que, assim como no futebol, é comum os times com “maior tradição e maior torcida” efetivamente vencerem os jogos contra times iniciantes ou de menor projeção. Embora, que fique claro, eu não tenha sentido uma imposição disso na resenha do Fabio e, sim, não entendo nada de futebol. Na minha opinião, o melhor livro venceu. Mas para fins de Copa de Literatura, esclareço: não há tradição de estabelecer um placar ao final do jogo. Obrigatório é apenas declarar um vencedor.
a resenha foi tranquila, mas também achei generosa demais com o edney ‘oi gente adoro escrever manifestos imbecis’ silvestre.
Cardoso,
Gostei. Em vez de apresentar os dois livros separadamente, vc deixou a bola ir e vir no campo da resenha, em ataque e contra-ataque.
Mas fiquei cuma purga atrai da oreia. ¿Sabe aqueles filmes euaenses sobre eventos extra-Euá? Qdo tentam retratar a cultura e modos-de-ser dos estrangeiros, os caras nunca acertam a mão. Evidência próxima são os filmes ambientados no Brasil; tem disparate à rodo; qqer brasileiro vê e diz, “Ei, isso não é samba.” ou “Isso nunca aconteceria no Brasil.” ou “Um brasileiro não diria isso desse jeito.” &c &c. O diretor, claro, dirá q o filme representa a visão *dele*: qdo ele escuta um samba, é *aquilo* q ele ouve, e é aquilo q seu público ouve. Mas aí vc pode objetar q, se é pra ser assim, ele deveria ter ambientado o filme nos Euá mesmo, catso. Se o bejetivo é retratar uma realidade, ¿que motivo exceto a preguiça e a pressa justifica distorcê-la? A resposta, temo, envolve os caprichos do mercado.
Me pergunto se o BCarvalho retratou bem a Chechênia, se um Checheno lerá o livro e dirá “É, somos exatamente assim.” Minha pergunta nem terá resposta nesta longínqua CLB, obviamente. Mas outra pergunta se assoma: isso q o BCarvalho escreveu ¿não seria exatamente a mesma história se ambientada nalguma guerra intestina brasileira? ¿Que há de essencialmente, intransferivelmente checheno nela?
Vinicius,
o Edney não participa do manifesto silvestre, que é realmente imbecil.
Li os dois livros e concordo com resultado do jogo. “O filho da mãe” não é um grande livro, mas é literatura suficiente para ganhar fácil de “Se eu fechar os olhos agora”, que, sem dúvida nenhuma, é um livro de um escritor iniciante. Tudo bem, gostei do negócio de botar a tal da mulher assassinada como um símbolo dessa nossa pátria tão vilipendiada por todos, poderosos ou não. Mas, dois garotos de 12/13 anos, junto a um senhor idoso, investigando um crime…, sei não, juvenil demais para mim.
Quanto ao livro de Bernardo Carvalho, achei-o forçado, pela quantidade – a meu ver – exagerada de subtramas, que, ao final, tem que se fechar.
Mas o resultado é justo.
É isso aí.
Como sou fã do Dr. Plausível, vou pensar no que escreveu, que é coisa de pulga sim. Mas não sei se a pulga coça tanto, ou se o lugar da pulga é atrás da orelha. Mas confesso que sua pergunta fere um princípio básico das resenhas em geral, que é a busca de verossimilhança por relação com o mundo externo ao romance; é mais verossímil porque, além de estar escrito aqui, tá no jornal. Pensemos no Bernardo Carvalho. Isso não faz a menor importância em quase nenhum romance que ele tenha escrito, especialmente em “Bêbados e sonâmbulos”, “Iniciais” e “Teatro” – para não dizer do livro sobre Sade cujo ambiente é, bem, para falar dele teríamos que dissertar sobre ecologia cognitiva; em “Mongólia” e “Nove Noites” o lugar não é reconstituído de forma a fazer-se verossímil no sentido de que “eu estive lá” e, muito menos que “há alguém lá”. Confesso, não li “O Filho da Mãe”. Vou ler por causa da pulga. Mas desconfio que não há pulgas na Chechênia.
(saio da sala, mas não sem antes prestar reverência a Dr. Plausível, declamando suave e calmamente: “Meeeessstre!”)
Plausível,
Entendo suas colocações. Mas o valor me parece ter sido dado não à representação da realidade mas da verossimilhança. “Quando acordei, o dragão ainda estava lá” isso é verossimilhança, a possibilidade das palavras formarem um sentido de “verdade”, independente da existência do real na narrativa.
Me pergunto se realmente importa que um Checheno leia esse livro e se veja retratado, mais do que um brasileiro possa ler o livro e entendê-lo como uma boa obra de ficção? Podendo ou não se identificar mais ou menos com os personagens de Tchechov do que com os de Bernardo de Carvalho, Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa.
Curvelo e Torres,
Reconheço vossos senões em minha pulga. Eu só gostaria de saber do Cardoso (ou de qqer outro leitor de oFdM) se a história & a estrutura toda do livro não poderia igualmente ser ambientada, digamos, na guerra do Paraguay ou na dos Emboabas. Se não, ¿por quê? ¿Que é q tem aquela situação específica a ver com essa história & estrutura específicas? E se sim, ¿de onde pode ter vindo a decisão do BC em prol de ambientá-la na Chechênia? ¿Teria aí a mão invisível do mercado? Qqer editor sabe q o potencial de vendas dum romance ambientado na Chechênia venderá mais do q se no Paraguay.
Ou ¿é tudo meio aleatório –o BC tava um dia lendo sobre a Chechênia, aí se lembrou duma coisa q queria escrever há tempos, juntou as duas e o livro foi saindo?
Notem q minhas questões são quase sempre sobre a difícil arte de articular forma e conteúdo coesamente. (A reação automática e fácil de muitos escritores a essa questão é a chatonilce de fazer o livro um espelho gratuito de si mesmo, mas tou divagando…)
Mas Fernando;
quem levantou esta bola, precisamente, foi o resenhista.
Dr. Plausível;
Tentei colocar senão, mas não tive alternativa senão dar vazão ao que disse e cobrar algo de lavra própria. Faço minhas as suas questões – o que descamba tudo, mas fazer o quê?
Desculpem as frases tronchas: cabei de acordar.
E obrigado pelo apoio, Ref; eu q sei qto tou longe disso.
Plausível,
o romance é ambientado na Rússia por um simples motivo. Obrigação contratual. O livro foi escrito por encomenda para a coleção Amores Expressos. Em tal coleção alguns escritores foram selecionados para viajar para uma cidade do mundo para ambientar uma estória de amor.
A mão do mercado não é nada invisível. Por sinal mercado não tem mãos, mas os empresários que formularam essa coleção. In casu, a ambientação foi declarada. Assim como no livro do Joca Terron, que também compete nesta edição.
Mas entendo seus questionamentos, que por sinal, estão bastante alinhados com o livro de Ricardo Lísias, que ainda terá seu jogo nessa copa.
Minha pergunta é se realmente importa os motivos que leva uma pessoa escrever assim ou assado. Não sou exatamente afeito à critica genética e para mim o importante é o resultado do romance. O texto é mais importante que seu autor ou seu editor.
No final, prevalece a frase de Flaubert: Madame Bovary sou eu.
Entendo a obrigação contratual. Mas a pergunta que eu faria, seguindo Plausível até onde dá pé pra mim, é: valeu a pena a Chechênia, São Petersburgo, etc., ou poderia não sê-lo e tudo igual? Há coisas que só no sertão, em Buenos Aires, Big Bang (vide cosmicômicas do Calvino), mas outras pas de tout. Qual é a fita do filho da mãe?
Por outro lado. A ambientação de Lavoura Arcaica deixaria de ser poderoso se acontecesse no interior da Espanha, ou na Albânia, ou no interior dos Estados Unidos?
Essa pergunta faz sentido para este texto? Eu não tenho certeza. Creio que a história é mais importante. A Russia é um subterfúgio necessário e bem posicionado. A história prevalece. Essa é minha posição. Mas enfim… As caixas de comentários é o lugar para a respeitosa discordância.
Acho que concordo com o Fernando. A universalidade da história é uma das soluções para o problema contratual de ambientar o romance na Rússia. Outra seria criar um romance realmente russo, ou abraçar o absurdo de um romance brasileiro na Rússia. Carvalho talvez tenha escolhido a solução mais fácil entre as três, mas não dá para criticá-lo por isso. Cada escritor seleciona seus campos de batalha.
O que o Dr Plausível falou no comentário 8, sobre a possibilidade de um checheno considerar a Chechênia bem retratada por Carvalho – e os paralelos com as vezes em que brasileiros consideram o Brasil mal retratado por americanos – interseciona uma questão em que venho pensando há um tempo, sobre as consequências da escolha de um público por parte do artista.
Carvalho dificilmente está escrevendo com chechenos em mente, assim como o diretor que colocou um mexicano para convidar a protagonista do seu filme a visitar o Cristo Redentor em São Paulo não estava pensando no público brasileiro. Além da seleção de campos de batalha, os escritores e artistas também escolhem públicos. Erros factuais ou emocionais sobre a geografia de uma história às vezes são mero sintoma dessa escolha, percebidos apenas por quem, na cabeça do artista, não faz parte do público-alvo da sua arte.
A “universalidade da história” tá muito caro. Não compro, não.
Decidi não fazer comentários antecipados sobre o teor dos livros de nenhum dos quatro primeiros jogos – serão os que mais tarde desembocarão na partida que vou julgar, e não quero fazer parecer que já tenho uma ideia preestabelecida dos oitos livros (agora seis) que posso vir a julgar lá na frente.
Mas Plausível, com relação aos motivos do Bernardo Carvalho para ambientar o livro na Rússia e abordar a Chechênia, te passo o link de uma entrevista que fiz com ele na época do lançamento do livro, no qual ele fala da origem de sua vontade de fazer de seu livro no projeto Amores Expressos um romance de guerra:
http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/2009/04/01/as-maes-e-a-guerra/
Carlos;
Legal a entrevista, mas isto não responde ao problema de como isso opera dentro do romance. No caso de eu não conhecer as circunstâncias do financiamento de Amores Expressos; se eu não ler sobre as desventuras de Bernardo Carvalho em St. Petersburgo; se eu ler só o filho da mãe, a Chechênia vale a pena?
Isto porque responder problemas da vida no romance com a vida do romancista nem sempre satisfaz – até porque vem e aparece um Isidore Ducasse e bagunça tudo.
Refrator,
Mas a Chechênia precisa valer a pena? Se o romance fosse em São Paulo, exigiríamos paulistanidade da sua parte? Ou, se a história funciona em qualquer lugar – compra que eu faço um desconto – o cenário não importa tanto e a Chechênia opera como um pano de fundo sem importância, e os chechenos insatisfeitos que se danem?
A questão, acho, é saber se Carvalho estava interessado intrinsecamente na chechenidade ou só colocou a Chechênia no mapa do romance porque o romance tem que acontecer em algum lugar, e pelo que entendi em algum lugar em guerra, e a Chechênia estava dando sopa (independente de obrigações contratuais). Se ele estava a fim de chechenizar podemos exigir chechenice. Se não, se a Chechênia é só um cenário qualquer, acho que não faz sentido cobrar do autor algo que ele nunca se propôs a fazer.
Ah, entendi agora. Como sou desligado. oFdM faz parte duma idéia editorial, sua besta. ¿Tá vendo o q dá não ler jornal?
Dum certo ponto de vista, é pior do q eu pensava. Uma editora tem uma idéia (“Ei, q tal se a gente fizesse assim, ó.”) e o resultado final é um “triunfo do exercício da criação literária em sua mais plena forma” –sendo q “um exercício da criação literária” necessariamente inclue a criadora idéia de arteficialmente plantar um escritor nalgum lugar icônico do planeta durante um mês. Hm.
Bom, ¿que seria das cantatas de Bach, das tragédias de Shakespeare se não existissem os mecenas? ¿que seria de tantas ótimas colaborações jazzísticas se um produtor não tivesse ideado e bancado um encontro num estúdio? ¿que seria dos motoqueiros se não existissem as encomendas? Li o Cordilheira do Galera (tbm da Amores Expressos) e gostei –até achei q ele pegou bem uns lances porteños (e é claro q esse livro só pode ter se beneficiado do fato do Galera morar em Porto Alegre). Então a encomenda pode não significar muito ao nível literário-letras-no-papel. Eu só achava q a literatura hoje já estivesse mais afastada desse tipo de estímulo artificioso.
Plausível,
Você acredita que a verdadeira literatura é aquela feita somente por “Amor à camisa”? A literatura não é um também uma artificialidade? Os livros de Graciliano são menos geniais por que estavam alinhados ao partido? Memórias do Cárcere é menos literatura que Angústia?
Tcheckov e Balzac escreviam sob encomenda, contra o relógio e por isso deixaram de ser ainda maiores?
No final das contas, o livro será bom ou ruim pois foi encomendado? A chechenidade dos personagens muda a força da história?
Minha opinião é que nada disso importa. Que o romance deve se sustentar sozinho, alheio à chechenidade ou à encomenda.
Fernando,
Realmente, não acho q importe muito, *depois* q a obra tá criada. Qdo vejo uma pintura ou escultura encomendada e minuciosamente pré-definida pela igreja renascentista, enlevo-me, embeveço-me, extasio-me – ou seja, tenho exatamente a reação estética (se não a religiosa) pré-definida pela igreja. (“Ói, Migué, cê vai ali, faz uma escultura assim e assim, pra q o pessoar fique enlevado.”) E ¡fenomenal sucesso! 500 anos mais tarde, tamos aqui nós enlevando-nos.
Mas ¿já imaginou quê teria produzido o Migué se tivesse tido exatamente a mesma oportunidade material, mas não a pré-definição eclesiástica, fazendo a obra q bem entendesse? Se eu fosse um editor com grana pra distribuir entre os maiores escritores dum país, eu não teria a presunção de forçá-los a moldar-se a uma estratégia de marketing (“Ói, pega tua moto e entrega isso aqui nesse endereço; cuidado com os retrovisor.”).
Um prazo, eu daria, claro; mas não uma idéia criada numa reunião de editores.
Porra, essa caixa de comentários tá muito boa.
Dr Plausível: quem garante que o Migué era tão bom de ter ideias quanto de executá-las? De repente o cara nasceu pra ser pau-mandado. E o contrário pode acontecer: um cara muito bom para conceitos mas péssimo de execução. Vai ver é por isso que editores precisam de autores e produtores de diretores.
Outra: o Bernardo Carvalho era livre pra mandar o pessoal do Amores Expressos enfiar a Chechênia naquele lugar. A situação do Migué (ou, sei lá, do Kubrick) era mais complicada porque capital era um aspecto importante; mas aí também não dá para criticar os investidores por quererem um retorno (pelo menos eu acho que não). Mas se Carvalho topou a brincadeira é porque alguma graça ele viu nela.
Ou não. Estive em Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato, outro do Amores Expressos (mas que não está na Copa), me pareceu um livro contratual no pior sentido do termo. Fiquei com a impressão de que Ruffato o escreveu com um olho no cursor do mouse e outro no contador de palavras e largou tudo quando chegou às cinquenta mil do Forster. (Aliás, acabei de lembrar que o prefácio da minha edição de Aspectos do romance é de Ruffato. Coincidência?)
É neste momento que meu caminho e de Dr. Plausível, para quem sempre presto reverência, se divorciam. Mas antes:
- se fosse uma monografia científica, gostaria de saber se São Petersburgo, Chechênia, etc. são um conceito ou apenas são termos descritivos no filho da mãe. Isto é, seria problemática e uma questão crítica “aquele lugar”? Não me parece que isso exista no que Bernardo Carvalho escreveu até que veio à luz “O sol nasce em São Paulo” – é isso? devo estar errado. Mas é disso que estou tratando, isto é, se o ambiente tem estatuto de personagem…
Já para a questão do Miguel Ângelo, responderia para o bom e velho Dr.: there ain´t no “what if” in the “as such”‘s universe. A sombra eclesiástica é, mais do que parte do pacote, parte da estratégia. Sei lá, muita ousadia da minha parte, mas há dois estudos muito bacanas que apontam isso de forma muito difícil de refutar – difícil, não impossível -, que são os trabalhos do Baxandall e de Geertz sobre o universo do esforço estratégico da arte renascentista. Toda vez que penso em liberdade artística e algo atrapalha o raciocínio, a “malandragem” aparece e salva o silogismo.
Tá mesmo muito boa (pensei que a empolgação tinha ficado só no primeiro post e quando entrei agora vi esse aqui também cheião de comentários).
Quanto às encomendas, Carvalho é um autor que sabidamente consegue fazer ouro delas. Ainda não li “Mongólia”, mas creio que “Nove noites” e “Medo de Sade” também foram livros encomendados. Livros de qualidade, dois deles premiadíssimos — o que só me fez achar, mas aqui é o fã falando, que “O filho da mãe” tenha sido injustiçado, ano passado.
A trama do livro poderia aparecer em outros livros, quem sabe, mas ao menos me pareceu um olhar que buscou recantos não visíveis ao olhar viciado em “guias da cidade para turistas”. E há referências bastantes que nos levam ao imaginário do que deve ter sido o conflito no local. Quero dizer com isso que não sei se o livro é exatamente “para brasileiro ver”. Lá na França “Ta mére!” foi elogiadíssimo, além de ter sido finalista num prêmio literário. I.e., não foi propriamente planejado para nossos estereótipos latino-americanas para o conflito, pois conseguiu agradar a outra gente, cujos pré-conceitos sobre o assunto podem não ser os mesmos.
(Creio que não fui lá muito claro no último parágrafo, mas não é nada que, lendo 3 ou 4 vezes, não seja sanado)
Lucas, que preguiça desse livro do Ruffato, viu? Até agora, foi o único da coleção que achei mais ou menos. Bem mais pro “menos” do que pro “mais”.
Lucas,
Sim, há o risco dum artista não ter ãã… moto próprio. Mas convenhamos, isso é raro. De qqer modo, se um artista tem algo a dizer, é coisa *dele*; e se ele é um artista q vale a pena ouvir –ie, se ele tem o q dizer, coloca o q diz dum modo estimulante–, então o q ele diz de moto próprio (ou como resultado de interações com outros) sempre vale mais ouvir do q aquilo q ele diz de dentro duma concepção construída por outros. O q eu quero ler do BC, e de qqer escritor é: ¿que é q ele diz de moto próprio? Pq a relação entre o leitor e o escritor é sempre entre duas pessoas, não entre uma pessoa e um comitê editorial.
Eu tava esperando q alguém defendesse o projeto todo como indício duma nova fase internacionalizante do Brasil, ou algo assim (tipo, não só euaenses podem criar Tarzans e ZéCariocas…). Mas nem isso me pareceria suficiente pra justificar a tutelagem da Amores Expressos.
Ref,
“There ain’t no what-ifs in the as-such universe.” Muito bom. ¿De quem é isso?
Mas o q o Migué deixou de fazer não importa, e não me importa. A questão é *ele* com sua arte. ¿Que obra deixaria *ele* contente sem a tutelagem dum clero? ¿Que é q o BC faria sem a tutelagem duma idéia alheia? Murchei um pouco qdo caiu a ficha q oFdM nasceu duma idéia editorial. Ao dar a idéia e o dinheiro, o projeto tornou os escritores em funcionários. Não é q eu idealize o artista ou ache q ele (♫violinos♫) transcende o lugar-comum ♫♪ e traz do fundo do inconsciente uma revelação ♪♫ fugidia… mas pô, colocando seu nome na capa e fazendo um claim on my money, espero q *ele* tenha algo a dizer de moto próprio.
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“Fiquei com a impressão de que Ruffato o escreveu com um olho no cursor do mouse e outro no contador de palavras e largou tudo quando chegou às cinquenta mil do Forster. (Aliás, acabei de lembrar que o prefácio da minha edição de Aspectos do romance é de Ruffato. Coincidência?)”
hahahaha
Lu Thomé,
Valeu pela explicação. Achei que o placar fosse “obrigatório”. Como disse, sou torcedor novo e vou entendendo as regras do jogo aos poucos com a ajuda do pessoal!
Abraço e obrigado
Dr. Plausível;
Se eu disse e você não sabe a fonte, só pode ser meu mesmo. Meu papel de tornassol de grau de inventividade é falar a frase de efeito e esperar o efeito de fonte, que se manifesta em sua correção do que escrevo. E é assim.
Quanto ao negócio do “que parte é tua, Bernardo. Porra, meu!”, eu sou muito cético no que diz respeito à iniciativa criativa demiúrgica. Na pior das hipóteses, se vamos sacanear com o romance, Bernardo Carvalho é o primeiro a levar pedradas. Se vamos fazer montinho no sujeito, o contemplado é ele. Não sei se a noção de criatividade é muito mais importante do que a de responsabilidade. Até porque, em tempos de censura é assim que identificamos o responsável de uma idéia perigosa – o que se impõe por ela. Não sei até que ponto Bernardo Carvalho tem algo a dizer de moto próprio, mas sei que o ônus é todo dele e resta saber se tanto ele quanto o romance tem malandragem pra dar conta da joça toda.
Mas o certo é que o pacote é pesado.
“Fiquei com a impressão de que Ruffato o escreveu com um olho no cursor do mouse e outro no contador de palavras e largou tudo quando chegou às cinquenta mil do Forster. (Aliás, acabei de lembrar que o prefácio da minha edição de Aspectos do romance é de Ruffato. Coincidência?)”
hahahaha
[2]
Rafael,
você tá certo. Havia ouvido alguém falar do Edney junto do Manifesto Silvestre e devo ter confundido as bolas. ^^
Mas as entrevistas televisivas dele não deixam de ser irritantes.
Ref,
“Não sei se a noção de criatividade é muito mais importante do que a de responsabilidade.”
Esse argumento, ainda se meio tateante, é bem forte e me convenceu… por algumas horas. Concordo q a responsabilidade pelo q se diz é muitíssimas vezes mais importante e crucial do q a criatividade no q se diz. Responsabilidade é sine qua non, e é exatamente por sua ubiqüidade e sinequanonidade q, num âmbito específico como o da arte & litetura, ela fica meio q invisivelmente segurando tudo. A responsabilidade é um atributo sinequanônico até mesmo duma lista telefônica (!).
Então o motivo pq não gostei de saber q oFdM partiu fundamentalmente duma idéia editorial é *justamente* pq a responsabilidade ficou distribuída, e não é possível ter em mãos um documento tête-à-tête. Claro, tal como outros aqui apontaram, se o documento é uma obra-prima (ou não), tanto faz se foi até escrito aleatoriamente por um babuíno epiléptico. Mas houve o transplante artificioso, curto e marquetado dum escritor a um local distante de suas raízes. Então sei lá. Tudo depende do q o leitor específico tá procurando. Este leitor procura um todo coeso, da semente ao fruto.
Doutor,
Agora não dá para fazer um comentário mais extenso, então deixo apenas uma provocação: se O filho da mãe não fosse fruto de um projeto editorial mas sim de uma conversa de mesa de bar – um amigo bêbado convencendo Carvalho a escrever um livro ambientado na Chechênia – o todo seria coeso?
Me estendendo além do que posso: acho que o que importa é a execução. Se a ideia parte de um amigo, de um comitê editorial, de uma matéria de jornal ou da cabeça do escritor, pouco importa: importa é se o escritor consegue fazê-la sua. Pelo que dizem por aí, Carvalho conseguiu; na minha opinião, Ruffato não.
Lucas,
O q convenceu o BC a deslocar-se até a Ásia não foi a idéia: foi o custeio das despesas e o marketing prometido. Ele teria ido –qqer um teria ido– mesmo q a idéia tivesse sido produzir uma coleção de romances infantis sobre doenças nativas. O próprio fato de q uma coleção “Tumores e Abcessos” jamais teria sido sequer aventada já indica q o projeto “Amores Expressos” é um lugar-comum criado por um comitê editorial. Pra mim, não serve.
Mas o “não-servir” do projeto é suficiente para “descartar” OFdM enquanto romance? Eu sei, fica o problema do tal moto próprio. Após a leitura, não dá pra tatear uma resposta? Só o Bernardo é que poderia responder? Eu entendo a discussão, dou razão pro Dr. Plausível, fico também ressabiado, mas acredito que o romance prevalece. Carvalho acertou a mão, ou não?
Tô falando besteira, né?
Tá sensacional a discussão aqui, tá valendo até mais que a resenha.
O Filho da Mãe é para mim o melhor livro de Bernardo Carvalho desde Nove Noites. Respondendo ao Doutor: não importa a Chechênia, importa o narrador. O foco é de estranhamento, um estrangeiro sem lugar. Carvalho vive fazendo isso, porém, dessa vez fez melhor.
Dois livros superestimados, um deles – Se eu fechar os olhos agora – quase ruim. O filho da mãe parece um roteiro do Guillermo Arriaga (Babel): quer abraçar o mundo e acaba se perdendo no emaranhado da sua pretensão. Ainda assim é muito superior ao romance de estreia do Edney Silvestre. Pode ser implicância minha, mas quando soube que o autor de Se eu fechar os olhos agora era o cara que apresentava aquele programa tatibitate sobre literatura na Globo News, não botei a menor fé. Não me enganei. A história do romance é interessante, mas a construção literária, de fazer corar. O alvoroço do mainstream jornalístico em torno do livro sempre me pareceu puro corporativismo. O jurado do jogo, como já disseram aí em cima, “por elegância ou alguma outra coisa que não se confessa, foi generoso com Edney Silvestre. Muito generoso”.
“O q convenceu o BC a deslocar-se até a Ásia não foi a idéia: foi o custeio das despesas e o marketing prometido.”
Plausível, uma pequena correção: pelo que sei, Bernardo Carvalho NÃO FOI à Chechênia, ele passou um mês em SÃO PETERSBURGO – que é no Oeste EUROPEU da Rússia.