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		<title>Jogo 15 &#8211; FINAL &#8211; O filho da mãe x O livro dos mandarins</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 13:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
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		<description><![CDATA[Chegamos à final da Copa de Literatura Brasileira 2011. Agradecemos a participação de todos. Leia os pareceres finais dos nosso jurados e deixe o seu comentário! ——————– Jurados: TODOS + Fernando Torres ——————– Jurado: MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA O jurado preferiu &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-15-final-o-filho-da-mae-x-o-livro-dos-mandarins">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chegamos à final da Copa de Literatura Brasileira 2011. Agradecemos a participação de todos. Leia os pareceres finais dos nosso jurados e deixe o seu comentário!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-884" title="O filho da mãe" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/06/o-filho-da-mae.jpg" alt="" width="120" height="180" /><img class="alignnone size-full wp-image-885" title="Jogo 15" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/06/2011_15.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-886" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/06/o-livro-dos-mandarins.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
<p><strong>Jurados: </strong>TODOS + Fernando Torres</p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado:<strong> MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA</strong></p>
<p>O jurado preferiu não escrever a sua resenha. No entanto, mandou seu voto para <em>O filho da mãe</em>.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>1 x 0</strong> <em>O livro dos mandarins</em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado:<strong> FABIO S. CARDOSO</strong></p>
<p>Apitei a primeira partida de <em>O filho da mãe</em> na presente edição da Copa de Literatura Brasileira. Naquela ocasião, o placar não apenas foi favorável ao livro de Bernardo Carvalho, mas, essencialmente, considerou a obra peça literária de destaque significativo na produção contemporânea. Tal avaliação poderia servir como espécie de aviso sobre a escolha deste jogo final. Não é. <em>O livro dos mandarins, </em>de Ricardo Lísias, é o vencedor dessa disputa. Os detalhes da partida, nos parágrafos a seguir.</p>
<p><em> </em></p>
<p>Noves fora os livros tratarem de dois parceiros comerciais do Brasil no âmbito dos Brics (a saber, Rússia e China), no tocante à proposta narrativa, ambos os livros possuem a intersecção com o estrangeiro, o outro. No livro de Carvalho, esse mote serve como matéria da narrativa, isto é, não se trata de mera ambientação, uma vez que a história de <em>O filho da mãe </em>alcança sentido porque se passa na Rússia dos anos 2000, utilizando a disputa entre Chechênia e Rússia, e humanizando esse caso a partir dos encontros e desencontros entre mães e filhos. Autor consciente e certo de onde pretende chegar, Bernardo Carvalho consegue dominar com maestria a técnica de construir um quebra-cabeças que não serve apenas de adorno; antes, é parte elementar da história que o narrador pretende contar – a história das mães tristes demais, como se seu destino estivesse inexoravelmente traçado desde a eternidade para o sofrimento, a perda, a dor, a ausência. No limite, fosse de outro jeito, o efeito da história não teria o mesmo impacto ou o mesmo efeito de sentido junto ao leitor.</p>
<p>Ricardo Lísias, por sua vez, articula o aspecto do outro, a princípio, como passagem para a formação do personagem fundamental de seu romance. Paulo, admirador do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, assim como do <em>modus operandi </em>do mercado de trabalho contemporâneo. Em certa medida, a personagem de Lísias é produto da cultura do executivo das grandes corporações. Se o estilo é o homem, com efeito, Paulo representa o ethos do homem de negócios contemporâneo, atento à maneira de concretizar os negócios e de parecer vencedor, sem deixar transparecer qualquer fraqueza – a não ser quando necessário. O que se lê, portanto, é uma crítica feroz à contemporaneidade, à falibilidade do homem que se assume como perfeito, embora não passe de humano, demasiado humano – tão inseguro, que é capaz de tomar emprestado os símbolos de assertividade, embora esteja tão somente repetindo jargões, gestos e hábitos, como se fosse um autômato. Nesse sentido, é possível observar que, à medida que o romance avança, o protagonista se torna uma caricatura de si mesmo, e desde o nome Paulo tem sua identidade diluída.</p>
<p>É exatamente nesse ponto que o romance de Lísias ganha fôlego e imaginação, ao mesmo tempo em que o livro de Carvalho permanece previsível em sua criatividade esquemática. A história do protagonista de <em>O livro dos mandarins </em>dá conta de um universo particular de maneira densa, aprofundada e sofisticada, enquanto os diversos núcleos de personagens de <em>O filho da mãe</em>, a despeito de terem sido estrategicamente orquestrados, não possuem a mesma dimensão. Nesse quesito, é importante ressaltar que Lísias é um romancista de talento – e por isso é capaz de neutralizar os efeitos emblemáticos da história de Carvalho. Em comparação, Lísias atinge em <em>O livro dos mandarins </em>um nível de excelência que Bernardo Carvalho já havia alcançado anos antes em outro livro, <em>Mongólia.</em> Talvez com aquela equipe, por assim dizer, o resultado fosse outro. Mas, nesse caso, a vitória é de Ricardo Lísias.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>1 x 1</strong> <em>O livro dos mandarins</em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>MAURÍCIO RAPOSO</strong></p>
<p>Maurício Raposo não conseguiu mandar seu texto para a final. Mas enviou seu voto para <em>O filho da mãe</em>.</p>
<p><em>O filho da mãe <strong>2</strong></em><strong> x 1</strong> <em>O livro dos mandarins</em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>ERIC NOVELLO</strong></p>
<p><em>O filho da mãe</em>, de Bernardo Carvalho, é um grande livro, não resta dúvidas. Sua orelha diz que é “um romance de alta voltagem emocional, sem prejuízo do viés crítico e da complexidade da construção da narrativa”. Essa frase resume bem seus pontos fortes e fracos. O fraco sendo a necessidade de dizer “viu, seu moço leitor, esse é um livro de ação, mas a complexidade narrativa, ó&#8230;”. Talvez por isso, ou justamente por isso, durante a leitura de <em>O filho da mãe</em>, tenha atentado mais à estrutura do que à história e aos personagens. E, gosto de enfatizar, minha curtição pessoal como autor e leitor são os personagens.</p>
<p>Ricardo Lísias e seu <em>O livro dos mandarins </em>fazem uma aposta diferente. Aproveitando para comparar orelhas (tenho esse hábito estranho), esta diz que o livro “alia as reviravoltas e o suspense de um <em>thriller</em> a um estilo literário vibrante”. São diferenças sutis, com as duas orelhas apontando a vontade da nossa literatura dita <em>mainstream </em>de ser pop, no bom sentido. Lá em cima, quase se desculpando, aqui embaixo, se divertindo em sua proposta experimental. A estrutura de <em>O livro dos mandarins</em> me lembrou <em>O processo</em>, de Kafka, e o humor ácido com o ambiente “corporativo”, que <del datetime="2011-06-01T11:41" cite="mailto:Autor%20desconhecido"> </del>transforma tudo em um livro de terror para quem já teve que conviver com os Paulos, Paulas e Pauls da vida real.</p>
<p>Uma disputa difícil, tudo o que se espera de uma final, mas humor e experimentalismo sempre terão o meu voto.</p>
<p><em>O filho da mãe <strong>2</strong></em><strong> x 2</strong> <em>O livro dos mandarins</em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>VINÍCIUS CASTRO</strong></p>
<p>Bernardo Carvalho situa o seu livro na Rússia e nos arredores do conflito Checheno, e diz nas entrevistas que o romance seria sobre o amor maternal e as consequências dramáticas de sua proteção irracional. Terminado o romance, não tenho grandes impressões duradouras de nenhum desses dois aspectos. O livro que lembro contém pequenos arcos sustentados de diversas histórias, a maioria brutais, todas se relacionando de maneira opaca, com várias coincidências e pontos dramáticos permanecendo obscuros para os seus personagens, com suas resoluções perceptíveis apenas para os leitores e para a consciência ligeiramente cruel e compassiva que organiza os eventos. O livro é diferente dos outros livros de Bernardo Carvalho, sem narradores paranóicos e sem um protagonista inteligente que tenta desvendar camadas narrativas sedimentadas deixadas pelos mortos. Mas a sensibilidade e a voz são momentaneamente reconhecíveis como as do mesmo escritor de <em>Aberração </em>e <em>Nove noites </em>(o que é bom, sinal da maturidade expressiva do escritor), assim como vários procedimentos narrativos (o uso de cartas e de distanciamentos retóricos da voz narrativa, o homossexual como símbolo bifronte de alteridade). No final das contas, é positivo ver o nosso romancista mais maduro experimentando procedimentos novos, mas acaba que nesse caso isso também significa a denúncia de algumas fraquezas que não se revelam nos seus esforços anteriores, mais controlados. O <em>f</em><em>ilho da mãe</em> tenta se apoiar de maneira mais direta em situações dramáticas convencionais, no estofo leve que tenta dar aos seus personagens rapidamente esboçados, e nesse tipo de coisa Carvalho não é exatamente um mestre. Muito da dramaticidade permanece esquemática, muitos personagens preenchem funções pré-determinadas sem tanta liberdade orgânica, não conseguem jamais ganhar voz casual e convincente (o que é dificultado pela situação curiosa de um romancista brasileiro escrevendo sobre <em>russos</em>).</p>
<p>O final do romance tem uma cena um tanto dissociada do resto, e que talvez seja o seu momento mais expressivo. Nela Carvalho parece soltar um pouco das rédeas retóricas que ele mantém sempre tão firmes, permitindo que uma imagem forte se torne um pouco mais estranha do que normal para o seu estilo. É bem interessante, e um bom sinal para os seus próximos trabalhos.</p>
<p>Queria ter falado dos dois romances finalistas ao mesmo tempo, mas Lísias não facilitou o meu trabalho. É difícil falar <em>d’O livro dos mandarins</em> junto de outros livros porque suas características mais importantes são um tanto originais. Já falaram bastante do livro aqui pra que todo leitor da Copa saiba alguma coisa, que o seu narrador onisciente é uma bagunça absurda, prefigurando eventos que nunca acontecem e se dissipando em vozes idiotas e frases-feitas do senso comum, que quase todo mundo no livro se chama Paulo e que seu protagonista vai acumulando os epítetos que lhe apontam até praticamente se esfumaçar.</p>
<p>Muita gente sugere que o nivelamento estranho da linguagem e dos nomes dos personagens no romance se dá por uma sátira/dramatização do mundo corporativo e de suas estruturas malvadas de padronização. Pode até ser, o espírito do livro é bem esse, mas acho que o que acontece é mais complicado e mais interessante do que isso. O livro jamais permanece fixo numa ironia simples, não fica atado demais às premissas formais da sátira a ponto de se esgotar nesse nível. O que Lísias consegue fazer é de uma sofisticação formal muito rara (não só na literatura brasileira): a retórica ficcional do livro &#8211; as várias intenções (autorais ou não) que compreendemos por trás da sua voz constituinte e organizadora &#8211; vai se dissipando de um jeito tão absurdo e engraçado que eventualmente ressurge um <em>pathos</em> causado por essa própria voz. Se sentimos muito pouco pelos personagens esvaziados de <em>O livro dos mandarins</em>, depois de um tempo começamos a sentir pelo próprio romance (se é que isso faz sentido), pelo seu absurdo insistente que continua a se desenrolar, pela imbecilidade compreensiva do mundo que ele representa e pela dificuldade de se fazer algum sentido no meio da bagunça toda.</p>
<p>Não ficarei tão surpreso se <em>O filho da mãe</em> superar <em>O livro dos mandarins</em>, e nem exatamente frustrado. Bernardo Carvalho é extremamente inteligente, e mesmo um de seus livros menos bem-sucedidos tem sua dose de complexidade e maturidade ficcional. Mas não tenho a menor dúvida de que o livro de Lísias é um livro mais original e mais divertido, que deixa uma impressão duradoura impressa na sua cabeça, talvez sulcada em definitivo. Mesmo o leitor que não se veja surpreendentemente tocado pelo romance (como eu me vi) talvez se veja forçado a admitir sua graça inventiva e a surpresa cognitiva que sua voz oscilante traz. E isso tem que ser reconhecido devidamente. Lísias escreveu um baita livro.</p>
<p><em>O filho da mãe <strong>2</strong></em><strong> x 3</strong> <em>O livro dos mandarins</em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurada: <strong>TAMARA SENDER</strong></p>
<p>Para escolher o vencedor numa disputa entre livros de dois autores talentosos, em que não existe um desnível de qualidade tão evidente, utilizei um critério que só se justifica por meu interesse maior em certas obras de ficção que em outras – não tenho, portanto, nenhuma pretensão de objetividade. Se <em>O filho da mãe</em> é um livro controlado, tecnicamente correto, bem-sucedido em sua tentativa de entrelaçar personagens diversos num enredo complexo, <em>O livro dos mandarins</em> aposta num personagem convencional do mundo corporativo, com ambições típicas e desprovido de idiossincrasias existenciais.</p>
<p>O que poderia parecer uma desvantagem para o romance de Ricardo Lísias se revela a chave para a compreensão do seu mérito – pois, na comparação com Paulo, protagonista de <em>O livro dos mandarins</em>, os personagens de Bernardo Carvalho parecem sem força e incapazes de despertar a empatia do leitor. Partindo de matéria a priori tão trivial, Lísias escreve um romance singular e iconoclasta, praticamente uma chutação de balde nos critérios (?) mais usuais de sofisticação e erudição literárias. Já Bernardo Carvalho volta a investir na grandiloquência temática dos problemas socialmente relevantes, associada ao domínio formal das técnicas narrativas modernas que sempre garantem aos seus livros uma qualidade estilística acima da média.</p>
<p>Entre a ironia que a voz de Lísias adquire ao lidar com um universo de referências aparentemente desprovido de interesse literário e a zona de conforto pela qual transita Bernardo Carvalho, fico com <em>O livro dos mandarins</em>.</p>
<p><em>O filho da mãe <strong>2</strong></em><strong> x 4</strong> <em>O livro dos mandarins</em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>LUCAS MURTINHO</strong></p>
<p>Independente do meu voto, torço para Lísias. Tivemos, há algum tempo, numa semifinada rede social, um entrevero que o levou a abandonar uma comunidade virtual sobre prosa contemporânea. Acredito que mágoas não tenham sido guardadas, mas ainda assim não gostaria que a Copa fosse acusada de parcialidade, e a vitória de Lísias evitaria a acusação.</p>
<p>Independente da minha torcida, voto em Lísias. <em>O livro dos mandarins</em> demorou para me conquistar. Além de sua primeira parte dedicar muito espaço a uma crítica do mundo corporativista que me pareceu fácil e pouco inspirada, o estilo fortemente dependente de repetições e lugares-comuns me fez pensar em <em>O paraíso é bem bacana</em>, ponto alto da literatura brasileira do século XXI, e a comparação foi inevitavelmente desfavorável ao livro de Lísias. No fim dessa primeira parte, porém, uma virada narrativa espetacular me prendeu ao livro, e não o larguei mais. O fim abrupto me decepcionou um pouco, mas <em>O livro dos mandarins</em> é uma obra que merece atenção.</p>
<p>Não sei se cheguei a escrever, mas certamente já pensei que Bernardo Carvalho é o autor brasileiro contemporâneo em cuja grandeza futura eu apostaria com mais segurança. Não existisse <em>O paraíso é bem bacana</em>, seria<em> Nove noites</em> meu romance brasileiro preferido do terceiro milênio. Mas <em>O filho da mãe</em> é uma história que não parece corresponder ao estilo do seu autor. O excesso de personagens priva Carvalho do espaço para apresentá-los, desenvolvê-los e, mais importante dada sua obra pregressa, questioná-los. Com o triplo de caracteres, talvez Carvalho tivesse escrito um grande épico pós-moderno. Da forma como o livro está, ficou faltando algo.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 5</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>KELVIN FALCÃO KLEIN</strong></p>
<p>Uma final especial, formada por dois dos melhores escritores em atividade no Brasil – autores que já estabeleceram uma ampla expectativa com relação àquilo que virão a produzir. No caso de Bernardo Carvalho, é difícil pensar em <em>O filho da mãe</em> sem pensar em todo o resto, em todos os outros livros que formam esse conjunto tão sólido e tão esteticamente forte que é sua obra. Ainda que aponte para uma mudança de rumo quando confrontado com os livros anteriores (o tom de voz surgido no “Epílogo” é algo que eu gostaria de ver mais e melhor nos próximos romances do autor), <em>O filho da mãe </em>sai enfraquecido dessa acumulação – tanto seus erros quanto seus acertos ficam diluídos. <em>O livro dos mandarins</em>, por outro lado, é muito mais complexo que seu autor e está muito distante dos livros realizados antes dele, tornando-se um obstáculo para tudo que vier daqui pra frente (dentro da literatura brasileira contemporânea como um todo). Diante de <em>O livro dos mandarins</em>, não há margem de manobra, não há um campo referencial pacífico: seu manejo da linguagem é radical, seu tema é exasperante; ocupará os leitores por muito tempo. E, para mim, vence a Copa.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 6</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>BERNARDO BRAYNER</strong></p>
<p><strong><em>(…) quando comprei o Livro dos Mandarins em 2009, já acompanhava a produção anterior de Ricardo Lísias, gostava bastante de Anna O…</em></strong></p>
<p><em>quando encontrei o Livro dos Mandarins, fiquei fissurado naquela linguagem, demorei a entrar no livro, foram 3 dias para conseguir isso, ja que nao possuia muito tempo e estava bastante estrassado com o trabalho, mas fui na raça mesmo… <strong>nunca esquecerei daqueles jovens dias</strong>…</em></p>
<p><em>então, esse é um dos livros que eu mais curto…</em></p>
<p><em>na epoca eu estava estressado, ficava com medo de perder meu emprego, sentia muito a pressao, até que finalmente encontrei o livro, o capturei, o livro ficou mais facil para mim, passou aquele medo, la no fundo eu pensava ” <strong>qualquer coisa eu leio e relaxo</strong>” uhhuhah. Penso nisso até hoje.</em></p>
<p><em>até por sinal nessa epoca eu tive um sonho, mais facil ter sido um pesadelo…</em></p>
<p><em>eu tava andando num lugar muito estranho, parecia uma caverna, e tava escuro, e eu tava sozinho, andei muito até ver uma saida, quando deixei aquele lugar, vi que era um canion e dava para ver o fundo e a terra era muito seca e eu continuei andando, até que derrepente eu <strong>encontrei o Livro</strong>, nossa eu <strong>respirei muito em paz</strong>, até conversei com ele ”<strong>vc ta aqui?!?</strong>” e ele falava <strong>“ta tudo bem agora”</strong><strong>.</strong></em></p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 7</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>ANTÔNIO XERXENESKY</strong></p>
<p>1.Pedi à comissão organizadora que anulasse meu voto.</p>
<p>1.1 Não por achar que estou sendo imparcial, mas sim porque os leitores, ao verem minha decisão, podem localizar, na 2ª edição de meu livro <em>Areia nos dentes</em>, um “blurb” elogioso de Ricardo Lísias ao meu romance, e achar que meu voto é por “amizade”, “troca de favores”, ou algo assim.</p>
<p>1.2 De qualquer forma, me disseram que só anulariam meu voto se ele fosse decisivo.</p>
<p>2. Vamos ao que interessa (serei breve, brevíssimo).</p>
<p>2.1. Se Bernardo Carvalho e Ricardo Lísias tiverem, neste mesmo instante, um ataque cardíaco e morrerem, eu diria que Bernardo Carvalho provavelmente “foi” um escritor melhor.</p>
<p>2.2 A carreira de B.C. é sólida como a de poucos brasileiros contemporâneos. Desde seu primeiro livro, ele vem construindo uma obra consistente, com temas e formas recorrentes, mas não repetitivas.</p>
<p>2.2.1 O apuro técnico de B.C. impressiona. Ele nunca soa como um amador ou iniciante. Nem mesmo quando era um iniciante (ver: <em>Aberração</em>).</p>
<p>2.2.2 Ele é, de certo modo, “nosso escritor sério”. Aquele interessado em discutir “questões sérias” de “forma séria”. Ele é um prato cheio para acadêmicos. Quantas relações podem ser traçadas entre <em>Nove noites</em> e a antropologia?</p>
<p>2.2.3 Um amigo me disse, certa vez, que se Bernardo Carvalho fosse inglês, seria tão idolatrado quanto um Ian McEwan. Será?</p>
<p>2.3 Já Ricardo Lísias, se morresse no mesmo dia que Bernardo Carvalho, talvez não “permanecesse” como B.C. provavelmente “permanecerá”. Sua carreira não tem a mesma consistência. Ainda que certas formas sejam recorrentes (ver: a repetição nervosa e <em>sintomática</em>), antes de <em>O livro dos mandarins</em>, não havia muito o que destacar na produção do autor, que lançou algumas novelas interessantes, mas irregulares, muitas vezes derivadas <em>demais</em> de Kafka.</p>
<p>2.4 Claro, os dois não acabam de morrer neste instante (espero), então Lísias continuará produzindo e nada impede que sua carreira se torne tão interessante quanto etc. etc. etc. etc. etc.</p>
<p>3. Todavia, não estamos comparando escritores e suas carreiras. O objetivo da CLB não é ver quem produziu mais coisa bacana no passado ou quem tem o melhor corte de cabelo. O embate é entre livros, não autores.</p>
<p>3.1 É aí que o bicho pega, gurizada. <em>O filho da mãe</em> apresenta um Bernardo Carvalho no piloto automático. Antes fiz a defesa da carreira dele construída por recorrências estilísticas (uma história contada de vários pontos de vista) e temáticas (contato com outra cultura, homossexualismo). No seu último romance, isso pesa para o lado negativo. <em>O filho da mãe</em> não toma riscos. Não se trata de um romance ruim porque Carvalho parece incapaz de escrever um livro ruim. Mas também não acrescenta nada à sua obra.</p>
<p>3.2 Já <em>O livro dos mandarins</em>, meus camaradas, que <em>salto</em>. Podemos traçar a origem do romance no conto que o autor publicou na revista Granta, um conto com nomes repetidos, <em>doppelgängers</em> e uma trama amalucada. Tudo isso foi expandido e melhorado em <em>O livro dos mandarins</em>.</p>
<p>3.2.1 Quando o leitor abre o grosso volume, realmente não imagina todos os labirintos que Lísias o fará percorrer. Esse é um livro <em>realmente enganoso</em>. Até o índice, com seus títulos de capítulo, é enganoso. Sinto certo receio de discutir o romance, com medo de que vá revelar coisas na trama que estragarão as surpresas de quem ainda não leu.</p>
<p>3.2.2 O recurso das repetições enquanto sintomas de um desvio intelectual/moral/psicológico do protagonista, tão comum nas narrativas de André Sant’Anna, ganham diferentes usos aqui. Nomenclatura: essa talvez seja uma chave de leitura de <em>O livro dos mandarins</em>. A maneira como o narrador/protagonista (o narrador não é o protagonista, todavia está <em>contagiado</em> por ele) nomeia cada objeto, pessoa e local que entra em contato – é isso que prende o interesse do leitor e que, de certa forma, faz a trama avançar, pois sinaliza as mudanças no personagem principal, o arco pelo qual ele passa.</p>
<p>4. Falei que seria breve, e assim fui. <em>O livro dos mandarins</em> é imprevisível, vigoroso, “experimental no bom sentido”, por isso ganha meu voto. Ficarei feliz da vida se levar o prêmio de campeão da Copa.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 8</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>LEANDRO OLIVEIRA</strong></p>
<p>Com o desenvolvimento da internet e de suas várias ferramentas de expressão é quase imprescindível hoje que as pessoas tenham opiniões sobre os mais diversos assuntos. Pouco, ou muito pouco, se faz para persuadir o sujeito a avaliar sua própria capacidade de opinar num ou noutro tema, mesmo que seja um tema que ele conheça de modo superficial. Por isso o que digo aqui poderá soar anacrônico. O fato é que a leitura dos dois romances me fez pensar sobre minha própria capacidade de avaliação de obras literárias. Não sei ao certo se tomo a melhor decisão e se meu voto realmente refletirá o resultado da minha capacidade de avaliação, embora tenha (creio) argumentos que embasarão essa escolha.</p>
<p>O resultado é que, embora tenha sentido maior prazer na leitura de <em>O filho da mãe</em>, meu voto vai para <em>O livro dos mandarins</em>. Esse conjunto de sensações que rotulo como “sentir maior prazer na leitura” se refere a apenas um item na avaliação de um leitor, mas que pesa bastante no final das contas: a estética. O texto de Bernardo Carvalho me atrai, leio seus livros com facilidade, uma página puxa outra e no fim, o resumo é aquele “gostei” que muitas vezes parece inócuo – especialmente num tempo em que qualquer um que possua uma conta no Facebook clica num botão para avaliar algo sem nem ao menos acabar a leitura. Mas – ao contrário dos botões do Facebook – o leitor gostar de um livro ainda é algo importante, embora em muitos círculos a sistematização do pensamento tem sido tamanha que dificilmente ouvimos algum resenhista ou crítico literário dizer que gosta da leitura deste ou daquele autor. Contar bem uma boa história – antes característica fundamental para qualquer bom escritor – tornou-se quase um defeito. Discordo desse pensamento que iguala alguns dos maiores escritores a talentosos alunos capazes de escrever uma bela redação. Esse é o maior elogio que poderia fazer a uma obra com uma linguagem tão atraente como <em>O filho da mãe</em> e insisto nesse elogio a quem me pergunta sobre o livro.</p>
<p>Ao mesmo tempo, porém, renegar boa parte do que me move a apreciar a literatura por simplesmente elevar essa qualidade a um patamar que desconsiderasse tantas outras belas características de <em>O livro dos mandarins</em> seria como adotar uma visão míope, um erro para alguém que se esforça tanto em perceber detalhes. A obra, em primeiro lugar, é arriscada, tentando abrir espaço por novos terrenos da literatura e da linguagem. Por exemplo, seu narrador é de uma complexidade absurda. Quem está contando a história? O Lísias autor? O Paulo personagem? Os dois? Ou nenhum deles? Outro ponto: o resultado final dessa escrita. <em>O livro dos mandarins</em> que está sendo pensado no enredo é o mesmo livro que temos em mãos e que tem o mesmo título? Como chegamos a um entendimento tão contrário ao que está sendo narrado? O livro de Lísias parece aquele médico que está numa festa e usa um vocabulário próprio que leigos não conseguem entender. Seu objetivo não é usar a linguagem para comunicar, mas para construir uma identidade. <em>O livro dos mandarins</em> repete frases surradas dos manuais de auto-ajuda empresarial, mas o resultado é exatamente o oposto: o exemplo de sucesso é, na verdade, fracasso e as qualidades do bom profissional são canalhices. Por último, é preciso destacar a qualidade da narrativa, com a forma sendo moldada em função do conteúdo. Por isso, o caráter pedagógico da repetição, como base de construção da obra, o desfilar de estereótipos e lugares-comuns, como estratégia de esvaziamento da identidade e crítica ao capitalismo, as frases truncadas como reflexo da ausência de coerência e coesão do discurso da auto-ajuda empresarial, o uso de um vocabulário que apaga emoções, refletindo a racionalização da vida em favor do acúmulo de capital. Tudo isso sem citar sua principal característica: o humor. A sátira ao absurdo realista do ambiente de auto-escalão empresarial, com sua admiração a Fernando Henrique Cardoso, as descrições fantasiosas de platitudes, melhoradas por <em>ghost-writters</em>, o hiperbólico olhar somente para si mesmo, transformando a realidade medíocre em imagens de oportunidades maravilhosas, tudo isso faz de <em>O livro dos mandarins</em> uma obra cruelmente benigna. Esse é, enfim, o livro do ano.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 9</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurada: <strong>SIMONE CAMPOS</strong></p>
<p>Estou feliz. Dois livros <em>muito bons</em> chegaram à final da Copa de Literatura Brasileira deste ano – na minha opinião de apitante veterana, algo sem precedentes. Menção honrosa seja feita à pesquisa extenuante que certamente foi feita para ambos, e, principalmente, ao fato desta pesquisa não ter comparecido de forma pesada. O livro de Bernardo Carvalho é corajoso por nos fazer questionar a simbologia da mãe como bondade pura, e bom porque trama e narrativa têm a qualidade habitual no autor. O livro de Ricardo Lísias, cuja partida de quartas de final apitei, é corajoso por se propor a bandeirante na inexplorada selva corporativa brasileira e bom porque surpreende com método e trilha escolhidos para levar a empreitada a cabo.</p>
<p>Pela originalidade escandalosa sem prejuízo do “algo a dizer”, ganha <em>O livro dos mandarins</em>, no <em>photochart</em>, por um focinho.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 10</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>CARLOS ANDRÉ MOREIRA</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Os dois competidores são a antítese acabada um do outro: <em>O filho da mãe </em>é mais curto, escrito em prosa cuidada. O livro de Lísias é longo, cheio de repetições estilísticas que parecem torná-lo <em>ainda mais </em>longo e escrito em uma prosa que busca emular o estilo entre o burocrático e o demente que seu protagonista, Paulo, pretende usar na redação de seu ambicionado <em>O livro dos mandarins</em>, seu futuro best-seller de negócios baseado na sua suposta experiência como CEO na China. É um sarcasmo deliberado ao mundo das grandes corporações — principalmente à sua versão tupiniquim, sempre disposta a importar acriticamente micagens estrangeiras de gerenciamento. FdM tem as qualidades da prosa bem pensada de Bernardo Carvalho, mas não se equipara a grandes obras do autor como <em>Nove noites</em> e <em>Mongólia</em>. Já LdM, com todos os problemas que sua extensão e estilo acarretam, representa um tipo de livro que parece fazer falta em nossa literatura: a sátira que não descamba para o “engraçadinho” e apresenta sua vítima sob uma luz crua e virulenta. Provavelmente LdM não tem uma história tão fascinante que daqui a séculos possa ser lida apenas por suas peripécias imaginativas, perdendo-se as referências (como acontece com o Gulliver de Swift). Mas no aqui e agora de nossa literatura, é, dos dois, o mais relevante (palavra pomposa essa). E por essa razão, é o vencedor.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 11</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>DR. PLAUSÍVEL</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><em>O filho da mãe</em> é um livro gostável, mas morno… Não me convenceu como narrativa nem dos problemas da Rússia, nem da dor de mães órfãs de seus filhos, nem dos martírios da guerra, nem do amor homossexual. Tampouco me convenceu como amostra de boa escrita. Muitos trechos de oFdM têm problemas de nitidez ou de semântica funcional. Achei os exemplos abaixo abrindo o livro a esmo. Das quatro páginas q reli, três tinham problemas –talvez por coincidência. Notem os negritos:</p>
<p>p.64-65 <em>Acabam de beber as cervejas e saem do bar. … Continuam ao longo do canal. Um deles arremessa <strong>a garrafa</strong> de cerveja vazia na água, mas <strong>acerta</strong> alguma coisa no caminho. A garrafa se espatifa contra o casco de um barco amarrado na berma.</em> ¿Como assim, *a* garrafa? ¿Que garrafa? E ¿quê exatamente acontece com ela depois de atirada? ¿Ela *acerta* uma coisa, ou *esbarra* numa coisa q desvia seu curso, fazendo-a bater no barco? Ou ¿essa coisa q ela &#8220;acerta&#8221; é o barco? Nesse caso, ¿o atirador não viu o barco? Se não viu pq o barco tá abaixo do nível da berma, então ¿como é q a garrafa atinge o *casco*, q é uma concavidade voltada pra baixo? Se não viu pq tava escuro, ¿por quê isso não é dito, meudeudocéu?</p>
<p>p.108 <em>…recebe um soco no estômago e cai. Não consegue respirar. <strong>Está contorcido</strong> de dor. Demora <strong>alguns segundos</strong> para se levantar e sair novamente atrás do ladrão.</em> ¿Durante qto tempo ele se contorce de dor pra justificar dizer q *tá* contorcido? Não pode ser &#8220;alguns segundos&#8221;, ainda mais se não consegue respirar: qdo alguém não consegue respirar, tenta se estirar.</p>
<p>p.192 <em>Vinte homens iam morrer ali mesmo, por sua causa, <strong>para tentar salvá-lo</strong>.</em> ¿Os homens iam morrer *pra* tentar salvá-lo? ¿É o batalhão suicida? ¿Não seria *ao* tentar?</p>
<p>Tanto oFdM qto seus revisores qto seus leitores (os q não percebem tais detalhes) são vítimas da inespecificidade duma boa porção do português. Os olhos passam por cima de certas palavras e não enxergam o q elas tão *dizendo*. É como se elas denotassem, não objetos e relações, ações e emoções, mas apenas impressões voláteis e avulsas. Justiça seja feita q não é um problema específico de oFdM: quase todos os livros q li nessas quatro edições da CLB são vítimas do mesmo mal. Deve ser um novo estilo em formação. Paciência.</p>
<p>Mas além dos problemas dessa ordem, achei oFdM repleto de lugares-comuns –a que o autor talvez precisou recorrer por inexperiência em tratar da guerra, por não tar embebido em guerra como parte de seu ser. Pro brasileiro, a guerra é um assunto externo, sempre no estrangeiro, uma abstração. Assim, as mães em oFdM são abstrações eufônicas e desossadas –ou soam como abstrações, *mesmo* q tejam baseadas em depoimentos. Sobre o homossexualismo, pode ser pq o assunto tbm teja distante da experiência direta do autor –não sei *nada* sobre Bernardo Carvalho–, mas no romance entre Andrei e Ruslan (aliás, quatro dias e ¿já amando?), alguns trechos q deveriam ocupar um lugar fundamental soam clichezaços, coisas q qqer GLS empunhando um violão em Capoeiro das Letras já compôs em verso e cantou em cima de três acordes. Não eram pra tar no livro dum autor potencialmente festejado pela crítica dum país inteiro.</p>
<p>É irônico q os trechos mais autênticos e interessante de oFdM sejam qdo fala de Dmítri, q é marido e pai. E é decepcionante q, após quase 180 páginas de platitudes, as últimas nove –quase totalmente desmembradas das precedentes– contenham o único trecho com algo original, algo simbólica e emocionalmente expressivo. Chegou tarde demais, pra mim.</p>
<p>No jogo q apitei, já disse quase tudo q tenho a dizer sobre <em>O livro dos mandarins</em>, e é nele q voto.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 12</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p>Jurado: <strong>FERNANDO TORRES</strong></p>
<p>Eu não imaginava ser tão difícil encerrar esta Copa de Literatura Brasileira. Primeiro porque quase tudo já foi dito sobre os livros que aqui chegaram, e o mais importante, por ser a final mais justa de todas as edições da Copa. Nas copas anteriores, alguns favoritos caíram antes da finalíssima. Na edição passada chegaram à final dois azarões e muitas resenhas ressaltaram dar a vitória para o menos pior.</p>
<p>Este ano parece indiscutível que <em>O livro dos mandarins</em> e <em>O filho da mãe</em> são os melhores livros competindo. Por uma ironia, nenhum dos dois  foi agraciado nos tradicionais prêmios literários aos quais concorreram.</p>
<p>Em um evento marcado pela injustiça, parece ainda mais irônico pela primeira vez se fazer justiça. Será que ficamos caretas?</p>
<p>*          *          *<br />
<em>Full disclosure</em>. Ainda que desnecessário. Tenho certa amizade com Ricardo Lísias. Não conheço Bernardo Carvalho pessoalmente.</p>
<p>*          *          *<br />
Vocês conhecem aquela fórmula, em que um protagonista inapto para o convívio com a sociedade passa pela trama a se transformar e se deformar? Geralmente esse protagonista é artista. Por sinal, em muitas vezes, ele cumpre a jornada do herói, ou sucumbe durante ela.</p>
<p>Então, Paulo é exatamente o oposto disso. Ele nunca se transforma, suas ações são lineares, coerentes, previsíveis&#8230; Tudo o que um escritor não busca em seu protagonista. Mas a ironia de Ricardo Lísias o salva, o faz bufão para tripudiarmos de seu neoliberalismoefeagaceano. Paulo é o único personagem que muda durante o romance, apenas enquanto referência aos outros.</p>
<p>Na realidade, a trama construída por Lísias é o verdadeiro protagonista a cumprir a dialética Hegeliana. Formação, deformação e síntese constante. Helicoidal.</p>
<p>Mas o patético é, que ao final da obra, a vingança não se completa. Paulo não sucumbe ao próprio sistema que representa. E nós, que torcemos que suas desventuras afinal o derrotem, saímos derrotados, pois não há qualquer alteração significativa do Status Quo, mas apenas a conformação e acomodação dele.</p>
<p>*          *          *<br />
Já o livro de Bernardo Carvalho tem um defeito que fica patente logo de início: o título. Lembro-me de um conto de Quim Monzó em que se relata um escritor que escreve um conto perfeito, mas que qualquer tentativa de dar um nome a ele, ou mesmo de se abster e nomeá-lo, estragam o conto por completo. Ao final o joga na lixeira.</p>
<p>Não creio que seja tão radical a ponto de dizer que o título estraga o livro, mas tira dele um certo brilho.</p>
<p>Ao ler, logo percebemos que estamos diante de uma obra bem escrita, bem estruturada, bem pensada. Mas parece faltar um tempero. Fico tentando explicar se “o livro não empolga” ou “não convence”. Mas não sei se chego a entender como um livro com tantas qualidades não me empolga, não me convence.</p>
<p>Lembro de ler algumas “grandes obras” ou “clássicos” que apesar de toda minha dedicação, não cheguei à mesma conclusão de sua fundamentalidade. No fim, acho que o problema está em mim.</p>
<p>*          *          *</p>
<p>Assim, meu voto fica para <em>O livro dos mandarins</em>, de Ricardo Lísias.</p>
<p><em>O filho da mãe </em><strong>2</strong><strong> x 13</strong><em> <em>O livro dos mandarins</em></em></p>
<p>——————–</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Campeão CBL 2010 / 2011</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>O livro dos mandarins</strong></p>
<p><strong><img class="aligncenter size-full wp-image-887" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/06/o-livro-dos-mandarins1.jpg" alt="" width="120" height="195" /><br />
</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Felicidades!</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 14:07:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Avulsos]]></category>

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		<description><![CDATA[Como uma das organizadoras da Copa de Literatura, peço licença aos copeiros para fazer um registro: nasceu, na noite do dia 1 de junho, Martin Saadi Murtinho. Parabéns e muitas felicidades para o casal Lucas e Clarice! O futuro da &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/avulsos/felicidades">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como uma das organizadoras da Copa de Literatura, peço licença aos copeiros para fazer um registro: nasceu, na noite do dia 1 de junho, Martin Saadi Murtinho. Parabéns e muitas felicidades para o casal Lucas e Clarice! O futuro da Copa está garantido! <img src='http://copadeliteratura.com.br/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>E aproveitando: na próxima segunda-feira, dia 06, acontece a final da Copa de Literatura 2011. Quem ganha:<em>O filho da mãe</em> ou <em>O livro dos mandarins</em>? </p>
<p>Participe!</p>
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		<title>Jogo 14 &#8211; O gato diz adeus x O livro dos mandarins</title>
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		<pubDate>Mon, 30 May 2011 13:00:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Doutor Plausível]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Laub]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Lísias]]></category>
		<category><![CDATA[Semifinais]]></category>

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		<description><![CDATA[Conheça o último finalista da Copa de Literatura 2011. Boa leitura! ——————– Jurado: Doutor Plausível Site / blog: http://drplausivel.blogspot.com Sobre: Amônio Plausível abriu consultório em São Paulo em 1982 e desde então está em franca decadência financeira, moral e física. &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-14-o-gato-diz-adeus-x-o-livro-dos-mandarins">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Conheça o último finalista da Copa de Literatura 2011. Boa leitura!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-868" title="O gato diz adeus" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-gato-diz-adeus2.jpg" alt="" width="120" height="180" /><img class="alignnone size-full wp-image-869" title="Jogo 14" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/2011_14.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-870" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-livro-dos-mandarins2.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
<p><strong>Jurado:</strong> Doutor Plausível</p>
<p><strong>Site / blog: </strong><a href="http://drplausivel.blogspot.com" target="_blank">http://drplausivel.blogspot.com</a><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/?topo=13,1,1,,,13" target="_blank"></a><strong> </strong></p>
<p><strong>Sobre:</strong> Amônio Plausível abriu consultório em São Paulo em 1982 e desde então está em franca decadência financeira, moral e física. Extravasa alguns de seus pensamentos menos impublicáveis num blogue incongruamente co-autorado por um guitarrista de jazz.</p>
<p>——————–</p>
<p>*<br />
Três minutos após o apito inicial, nosso eutímico doutor já paralisou o jogo e chamou os dois capitães ao centro do gramado.<br />
«Digue uma coisa» disse, abrindo um sorriso walterbrennan. «¿Quem foi aí q decidiu seguir esse boçal acordo ortográfico?»<br />
O Adeus F.C. apontou pro Tião Gentefina e o S.E. Mandarins dedurou o Colônio Penal.<br />
«¿Cês não têm vergonha?» bradou o douto juiz, erguendo o cartão vermelho duas vezes. «Já pra fora, os dois.»<br />
«Peraí, só sigui as regra» redargüiu o Tião.<br />
«Regra é o raralho. Já pra fora.»<br />
«Só usei o purtuguêis correto, pô» obtemperou o Colônio.<br />
«CortuguÊs porreto de rú é côla. Cai fora agora.»<br />
«O sôr tá seno arbitrário» choramingaram os dois.<br />
«É pq sou o árbitro, seus tronhos. Fora daqui.»<br />
O povão aplaudiu o juiz e nem ligou q o jogo continuasse com dez em cada  time. Pq pô, né? Uma interpretação fátua da língua consegue aviltar e  conspurcar, com peso de otoridade, um dos sustentáculos da identidade  duma nação, e quase todos os jogadores e times –q deveriam ser os  primeiros a negar-se terminantemente a jogar– dizem amém. Tenha a santa.</p>
<p>**<br />
Aos leitores q acharam esse intróito um disparate ofensivo e patético,  descabido numa resenha literária, tenho isto a dizer: vcs tão errados. A  pífia representação da literatura brasileira no panteão de idéias da  humanidade tem sim muito a ver com o q faz os usuários desta língua  delegarem sua ortografia e gramática (idealmente sujeitas a variações e  contradições, conquanto resultado da história) a comitês engalanados de  caga-regras da forma; e a eles delegarem tbm suas decisões de escrita ou  leitura. A questão é ¿qual é a força motriz duma língua e duma obra  literária: a forma ou o conteúdo? Ai, que discussão véia, né? Mas grande  parte dos literatos brasileiros –puxados pelo cabresto de análises  literárias formalistas– se concentram na forma e na técnica tal qual  moscas cismadas em atravessar uma vidraça. Quase nunca dá certo. Às  vezes, dá. Temos, neste jogo, dois livros q brotam diretamente do  formalismo. Um deles se deu mal; o outro conseguiu criar uma experiência  única e radiantemente, desaforadamente brasileira brazuca <a href="http://tripaforra.blogspot.com/2007/12/ego-superego-id_5743.html" target="_blank">brazófia</a> .</p>
<p>***<br />
Tem poucas coisas mais maçantes do q livro com personagem escritor num  triângulo amoroso em estória auto-referente de múltiplos narradores com a  mesma voz; então, pra interessantizar o enredo, insira taras sexuais.</p>
<p>Nãonãonão, não creio q tenha sido essa a gênese de <em>O gato diz adeus</em>;  acho q a trama propulsora veio primeiro, e só depois é q Michel Laub  aplicou idéias estruturais exógenas à gênese pra ver em quê dava.  Tirando a impressão aqui e ali de q ele escreveu essa estória pq viu  pela janela os vizinhos brigando no apartamento em frente e achou q dava  um livro, a trama é interessantíssima, e um grande achado: ¿que é q  acontece qdo a sexualidade doentia dum casal sado-masô resulta nisso q é  a razão primeira da sexualidade: um bebê? É um tema q poderia ter sido  problematizado e desenvolvido literàriamente com estrondoso sucesso por  um ótimo observador do humano tal como Laub… se ele não tivesse decidido  usar um artifício literário totalmente inadequado e, além disso,  surrupiado de autores anteriores.</p>
<p>Bàsicamente, o artifício usado em oGdA não funciona com a estória  contada. Sérgio e Márcia tinham um casamento conturbado por episódios de  sado-masoquismo q terminaram por incluir Roberto, um ex-aluno de  Sérgio. Teòricamente, o livro é o texto q Sérgio escreve ou logo após ou  18 anos após a morte de Márcia, q sucumbiu numa depressão pós-parto mal  explicada. Sérgio afirma q escreve pra esclarecer à filha nascida desse  parto o motivo por quê preferiu q Márcia se separasse dele e fosse  viver com Roberto. O motivo é este: não quer(ia) q sua filha  cresça(cesse) presenciando ou testemunhando o sado-masoquismo do casal.  Imagine crescer &#8220;ouvindo os gritos [de Márcia] durante toda a noite&#8221;,  qdo um &#8220;pedido pelo soco se transformaria em outros pedidos&#8221;. ¿Notaram a  incongruência?</p>
<p>Ok. Deixemos esse detalhe de lado, por enquanto. Apontar a incongruência  dá problema se algum espertinho alegar q oGdA tá num limbo entre o real  (literário) e o imaginado, entre o passado e o futuro: ¿os múltiplos  narradores são os personagens narrando <em>post-factum</em>, ou são  todos um único narrador imaginando tudo aquilo no futuro? As duas  possibilidades têm falhas, e não se complementam. Se os narradores são  os próprios personagens, o livro tá mal ajambrado. Numa nota  explicativa, quase se desculpando, Laub indica q seu livro foi  influenciado por <em>As I Lay Dying</em>, de Faulkner, &#8220;em sua temática,  linguagem e estrutura&#8221;. ¿Linguagem? Dê-me uma quebra. Ser personagem de  Faulkner não é bolinho: vc tem q ter uma voz única e inconfundível –um  sotaque sintático-semântico, digamos. Essa voz indica de onde vc veio,  pra onde vc vai, como vc pensa, por quê vc faz o q faz no contexto da  estória em questão; em Faulkner, essa estória em q vc tá é apenas uma  das muitas em tua vida: o livro começa depois de vc ter vivido outras  estórias e, qdo ele terminar, vc vai continuar vivendo mais outras; e  Faulkner faz isso com tua VOZ, com teu sotaque. Mas em oGdA, há sòmente <em>uma</em> voz, sòmente <em>um</em> sotaque. Isso tá longe de Faulkner. Então a hipótese dos múltiplos narradores fica meio capenga.</p>
<p>Vejamos portanto a outra interpretação: as falas dos personagens vêm dum  único narrador pretendendo expressar os pensamentos de todos eles. Isso  explicaria a mesma voz em toda palavra do livro. Nessa interpretação, a  motivação de Sérgio parece até nobre: ao confessar seu passado conjugal  e prever (ou descrever) as críticas futuras a seu abandono da filha,  ele pretende explicar a ela a razão pra poupá-la de crescer vivendo com  um casal problemático. Perfeito. Exceto por um detalhe: Márcia já  morreu; Sérgio tá escrevendo o livro *porque* Márcia morreu. Então ¿pra  que cargas d&#8217;água Sérgio escreve? Um escritor escreve pra ganhar a vida  sendo lido por leitores; mas se o personagem é escritor, espera-se q ele  tenha um motivo tramático pra escrever. Mas se Sérgio escreve <em>post-factum</em>, não há motivo aparente pra q ele dê uma de Prospero em filme de Peter Greenaway (q, numa grande sacada, filmou <em>The Tempest</em>,  de Shakespeare, com *todos* os diálogos falados por Prospero, o mago q  planejou tudo q acontece na peça); e se ele escreve esse livro <em>ante-factum</em>, com Márcia morta, não há nenhum motivo plausível pra escrevê-lo. Exceto…</p>
<p>Exceto se Sérgio for realmente um grande cretino q deu desculpas  covardes pra não assumir a filha, achou um grande trouxa pra criá-la, e  agora vem com esse papo ainda mais cretino de ser o porta-voz dos vários  envolvidos. Exceto se na verdade oGdA tá sendo psicografado por  Roberto, q…  q…</p>
<p>oGdA é um livro cheio de excetos, desnecessàriamente enredado em si  mesmo. Numa literatura nacional mais pujante e menos dada a bancar a  espertinha, seria alguns capítulos num penetrante livro de 300 páginas.  Neste de 70, é como se Laub mostrasse o canto esquerdo inferior duma  grande pintura sua e se deliciasse com nossa incapacidade de intuir o  resto do quadro com precisão. Mas tenho mais q fazer na vida do q ficar  decifrando cambalachos de personagem cretino. Pô, Laub, não dá pra  aceitar UM personagem dando uma de Faulkner. ¿Cadê os outros? Quebra o  galho: escreve as outras 230 páginas dessa promissora estória. Vc  consegue. *Vc* consegue.</p>
<p>****<br />
A cultura brasileira tem um aspecto q sempre me encucou. Perante a  dificuldade de expressar econômica, coerente e pungentemente algo pau a  pau com a exuberância torrencial das complexas idéias contemporâneas  originadas no primeiro mundo, o brasilês volta-se sobre si mesmo,  hipnotizado pelo som das próprias palavras, seus ecos e sua ortografia  –não necessàriamente pelo q elas denotam: daí q esta língua tem se  tornado cada vez mais insípida e burocrática, sua literatura cada vez  mais imitativa, críptica e auto-referente. Escrever coerente e  longamente em brasilês é um trabalho penoso. Daí q, ao mesmo tempo em q o  Brasil não é um profuso criador de boas tramas, de estruturas  narrativas complexamente inter-articuladas, de microcosmos simbólicos, o  país produz nuvens de noveletas, estroços de esboços, bordões aos  borbotões, batologias às bacias, paroxismos de psitacismos. Me parece  sintomático q aqui proliferem e vinguem tão exitosamente fenômenos  culturais tais como a poesia concreta, as <a href="http://drplausivel.blogspot.com/2004/11/p-powder-o-vim-no-ralinho.html" target="_blank">letras-lista</a>,  o espiritismo, a Praça da Alegria, a Escolinha do Professor Raimundo,  as novelas de capítulos diários –ie, meios culturais em q a recorrência,  a iteração e o ramerrão são virtudes.</p>
<p>Em 1948, quatro dias antes de ãã desencarnar, Monteiro Lobato –aquele racista remorado ranzinza– concedeu à rádio Record uma <a href="http://www.youtube.com/watch?v=O7_xvt3wFRg" target="_blank">entrevista</a> em q começa com uma apologia da repetição:</p>
<p>«Eu toda noite ouço o Zé Caninha, naquele programa –¿como é q chama?–  &#8220;Cartório de protesto&#8221;. E gosto imensamente dele por uma coisa, uma  grande descoberta q eles fizeram … Eles descobriram q é um grande erro  tar renovando o programa. O certo é repetir todas as noites a mesma  coisa. O público acostuma, gosta, e não quer mudança. Eu hoje fico  danado qdo eles mudam as pilhérias. Gosto de ouvir todas as noites as  mesmas pilhérias. E aconselho aos técnicos de rádio q estudem, até, esta  descoberta. É uma descoberta psicológica muito interessante, muito  importante. Até aqui, o rádio era baseado na renovação constante dos  programas. Novidade em cima de novidade. Pois bem. Eles descobriram q  isto é errado. O certo é dar todos os dias a mesma coisa. O público  acostuma e gosta e prefere … Eu quero q mude um bocadinho todo dia,  levemente. Mas qdo eles mudam demais, eu fico danado.»</p>
<p>Bonitinha, né, sua ingenuidade. Mas notem como, ao falar, o próprio  Lobato se ecoa, repisa o mesmo caminho já andado. É como se apenas  enunciar uma idéia não bastasse pra expressá-la. Lobato morreu aos 64.  Tivesse vivido mais 15, teria sido fã da Praça da Alegria, cuja fórmula  recorrente e bordônica tá na tv brasileira há 54 anos. Cinqüenta e  quatro anos. Em referência a seu criador, chamemos aqui de &#8216;nobreguismo&#8217;  o uso de esquetes formulaicos feitos de recorrências e bordões.</p>
<p>Não falta inteligência à cultura brasileira. Mas nesta língua trabalhosa  e nebulosa, a inteligência pura pena demais pra se expressar sem  empolação, condescendência ou gongorismo, e pra construir uma ponte  entre o sofisticado e o chucro. Uma solução foi usada por Jorge Furtado  –o cara q inventou o hiperlinque cinemático: um meme é explicado e  lincado a outros, q tbm são explicados e lincados, e assim a tendência  recorrentista do português é usada pra hieràrquica e cumulativamente  juntar sinapses q vão ganhando cada vez mais significado a cada  recorrência, construindo bordões estruturais mais do q lexicais.  Funciona muito bem, qdo realmente se tem algo a dizer. O exemplo supremo  de furtadismo é o curta-metragem <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=V3ckbDXe7Ns" target="_blank">Ilha das flores</a></em>.</p>
<p>Pois bem. Em <em>O livro dos mandarins</em>, Ricardo Lísias criou um genial amálgama de nobreguismo e furtadismo.</p>
<p>Um problema com o nobreguismo –a repetição mecânica de fórmulas e  bordões– é que não há como evitar q ele descambe prà chanchada. A  repetição mecânica é tbm um dos atributos da sexualidade, e o  nobreguismo e a chanchada se atraem irrefreàvelmente, como crianças num  parquinho. Não adianta lutar contra, e Lísias não teve escolha: uma vez  dentro do esquema nobreguista, pimba: putaria e corrupção. Água morro  abaixo, fogo morro acima e chanchada em nobreguismo, ninguém segura.</p>
<p>O q redime oLdM brilhantemente a meus olhos e, no fim das contas, o  eleva a meu panteão pessoal de livros favoritos na história da CLB, são  duas singularidades.</p>
<p>Uma é q suas recorrências incansáveis, sua lógica hiperlínquica, sua  construção paulatina de bordões, sua noção do agora como nodo numa  hierarquia de escala global, são marcas do texto icônico de Furtado  revigoradas pela inventividade e pelo instinto humorístico de Lísias. O  protagonista Paulo é òbviamente um doente mental com um melê de sintomas  histéricos, paranóicos e sociopáticos, e sua obsessividade e  compulsividade são a cara do furtadismo. (Todo livro, peça ou filme é  uma doença mental passageira, com enormes regiões da realidade  suprimidas. Imagine viver 100% do tempo dentro dum miniverso  ilha-das-flores ou crime-e-castigo. A propósito, veja <em>Shutter Island</em> ["Ilha do Medo", blérg].) Os paralelos com o estilo de Furtado são  muitos. Tantos q, num dos primeiros capítulos, me irromperam vivamente  os ritmos e entonações de <em>Ilha das flores</em>, na voz do ator Paulo  (!) José; a partir daí, o livro todo me foi &#8220;lido&#8221; por ele. Façam o  experimento: vejam o curta-metragem e em seguida leiam, digamos, as  primeiras 50 páginas de oLdM imaginando a voz do ator.</p>
<p>A segunda singularidade de oLdM é seu sarcasmo. Ô coisa q falta neste  país, viu. O  triunfo de Lísias é ter achado o alvo perfeito pra piadas furtadistas: a  repetição mecânica é um atributo dos bordões e da sexualidade, mas tbm é  da industrialização desmiolada, do empreendedorismo autômata, da  auto-ajuda corporativa, do <em>marketing</em> fraudatório, da  lucratividade sociopática. O livro tira um sarro fenomenal do mundo  corporativo em geral e do brasileiro em particular, com sua  desnaturalização, sua dependência de idéias importadas, seu foco em  reciclagem e rearranjo de idéias, ao invés de em sua produção. O mundo  corporativo –composto 99% de imitadores vazios em posições subalternas,  todos babando por uma promoção vinda dalgum Olimpo misterioso e etéreo–  leva bordoada atrás de oblíqua bordoada do sarcasmo lisiano. O prazer  dele escrevendo aquelas maluquices é patente: quase dá pra ouvi-lo  gargalhando escondido atrás da página. A pilhéria constante é  avassaladora… e –como pra agradar Lobato– muda um bocadinho a cada  capítulo, levemente. Troça em cima de troça. Alguns exemplos: Paulo  começa com nome e cargo q sua ambição empresarial vai apagando e  transformando em outras coisas até ele terminar como um monomaníaco  anônimo vagamente consciente do q o cerca; logo nas primeiras páginas,  seu português de médio escalão já denuncia q ele jamais chegará à  diretoria global de coisa alguma, e só foi promovido a seu cargo atual  por alguma falha sistêmica temporária no <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_de_Peter" target="_blank">Princípio</a> de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Peter_Principle" target="_blank">Peter</a>;  o futuro q vai resolver todos os problemas simplesmente não existe: o  futuro *será* a China mas *é* sempre o Sudão; na única cena em q é  forçado a demonstrar sua &#8220;brasilidade&#8221;, Paulo desmaia vergonhosamente; o  sucesso da iniciativa privada brasileira passa necessàriamente pela  ilegalidade; o Brasil não será uma potência econômica por sua  criatividade e sanidade: será pela lascívia de sua lucratividade e pelo  dinamismo de sua docilidade: é o país onde, implantando, tudo dá –e,  corrompendo, todas dão.</p>
<p>Lísias (se o interpreto bem) quer <em>dizer</em> coisas, transcender o  formalismo q sem dúvida deu origem a oLdM. Uma grande ironia é q o  próprio autor, segundo me consta, é um defensor da otoridade da crítica  formalista, pra quem a avaliação duma obra literária passa <em>primordialmente</em> pela análise de sua &#8220;linguagem, estilo e técnica estética&#8221;… E por isso,  seu livro (¿Eu já disse q é genial? Sim, é genial.) tá construído sobre  maquinações formais e não sobre percepções do humano: não é um <em>insight</em> sobre como gente de fato funciona qdo não tá numa Praça da Alegria,  numa doença mental ou numa metáfora. O formalismo quase nada diz: é  pouco mais q um passatempo entre um conteúdo e outro; e, contràriamente  ao q teorizam certos literatos, o critério de valor duma obra não muda  há 5 mil anos: ou a obra diz claramente algo q preste, ou não diz. O q  me impressiona deveras em oLdM é q, ao associar o ramerrão típico  brazuca à descerebrada compulsividade corporativista, Lísias realmente <em>diz</em> algo através da forma, algo específico deste livro, algo  especìficamente ao brasileiro: demonstra a tese de q, pra ser um  executivo eficiente no terceiro mundo, é preciso ter um certo grau de  idiotia –e infira-se o resto.</p>
<p>Há mais um motivo pra q oLdM seja especìficamente brazuca. O leitor  brasileiro há de rir bem mais q outros embora grande parte da trama seja  uma chanchada apoiada no q é, em essência, um trágico insulto à mulher  –a mutilação clitoriana. É um tema perigoso pra pilhérias, mas ainda  dentro do repertório humorístico dum país em q pouco de nacionalmente  hediondo ou horrendo acontece há mais de 150 anos. Mesmo em seu valor  como crítica, oLdM chega demasiado perto de ser uma extensa e elaborada  piada masculina sobre a sujeição da mulher como fonte de lucro  empresarial. No ultimíssimo capítulo –qdo o leitor tá prestes a, por  assim dizer, voltar à realidade–, Lísias tenta demonstrar q tá  consciente da tragédia, q a crueldade fora da chanchada existe de fato: q  não tamos muito longe duma situação em q muitas brasileiras pobres e  ignorantes amputariam seu clitóris voluntàriamente pra ganhar uns  trocados dum empresário débil mental. Mas esse capítulo vem tarde demais  pra universalizar o livro: grande parte dele é aceitável e  compreensível apenas no Brasil, e além de suas fronteiras não passará  ileso.</p>
<p>E, acreditem ou não, é justamente por isso q vence esta peleja. ¿Vcs já  se deram conta da enxurrada de informações q um leitor brasileiro  precisa conhecer <em>a priori</em> sobre, por exemplo, a França pra  poder entender um livro francês mais ou menos do mesmo jeito q um leitor  francês o entende? Então. De tanto ler obras-primas da literatura  universal, o escritor brasileiro carrega à frente dos olhos a cenoura da  &#8220;universalidade do particular&#8221;. Desde pirralho, o brasileiro é treinado  a apreciar e gostar de literatura importada, a entender seus cacoetes,  temas e opiniões: o particular se torna universal por treinamento. Mesmo  eu, aprecio e gosto de muita literatura estrangeira; até prefiro. Mas  sinto falta de literatura brasileira sofisticada q outros países não  entenderiam ou aceitariam muito bem, q precisariam duma compreensão <em>a priori</em> sobre o brasileiro pra entendê-la mais ou menos. Seria necessário  focalizar melhor o amor-próprio. Um país inteiro q se prostra tão  abjetamente perante um comitê de caga-regras ortográficas é às vezes  incompreensível até pra mim, q aqui vivo há mais de 50 anos. O Brasil é  um país singular, e precisa achar em si mesmo, não alhures, sua melhor  literatura –própria e singular. Disso, oLdM talvez não seja o melhor  exemplo imaginável; mas, dos livros q li nestes quatro anos de CLB, é o  único de incontestável e brilhante brasilidade.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-871 aligncenter" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-livro-dos-mandarins3.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
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		<title>Jogo 13 &#8211; O filho da mãe x Do fundo do poço se vê a lua</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2011 13:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Bernardo Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos André Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Joca Reiners Terron]]></category>
		<category><![CDATA[Semifinais]]></category>

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		<description><![CDATA[Eis o primeiro jogo das semifinais! Boa leitura! ——————– Jurado: Carlos André Moreira Site / blog: http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/ Sobre: Nascido em São Gabriel em 1974, jornalista por formação, diplomado pela UFRGS em 1996. Há sete anos, ocupa a função de repórter &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-13-o-filho-da-mae-x-do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eis o primeiro jogo das semifinais! Boa leitura!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-849" title="O filho da mãe" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-filho-da-mae.jpg" alt="" width="120" height="180" /><img class="alignnone size-full wp-image-850" title="Jogo 13" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/2011_13.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-851" title="Do fundo do poço se ve a lua" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p><strong>Jurado:</strong> Carlos André Moreira</p>
<p><strong>Site / blog: </strong><a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/?topo=13,1,1,,,13" target="_blank">http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/</a><strong> </strong></p>
<p><strong>Sobre:</strong> Nascido em São Gabriel em 1974, jornalista por formação, diplomado pela UFRGS em 1996. Há sete anos, ocupa a função de repórter cultural e crítico literário do jornal Zero Hora em Porto Alegre (RS). É também tradutor e escritor. Já publicou contos em antologias e o romance <em>Tudo o que fizemos</em> (Leitura XXI, 2009).</p>
<p>——————–</p>
<p>1 – Um dos grandes méritos da Copa de Literatura é, e sempre foi, a forma como ela desafia os juízes participantes a fazer algo diferente – cada qual a seu modo. É por isso que optei por, nesta resenha, encontrar um caminho que levasse à comparação entre os dois livros participantes, mas não fosse a resenha padrão habitual que apresenta os dois competidores em separado e os confronta depois. Os dois livros competidores explodem a linearidade da narrativa, o que, para mim, pede uma leitura não linear. Então vamos pular de um para o outro ao sabor das conveniências. É um caminho aberto a críticas, mas qual não é?</p>
<p>2 – Este juiz em particular não vê motivos para reclamar da sorte no jogo que lhe coube. Considerando que algumas partidas desta Copa deixavam claro o quanto o árbitro que as apitava preferia estar em outro lugar praticando qualquer outro esporte – inclusive o incompreensível <em>badminton</em> –, este juiz usufruiu à larga aquela coisa que hoje parece tão antiga, o “prazer do texto”, ao ler os dois romances que chegam a esta semifinal – duas equipes de futebol vistoso e um currículo respeitável (essa metáfora futebolística está aqui porque estamos na Copa, mas não voltarei a usar nada do gênero, prometo).</p>
<p>3 – <em>O filho da mãe</em>, de Bernardo Carvalho e <em>Do fundo do poço se vê a lua</em>, de Joca Reiners Terron, já começariam esta disputa com ao menos um elemento em comum: são ambos frutos do projeto Amores Expressos, que despachou um grupo de escritores para 17 cidades diferentes ao redor do planeta para passar um mês captando a atmosfera do lugar para usar em um romance escrito na volta. Mas não apenas disso os dois se assemelham. Tanto o livro de Bernardo quanto o de Terron narram histórias de fugas, com protagonistas marcados pela relação de ausência com as próprias mães e de sexualidade complexa, fora dos padrões heterossexuais. Esse não é um detalhe sem importância porque o sexo não é um detalhe sem importância nas duas narrativas, antes são sinais aos quais o personagem se apega para tentar definir-se em relação a um mundo exterior que não o aceita com facilidade.</p>
<p>4 &#8211; O fato de todos os romances da série Amores Expressos serem escritos por autores nacionais depois de uma temporada relativamente curta nos lugares visitados (e aqui não digo “países” porque André de Leones foi mandado para São Paulo) desperta uma série de indagações sobre o que cada escritor pôde produzir da ambientação de uma cidade que só conheceu por um mês. Em algumas caixas de comentários em outros jogos, foi levantada uma vertente bastante específica dessa questão: a “propriedade” do retrato do elemento checheno no livro de Bernardo Carvalho – alguém saiu-se com o termo “checheneidade” ou algo parecido. A questão pode ser estendida para o Egito retratado por Joca Terron. Para o juízo deste árbitro em particular, esta questão não conta (não a diminuo, só digo que não a considero), porque em última análise quem tem condições reais de aferir a precisão do retrato nacional russo ou egípcio é um hipotético leitor ideal “russo” e “egípcio”. Aos que como nós tiveram o fado de nascer no Brasil, resta o que o livro nos apresenta e o uso da imaginação – e se temos de avaliar o retrato apresentado com a imaginação, também o autor está no direito de usar a sua própria imaginação para captar esse retrato. O valor simbólico exato da representação só pode ser percebido “de dentro” da realidade representada, portanto, essa questão fica em aberto para mim sem que eu particularmente lamente por isso.</p>
<p>5 – No início, o romance de Carvalho parece desdobrar-se em uma série de tramas e personagens paralelos, e é apenas com o desenrolar da narrativa que somos apresentados ao foco real do romance: o encontro em uma São Petersburgo cinza e árida dos jovens Andrei, russo, e Ruslam, checheno. Mais do que “filhos da mãe”, ambos são “filhos sem mãe”. O que coloca Andrei e Ruslam em movimento um em direção ao outro é o abandono, a ausência de uma mãe de fato – de um pai também, a bem dizer, mas a ausência do pai é um tema abordado com muito mais frequência na literatura. A mãe de Ruslam, Anna, acompanhou o marido até a Chechênia natal deste e, tão logo teve a criança, fugiu de volta para São Petersburgo, largando por lá filho e marido. Anos mais tarde, com a eclosão da guerra na Chechênia, Ruslam foge de um campo de refugiados (ajudado pelo sacrifício da última parente viva, a avó) e vai a São Petersburgo procurar a mãe que o abandonou. Andrei é filho de um biólogo brasileiro ex-comunista exilado em Moscou. Após seu nascimento, o pai volta para o Brasil. A mãe se casa de novo com um autoritário oficial da marinha e Andrei, por insistência do padrasto e por omissão covarde da mãe, acaba alistado no desmantelado exército russo e aquartelado em São Petersburgo.</p>
<p>6 – Também a ausência da mãe é uma das molas a impulsionar a jornada física e existencial da/do protagonista de <em>Do fundo do poço se vê a lua</em>. A/O narrador/a começa o livro como Wilson, nascido gêmeo de William. Ambos desenvolvem, apesar da aparência física idêntica, personalidades opostas quase misticamente: Wilson tem a inclinação voltada para o universo feminino, é um artista talentoso e chega a vivenciar uma cegueira psicológica parcial quando olha para seu próprio pênis. Não vê nada, apenas um vazio. William, pelo contrário, é brutal, masculino, agressivo, violento e tem pelo irmão um interesse possessivo. Narrado em primeira pessoa por Wilson, já transformado em Cleo após uma operação de mudança de sexo, o livro acompanha a viagem de William ao Egito em busca do irmão desaparecido 20 anos antes após uma inundação no teatro mantido pelo pai de ambos, um ator gordo e decadente.</p>
<p>7 – Ambos os autores semeiam suas histórias com símbolos. Em <em>O filho da mãe</em>, são vários os signos da maternidade espalhados logo na primeira cena, na qual nos é apresentado um “comitê de mães de soldados” e é narrada uma passagem de solidariedade feminina protagonizada por Anna Akhmátova, cuja poesia foi silenciada pelo regime soviético, mas que não se furta a declamar um poema para uma mulher cujo filho morreu nos campos de prisioneiros russos. É uma solidariedade de mãe: Akhmátova também teve o filho preso, e tem medo de que o levem de novo se ela escrever. A chama da solidariedade materna em meio ao totalitarismo é clandestina, jamais declarada – algo que se repetirá em outras situações ao longo do romance. O próprio amor incondicional de mãe, tão elogiado pela literatura engajada (Brecht, Górki), é, no livro de Carvalho, associado com o mesmo impulso tribal que deflagra guerras como aquela da qual Ruslam tenta escapar:</p>
<p>“<em>As mães têm mais a ver com as guerras do que imaginam. É o contrário do que todo mundo pensa. Não pode haver guerra sem mães. Mais do que ninguém, as mães têm horror a perder. Você é capaz de tudo para evitar a morte de um filho. É capaz de defendê-lo contra a própria justiça.Os filhos estão acima de qualquer suspeita. Você é capaz de matar por um filho. E acaba recebendo o troco na mesma moeda quando a guerra o leva. Está pronta para defender a prole e o clã contra tudo. Sem querer ver que é daí que nascem as guerras.”</em></p>
<p>8 – O livro de Joca Terron também lida com a noção de maternidade ausente. Os gêmeos são filhos de uma militante clandestina de esquerda, morta no parto. O último de uma série de codinomes adotados pela mãe é Cleópatra, e a figura da rainha ptolomaica será uma obsessão para Wilson, bem como sua intérprete mais célebre, Elizabeth Taylor, ambas confundindo-se em seu íntimo com a sua própria imagem feminina e com a figura da própria mãe. E a noção de mãe e a de cidadania de algum modo se confundem, como afirma o pai dos gêmeos, que mantém um teatro caindo aos pedaços no centro de São Paulo:</p>
<p>“De certa forma, Enoque e Roma, assim como todas as cidades deste planeta, evocam a ideia de maternidade. Cidades são entidades femininas por excelência. A cidade do Cairo, por exemplo, é conhecida como a Mãe do Mundo. E Al-Qaira, o nome árabe original do Cairo, quer dizer ‘A Vitoriosa’. Um epíteto bastante feminino, não acham?”</p>
<p>9 – Outro elemento simbólico apresentado já no primeiro capítulo de <em>O filho da mãe </em>são as supostas 300 pontes existentes em São Petersburgo. Com tantas pontes na cidade, o que veremos ao longo das 200 páginas do romance serão tentativas de contato que falham em romper o isolamento dos indivíduos. Viver em uma cidade com três centenas de pontes não parece facilitar em nada a conexão dos personagens uns com os outros.</p>
<p>10 – Já em <em>O fundo do poço.</em>.., os signos remetem duplamente (como não poderia deixar de ser, dada a trama do romance), ao tema do duplo e das relações de família. Não apenas os gêmeos chamam-se William e Wilson, como no conto de Poe em que o narrador se vê acossado pelo seu <em>doppelgänger</em>, como várias outras obras sobre o duplo ou sobre gêmeos são mencionadas – todas em algum momento encenadas pelos irmãos no palco do teatro decadente do pai dos garotos. Uma obsessão despertada na primeira vez que o rapaz vê o filme de Mankiewicz. Cléopatra é, para Wilson, a encarnação da personalidade feminina e surge ela própria como um signo deliberado, uma vez a Cleópatra precisou coroar-se depondo seu irmão – e os próprios termos “irmão” e “irmã” nos textos do Antigo Egito são muitas vezes usados como equivalente a “amantes”, o que acentua a tensão afetiva e sexual presente desde o início entre os dois irmãos.</p>
<p>11 – Wilson/Cleo passa por um período de prolongada amnésia após o acidente no teatro – e as ausências da memória esquiva não são um tema novo para Joca Terron, que já o havia abordado em linhas gerais nos contos de <em>Curva do Rio Sujo</em>. Enquanto serve como observadora onisciente dos movimentos do irmão pelas ruas poeirentas do Cairo à sua procura, Cleo também relembra os passos que a levaram até ali. O primeiro capítulo, fartamente elogiado pelo escritor Antônio Xerxenesky em sua resenha, de fato serve como uma mais do que eficiente introdução ao livro, não apenas em termos temáticos (somos apresentados a Wilson, a William, à figura de Cleópatra e ao caos da capital egípcia) como estilísticos. As frases extensas e tortuosas, cheias de apostos, às vezes longuíssimas, parecem querer representar com sua música arrevesada a algaravia (palavra árabe, não esqueçamos) reinante no Cairo por onde William transita. A vertigem daquela declamação ininterrupta produzida pela narradora não deixa de produzir uma desorientação semelhante à do próprio personagem no país estrangeiro, como nesta frase:</p>
<p><em>“Misturadas ao chamamento à oração proclamado pelos muezins, as buzinas dos táxis também se elevam, atingindo os tímpanos de William, sensibilizados pela ressaca, além de chegarem aos ouvidos das pessoas no interior dos milhares de bazares distribuídos por quarteirões intermináveis e nos gigantescos edifícios públicos pela cidade inteira, dentro de milhões de apartamentos em prédios próximos de desabar, dando nas construções que são devoradas a partir dos alicerces pelo deserto encobrindo bairros desde Heliópolis até Gizé e adiante, assomando em direção a Mar Girgis no bairro copta e aos subúrbios de Muqattam e Ma’adi e ainda mais além.”</em></p>
<p>Mais além no mesmo capítulo, o narrador confirmará a intenção de aproximar o ritmo da prosa da algaravia oriental ao comparar o ruído dos camelôs de São Paulo ao árabe.</p>
<p>12 – Mas Cleópatra e a forma como o narrador a descobre não deixam de representar um problema de verossimilhança que saltou aos olhos deste juiz. Há um tom mágico e delirante na jornada de Wilson/Cleo, e coisas que nesse romance acontecem não seriam de se imaginar em uma obra de corte realista: o teatro do pai dos jovens desaba depois de ser inundado em uma enchente; Cleo, ainda amnésica, é amparada por um enfermeiro após o incidente no teatro; depois, envolve-se em uma tragédia/triângulo amoroso e precisa fugir – é abrigada pelos travestis da rua Major Sertório e logo está usando conhecimentos de coiffeur para re-transformá-los em versões aproximadas, ainda que grotescas, de estrelas do cinema americano (ideia que já estava em <em>L.A. confidential</em>, de James Elroy). Ok, tudo isso é válido. Mas quando a tecnologia faz a sua aparição no mundo das fábulas, ainda que malditas, instala-se um ruído, principalmente quando há tentativas de datar a ação e ancorá-la no mundo concreto extra-literário. É dito pelo próprio Wilson/Cleo que os gêmeos nasceram em 1967. Enquanto William prefere brincar de faroeste, Wilson prefere se esconder no meio dos vestidos do armário da mãe, quando ambos devem andar pelos oito anos de idade. E é por essa época, dá a entender o livro, que Wilson descobre o filme de Cleópatra em um VHS encontrado nesse mesmo armário – e o VHS foi lançado em 1976 e só se tornou uma realidade comercial a partir dos anos 1980. É aí que reside um problema de verossimilhança que, intencional ou não, joga o leitor para fora do universo literário do romance – e a cada vez que Joca tenta estabelecer uma nova ancoragem de seu romance no mundo “real” (O paradoxo de Langevin, a Guerra do Sinai contra Israel, as datas do diário que Wilson mantém nas margens de uma biografia de Liz Taylor, a própria biografia de Liz Taylor), esse detalhe volta à memória e prejudica a intenção.</p>
<p>13 &#8211; Nesse sentido, embora não se possa avaliar por completo a “checheinedade” de ambos os romances, como já dito, o livro de Bernardo Carvalho sustenta com mais eficiência a ilusão ficcional de seu universo próprio. A guerra na Chechênia retratada no livro não é necessariamente a guerra “real”, mas maneja os referenciais reais de modo orgânico com a proposta de suas várias subtramas.</p>
<p>14 – Joca corre mais riscos em seu livro, ousa mais. A começar pela prosa que serpenteia em cadências variáveis, preferindo os jorros e as frases que seguem umas às outras atropeladas como em uma litania. Por ter um único narrador, a figura de Wilson/Cleo, e de lidar com uma narrativa que se alterna entre no mínimo três camadas de tempo diversas (a infância dos gêmeos e sua vida em São Paulo, a vida de Cleo no Egito e a procura de William pelo irmão no Cairo), Joca sustenta a narrativa com idas, vindas e o recurso de atiçar a curiosidade do leitor pelos vários mistérios antecipados nos primeiros parágrafos: o que aconteceu para William e Wilson não se falarem por 20 anos? O que aconteceu com Cleo no Egito? Qual o paradeiro de Cleo? De onde Cleo fala enquanto narradora para ter uma visão tão nítida dos passos de William? (este mistério em particular, embora só revelado no último capítulo, é passível de ser intuído com bastante antecedência – há uma pista já na capa –, o que torna as “iscas” lançadas por Cleo mais cansativas do que propriamente instigantes). Nem sempre essa costura é equilibrada, contudo, e <em>Do fundo do poço </em>perde a força em uma boa parte de seu desenvolvimento pelos fios frouxos da narrativa longa em demasia (não creio que haja um tamanho padrão a partir do qual uma narrativa seja considerada “longa demais”, apenas que, se conduzida com mão pouco firme, prevalece a impressão de muita coisa sobrando).</p>
<p>15 – Não há mistérios de tal natureza em <em>O filho da mãe </em>– a história não é exatamente linear, porque se espraia por vários pontos de vista, ajudado pela terceira pessoa narrativa (não, este juiz não tem preconceitos de antemão com o recurso da narrativa em terceira pessoa, irônica ou não). O mistério se constrói no estabelecimento das relações entre os vários personagens da trama: Andrei, Ruslam, seus parentes, padrastos, irmãos postiços desconhecidos, pais ausentes, mães negligentes. Também no tempo a narrativa se dilata e se comprime, pulando do primeiro capítulo, na comemoração do tricentenário de São Petersburgo em 2003, para eventos “um ano antes”, e mais tarde “semanas depois”. A prosa bem torneada que Carvalho apresentava em <em>Mongólia </em>e <em>Nove noites </em>aqui se acha mais econômica, sustentada em frases breves que, no entanto, encadeiam-se de modo harmônico, evitando o ritmo entrecortado que tal recurso poderia evocar.</p>
<p>16 – <em>O filho da mãe</em>, por levar seu leitor por seus meandros sem abrir mão da atmosfera inquietante construída com tanto esmero, acaba por surpreender mais – justamente porque a indeterminação do rumo de sua narrativa casa-se à perfeição com a sensação de ameaça e tragédia que paira sobre o universo íntimo de seus personagens. A rigor, tal sensação de ameaça talvez devesse estar mais à flor do texto também em <em>Do fundo do poço</em>, uma vez que a conclusão do livro se dá em tintas dramáticas e violentas, mas não é o que ocorre, razão pela qual declaro <em>O filho da mãe</em> o vencedor de uma disputa gloriosa e renhida.</p>
<p>17 – Ah, sim, e por que 17 tópicos? Porque 17 são as regras do futebol.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-852 aligncenter" title="O filho da mãe" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-filho-da-mae1.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
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		<title>JOGO 12 &#8211; Elza, a garota x O livro dos mandarins</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 13:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Quartas]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Lísias]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Simone Campos]]></category>

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		<description><![CDATA[Chegamos ao último jogo das quartas de final! Boa leitura! ——————– Jurada: Simone Campos Site / blog: http://simonecampos.zzl.org/ e http://simonecampos.blogspot.com/ Sobre: É escritora, tradutora e produtora editorial. Estreou na literatura com o romance No shopping (2000 &#8211; ed. 7Letras), ao &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-12-elza-a-garota-x-o-livro-dos-mandarins">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chegamos ao último jogo das quartas de final! Boa leitura!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-839" title="Elza, a garota" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Elza-a-Garota.jpg" alt="" width="120" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-840" title="Jogo 12" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/2011_12.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-841" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-livro-dos-mandarins.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
<p><strong>Jurada:</strong> Simone Campos</p>
<p><strong>Site / blog: </strong><a href="http://simonecampos.zzl.org/" target="_blank">http://simonecampos.zzl.org/</a><strong> </strong>e <a href="http://simonecampos.blogspot.com/" target="_blank">http://simonecampos.blogspot.com/</a></p>
<p><strong>Sobre:</strong> É escritora, tradutora e produtora editorial. Estreou na literatura com o romance <em>No shopping </em>(2000 &#8211; ed. 7Letras), ao qual se seguiram diversas participações em antologias, o romance <em>A feia noite</em>, a ficção-científica online <em>Penados y Rebeldes </em>e o livro de contos <em>Amostragem complexa</em>. Ainda em 2011 lançará o livro interativo <em>Owned &#8211; um novo jogador</em> (bolsa Petrobras Cultural), inspirado na cultura dos videogames, a sair em meio digital e papel pela 7Letras.</p>
<p>——————–</p>
<p>Os concorrentes da partida 12 têm um tema em comum: a verdade dissimulada sob cuidadosas camadas de retórica – o peixe por baixo do angu. Sérgio Rodrigues se concentra no Brasil e parte do comunismo, tocando de leve no capitalismo; Ricardo Lísias tenta uma crítica mais global e parte do capitalismo, tocando de leve no comunismo. (Caso ainda exista alguma dúvida, parece que a corrupção humana grassa em ambos os sistemas.)</p>
<p><em>Elza, a garota</em>, o livro de Rodrigues, entremeia a história da garota-título à história fictícia do pesquisador Molina, que é contratado por Xerxes, um esquerdista moribundo, para escrever suas memórias. Sérgio Rodrigues concebeu uma ficção sob medida para ressaltar os elementos que lhe interessavam no episódio real de Elza, amante de um dirigente do PCB assassinada a mando de Luís Carlos Prestes: o ordinário, o freudiano, o ridículo. A história inventada trabalha, portanto, com tipos: Velho Babão, Enfermeira Sexy Porque Sisuda, a Cunhadinha. A esquerda e a ética sexual brasileiras são revistas numa chave <em>camp</em>, com toda a devida liberdade, porque é ficção. É uma tentativa de fazer uma ponte do passado para o presente, mostrando um histórico sexual do Brasil, a história que penetra (hehe) na vida das pessoas (porque vem delas).</p>
<p>A parte ficcional, julgada segundo a própria proposta, não me convenceu. A parte jornalística é bem melhor – fundamentada, com boas invenções estilísticas&#8230; só achei temerária a inclusão de trechos de Graciliano Ramos, o que fez o texto em redor se encolher todinho. No final, identifiquei lances bem humorados e bem escritos, mas não me surpreendi; outro grande ponto não marcado pelo livro seria um final catártico, como nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues – mas também não encontrei isso. Encontrei apenas desfecho. O amarrar das pontas soltas na história. Acredite, já vi livro que nem isso.</p>
<p>De certa forma, a tentativa corajosa de Sérgio Rodrigues põe em xeque o Romance: pergunta se ele só é capaz mesmo de conter histórias grandiosas, desafiando-o com um séquito de personagens mesquinhos. Ao mesmo tempo, sua escolha de contar uma história paralela sinaliza uma submissão à grandiosidade do gênero (por preferir fazer um livro que “parasse em pé” a publicar apenas a investigação jornalística sobre Elza, que iria para a estante <em>Biografias</em>). Uma opção que poderia ter funcionado pela força ambígua e gerar um baluarte pró-pequenez, mas não funciona – ainda vamos chegar no por quê.</p>
<p>*            *            *</p>
<p><em>O livro dos mandarins</em>, de Ricardo Lísias, acompanha os passos do alto executivo Paulo e seus esforços para mostrar serviço em seu banco, já que visa ser escolhido para uma vaga na China. Ele galga inúmeros escalões simbólicos na empresa, mas, na hora H, não é enviado para a China e sim para o Sudão. É de fato um posto-chave, e um que exige conhecimento da cultura chinesa, mas exige também estranhas concessões, como ser formalmente desligado do banco. Após uma crise pessoal muito peculiar, Paulo começa a cumprir ordens, mas ainda tentando instaurar uma realidade alternativa em que teria ido morar na <em>sua</em> China.</p>
<p>O desfecho decola para o nonsense. O descompasso entre expectativa e realidade faz com que Paulo transcenda o banco – tornando-se “um intelectual” como seu ídolo, FHC. Paulo faz uma salada russa com os ingredientes que tem à mão e a chama de Confucius – supostamente inovadora consultoria baseada em sua experiência na China (qual?) – e edita um livro relacionado. Transcender a corrupção é criar a sua própria.</p>
<p>Tudo que Paulo vivencia é sugado para o universo empresarial e “paulístico”. Todos à sua volta são apresentados com nomes derivados do seu (por sua vez, derivado do de sua cidade que, por sua vez, deriva do nome do apóstolo cristão que, por sua vez, nem se chamava Paulo originalmente). O Paulo executivo, porém, perde seu nome e vai sendo fixado momentaneamente em personagens bidimensionais a partir da fala de outros personagens, por exemplo como “branquelo”, “o torto” e até “Maozinho”. É um experimentalismo na medida. Lísias brinca sem deixar o embalo da ilusão ficcional se perder para o leitor médio.</p>
<p>Chamar o narrador d’<em>O livro dos mandarins </em>de não confiável seria eufemismo: ele é um verdadeiro filho da puta (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tend%C3%AAncia_%28RPG%29">Chaotic Evil</a>). Ele joga descaradamente com nossas expectativas através do uso pernicioso dos citados apelidos, de tempos verbais, de palavras como “amigo” e “sinceridade” e outras mandingas. Quando vira a casaca, não só não se desculpa como ainda desfila a incoerência na sua cara. Eu logo estava acostumada e gostando da brincadeira.</p>
<p>O grande tema d’<em>O livro dos mandarins</em> são os mecanismos pelos quais tiranos e facínoras são normalizados. Se palavras como “genocídio” e “controle da mídia” chegaram a cruzar sua mente, esqueça. Hoje em dia esses mecanismos são futebol, simpatia, termas, vocabulário escolhido, jogo do contente, promessas de enriquecimento, promoção do afinco e do sucesso como valores em si, e outros. Gentileza gera lucro. O mal é banal.</p>
<p><em>Elza, a Garota</em> tentou apontar algo parecido e não conseguiu. Ficou no pastiche rodrigueano sem consequência, talvez por ter tentado salvar seus personagens, torná-los <em>gostáveis</em>. É como se ele se desse a todo um trabalho para mostrar que o mal é banal e, portanto, perigosíssimo&#8230; e depois resolvesse esquecer tudo e seguir em frente, carnavalizando. Pra depois se lembrar de novo.</p>
<p>Não foi o carnavalizar em si que desbancou <em>Elza</em> aos meus olhos, até porque no concorrente acontece algo parecido – por exemplo, ambos recorrem a modalidades sexuais não ortodoxas descritas de forma a acentuar o sentimento de absurdo. Devo elaborar uma analogia, já feita de passagem, que depende de familiaridade com <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Role-playing_game">RPGs (role playing games)</a> para ser totalmente entendida. A ficção em <em>Elza, a garota</em> é sobre dois personagens <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tend%C3%AAncia_%28RPG%29">Neutros Caóticos</a>, Elza e Molina, e é narrada por vozes <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tend%C3%AAncia_%28RPG%29">Neutras Caóticas</a><em>. </em>Tanto é verdade que uma dessas vozes, Xerxes, diz algo típico do neutro caótico logo na quarta capa: que Elza não se encaixa em nenhum tabuleiro – tudo bem: de tabuleiro o RPG prescinde. <em>O livro dos mandarins </em>fala sobre um personagem <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tend%C3%AAncia_%28RPG%29">Malvado Leal (Lawful Evil</a>) e é narrado por um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tend%C3%AAncia_%28RPG%29">Malvado Caótico</a> onipresente que se faz de onisciente. Só essa discrepância já torna a segunda narrativa muito mais saborosa do que a primeira; e de quebra, <em>O livro dos mandarins </em>ainda contém uma bela mudança de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tend%C3%AAncia_%28RPG%29">tendência</a> na reta final. <em>Elza</em>, <em>a garota</em> só faz atirar mais personagens no poço da neutralidade caótica. Nenhum padrão se firma na cabeça de ninguém o suficiente para eclodir um bom conflito. É como ficar olhando um pêndulo ir de um lado pro outro, perdendo embalo, até parar.</p>
<p>Mesmo defendendo ideias claras, <em>O livro dos mandarins</em> em nenhum momento foi didático ou entediante. Desde que eu estivesse prestando atenção, diversão e conexão com os personagens eram garantidas; admirei a prosa e as reviravoltas da trama em muitos momentos. Foi o oposto da experiência com <em>Elza, a garota</em>, que foi um tanto sofrida para terminar, embora tenha tido seus bons momentos.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-842" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-livro-dos-mandarins1.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
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		<title>JOGO 11 &#8211; Algum lugar x O gato diz adeus</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2011 13:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Leandro Oliveira]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Laub]]></category>
		<category><![CDATA[Paloma Vidal]]></category>
		<category><![CDATA[Quartas]]></category>

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		<description><![CDATA[Chegamos à metade das quartas de final. Boa leitura! ——————– Jurado: Leandro Oliveira Sobre: Editor do finado blog Odisseia Literária e membro do júri inicial do Prêmio Portugal Telecom 2011. ——————– A sensação é tão comum que praticamente todos se &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-11-algum-lugar-x-o-gato-diz-adeus">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chegamos à metade das quartas de final. Boa leitura!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-826" title="Algum lugar" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/algum-lugar.jpg" alt="" width="120" height="192" /><img class="alignnone size-full wp-image-827" title="Jogo 11" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/2011_11.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-828" title="O gato diz adeus" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-gato-diz-adeus.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p><strong>Jurado:</strong> Leandro Oliveira</p>
<p><strong>Sobre:</strong> Editor do finado blog Odisseia Literária e membro do júri inicial do Prêmio Portugal Telecom 2011.</p>
<p>——————–</p>
<p>A sensação é tão comum que praticamente todos se lembrarão de alguma ocasião em que ocorreu. Durante a noite você acorda com um pensamento opaco e o corpo emitindo sinais de terror. Você demora alguns instantes para perceber que teve um pesadelo. Mas durante algum tempo todo o enredo fabuloso influenciou seu corpo, fazendo-o ofegar ou lançando adrenalina em seu sangue. Aquelas imagens eram verossímeis, críveis. A melhor ficção contém esse ingrediente, fazendo o leitor acreditar e reagir a elementos que, sob um julgamento estritamente racional, não poderiam ser acreditados. De algum modo, certos livros têm a capacidade de nos colocar num lugar distante de nós mesmos e, ainda assim, sentirmo-nos confortáveis, curiosos ou desejosos de permanecer ali. Creio que essa imagem ilustra bem a comparação entre os livros de Paloma Vidal e Michel Laub. Numa obra, detecta-se logo que algo está deslocado e, como numa noite de bom sono, dizemos a nós mesmos que não é preciso se preocupar: identificamos que aquilo se trata apenas de um sonho e não reagimos ao que é projetado. No outro, somos embalados pela curiosidade, como num daqueles sonhos em que algo nos é familiar, mas não sabemos bem o que e continuamos a seguir o enredo.</p>
<p>A comparação com os sonhos é especialmente pertinente ao analisar <em>Algum lugar</em>, de Paloma Vidal, em que, somente na primeira parte (cento e vinte e duas páginas), pude contar dezenove descrições de sonhos. Cabe aqui uma crítica ao modo como certos recursos literários são utilizados na tentativa de responder (creio) a certa expectativa de um público bem específico: os críticos literários. O uso de sonhos na literatura contemporânea parece uma ingênua substituição do narrador onisciente do romance no século XIX. É aquele letreiro em neon dizendo “análises psicológicas aqui” e um modo de dizer que há algum sentido na narrativa fragmentada, algo que possa ser entendido – ou pelo menos sugerido – por meio da psicanálise.</p>
<p>O recurso é uma espécie de adoçante estético: seus defensores afirmam que faz bem à saúde da literatura, mas o gosto é péssimo. Aos leitores que nada veem nas sugestões psicanalíticas resta a dúvida: afinal, os recursos para avaliação que possuo são suficientes ou é preciso um entendimento de algo externo ao texto para que se reverta a má impressão que a obra me causou? A dúvida serve apenas para desviar a discussão do seu cerne: há mesmo ali algo de saudável ou o livro é somente um vazio disfarçado?</p>
<p>Acredito que desconstruir essa ideia de que o puro fato de se utilizar um recurso literário contemporâneo torna essa obra significativa para uma análise mais profunda é o primeiro passo para uma avaliação concreta de suas qualidades e defeitos. Em suma, quero dizer que somente o uso de recursos que chamam a atenção da crítica literária contemporânea não garante que a obra seja representativa de nosso tempo e espaço. Não creio que buscar invalidar a impressão negativa da leitura com o argumento de que o leitor não possui suficiente formação para um julgamento adequado incentive a melhora da crítica literária. Mas é essa exatamente a ideia que se passa quando um texto é salpicado de sonhos que “revelam” a <em>psiqué</em> do personagem.</p>
<p>Outro sintoma que reforça essa sensação são as citações feitas dentro do livro. As menções a teorias pós-modernistas – sujeito fragmentado, Baudrillard, Lyotard e até Jamenson transformado em personagem – e os tributos a escritores admirados –Walter Benjamin e Diamela Eltit, além de uma aparente referência a João Gilberto Noll – demonstram uma inversão de papéis: ao invés de se conseguir buscar alguma teoria das páginas da ficção, a obra parece emular ficção a partir da teoria literária. O resultado é um livro que corre o risco de não atingir a nenhum público, sendo desinteressante para quem não conhece a teoria e dispensável para quem a conhece. Nos poucos momentos em que a escritora parece se esquecer de seguir essa receita o que se vê é uma autora talentosa, com uma voz própria e autêntica. Mas ela parece distraída demais nesse esforço de alcançar a crítica, e o efeito encontrado em algumas páginas logo é dissolvido pela ruptura da narrativa e o aparente desejo de apresentar certa visão do sujeito contemporâneo fragmentado.</p>
<p>Para não finalizar com a ideia de que o livro se trata apenas de uma coleção de equívocos, saliento que a aproximação de elementos contemporâneos da crítica literária à ficção nem sempre é um problema. A autora faz muito bem essa aproximação em algo que é ponto-chave na obra: o espaço. No começo o espaço é opressivo: “o apartamento me parece um cordão de isolamento” (pág. 37), a cidade é “um ser que preciso conquistar” (pág. 39), mas é um inimigo (“A cidade está dando uma trégua”, pág. 45), fazendo com que a narradora pesquise fórmulas para fugir desse espaço (“A primeira coisa que pensei foi que ali os habitantes da cidade poderiam simular estar em outro lugar”, pág. 54). No entanto, prevalece a condição de estrangeiro (“uma necessidade de estar longe, de estar fora de um lugar determinado, que deveria nos pertencer, mas não pertence”, pág. 58). Especialmente interessante é o trecho abaixo, onde o espaço é reconfigurado a partir das limitações de deslocamento da personagem e sobressai a sensação do estrangeiro definido pelos atritos com esse novo espaço imposto:</p>
<p>“Salvo algumas caronas ocasionais de amigos, circulávamos pela cidade seguindo as rotas que esses meios nos ofereciam. Essa era a configuração imaginária que ela tinha para nós, um roteiro que começava na porta do apartamento, seguia pelo corredor acarpetado, contornando o pátio interno, até o elevador, descendo alguns degraus até a porta de vidro que se abria sobre a calçada, por onde nossos passos nos guiavam em geral para a direita, em direção ao ponto de ônibus.” (pág. 87)</p>
<p>Mas a demasiada esquematização de aparato teórico e ficcional, expondo mais o esqueleto que as feições, cansa ao ponto de o leitor chegar ao final do livro sem nenhum entusiasmo, lendo por obrigação.</p>
<p>***</p>
<p>Ao percorrer as páginas de <em>O gato diz adeus</em>, de Michel Laub, o leitor notará como a objetividade pode servir à ficção para ressaltar sensações. Confesso que foi sem motivação que apanhei o volume de oitenta páginas, imaginando um livro preguiçoso, com uma narrativa pouco desenvolvida. Parte do meu preconceito vinha de uma concepção de literatura que afirma a impossibilidade do desenvolvimento correto de uma trama (que não é conto) em poucas páginas. Creio que minha avaliação positiva se deve justamente à ruptura que o livro causou nessa afirmativa pessoal de que os tais personagens esféricos são o resultado de um processo que vai sendo construído lentamente, de um modo que ocupa páginas e páginas de sutilezas e detalhes. Há muita ambição nessa tentativa de sintetizar conflitos e sentimentos profundos em poucas páginas e é preciso dizer que o autor consegue cumprir muito bem esse objetivo. No pequeno número de páginas de <em>O gato diz adeus</em> existe a exploração dos limites da linguagem, reflexão sobre o jogo ficcional e o cotejo com a melhor tradição para revelar outros ângulos da ficção.</p>
<p>Por meio do recurso de sobrepor vozes truncadas, o texto desloca o significante do significado, fazendo o leitor perceber a ambiguidade dos conflitos e como afirmações podem se distanciar cada vez mais dos fatos. As três vozes principais da narrativa – Sérgio, Márcia e Roberto – parecem falar para si mesmos, atribuindo motivações e desejos, interpretando o outro segundo suas próprias certezas. Sintoma disso é o grande número de expressões que destacam esse exercício constante de isolamento:</p>
<p>“Quantos anos até eu descobrir o significado dos jogos dele, da dissimulação” (Márcia, interpretando as atitudes de Sérgio, pág. 17)</p>
<p>“Talvez nem mesmo eu acreditasse que uma mulher assim estivesse manipulando tudo à sua volta.” (Sérgio, sobre Márcia, pág. 18)</p>
<p>“&#8230; hoje tenho certeza de que foi por vaidade.” (Roberto, sobre Sérgio, pág. 18)</p>
<p>“&#8230; mesmo que ao ouvir essas confidências Roberto tenha se comportado daquela forma, que tenha fingindo ser daquele jeito.” (Sérgio falando sobre Roberto, página 18)</p>
<p>“É óbvio que ela tinha o direito de querer uma segunda chance, de tentar uma nova vida comigo” (Roberto sobre Márcia, pág. 46)</p>
<p>“Por que ele vivia falando de Roberto? Por que protegeu tanto Roberto? O aluno preferido, para quem ele contou tudo sobre nós.” (Márcia, explicando porque se envolveu com Roberto, pág. 56)</p>
<p>No fim da leitura, a sensação é de que a linguagem não deu conta de expressar a complexidade de pensamentos, fazendo de cada personagem uma ilha comunicativa, cujo único receptor é externo à ficção: o próprio leitor. Como sugere a capa, cada voz é uma linha reta que eventualmente se cruza com outra voz, e é nessa intersecção que o leitor vai tentando reinterpretar as afirmações.</p>
<p>A segunda bela característica da obra de Laub é o modo como ela reflete sobre a própria literatura. Como na questão dos sonhos, a metalinguagem se tornou um recurso literário utilizado como uma exclamação para fazer o crítico atentar para a capacidade do escritor em se revelar antenado, uma espécie de <em>botton</em> que identifica membros de um mesmo clubinho. Portanto, a pergunta é: Por que é interessante o uso da metalinguagem em <em>O gato diz adeus</em>? Para responder, detalhes finais da trama serão revelados, então aqueles que ainda não leram o livro podem preferir parar a leitura aqui.</p>
<p>Na segunda parte do livro, entra em cena uma nova voz, Andreia, uma leitora do livro de Sérgio. Ela seria uma ficcionalização de nós leitores. O problema é que ela se vê implicada na própria obra: o conflito existente não é apenas ficcional, é uma parte de si mesma. Andreia é filha de Márcia e procura entender o papel de Sérgio na vida de sua mãe e de Roberto. Ela é, portanto, o resultado de tudo o que está narrado ali, a descrição da separação entre eles constrói a identidade dessa voz que surge. Verdadeiro e verossímil se aproximam e se confundem, tal como a própria ficção. Como nós leitores, Andreia pode ler apenas nas entrelinhas e deduzir a partir de fragmentos:</p>
<p>“Ele tentou esconder os fatos de mim porque não queria que eu sofresse também, mas claro que foi um esforço inútil.” (pág. 68)</p>
<p>“Porque este é o final do livro, e é incrível como agora eu imagino de outra forma aquele período.” (pág. 74)</p>
<p>Andreia se torna assim um protótipo do que vai experimentar o leitor ao perceber a impossibilidade de saber todos os fatos e de reconstruir intenções e motivações através dos fatos. Como em toda boa obra da literatura, buscamos um significado, mas o que temos é a multiplicidade de interpretações.</p>
<p>Por último, o livro de Michel Laub tem como base sólida a tradição literária. O próprio autor revela alguns escritores que serviram de combustível à sua criação: Andrew Solomon, William Faulkner, Amós Oz, Junichiro Tanizaki. Mas, embora não haja nenhuma citação, vi o recurso de circularidade da narrativa como uma espécie de homenagem a Erico Verissimo (não quero especular aqui se isso seria proposital ou incidental, não importa). Assim como as primeiras frases de <em>O continente</em> – primeiro volume de <em>O tempo e o vento</em> – são reproduzidas no último volume de <em>O arquipélago</em>, em <em>O gato diz adeus</em>, a obra escrita por Sérgio tem o mesmo título do livro que temos em mãos, e na página 53, sob o título “TRECHO INICIAL DE <em>O GATO DIZ ADEUS</em>, LIVRO DE SÉRGIO”, lemos as frases inicias do próprio livro. É o reconhecimento de que aquilo já foi dito, mas que é preciso contar mais uma vez por uma voz autêntica que revelará mais sobre a ficção.</p>
<p><em>O gato diz adeus</em> é, enfim, o livro que escolhi para avançar.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-829" title="O gato diz adeus" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/05/o-gato-diz-adeus1.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
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		<title>Jogo 10 &#8211; Azul-corvo x Do fundo do poço se vê a lua</title>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2011 13:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Adriana Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[Antônio Xerxenesky]]></category>
		<category><![CDATA[Joca Reiners Terron]]></category>
		<category><![CDATA[Quartas]]></category>

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		<description><![CDATA[As quartas de final prosseguem. Dois vencedores da fase anterior se enfrentam por uma vaga. Confere o jogo! ——————– Jurado: Antônio Xerxenesky Blog / site: http://blog.antonioxerxenesky.com/ Sobre: É ficcionista, autor do romance Areia nos dentes (Não Editora, 2008; Editora Rocco, &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-10-azul-corvo-x-do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As quartas de final prosseguem. Dois vencedores da fase anterior se enfrentam por uma vaga. Confere o jogo!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-812" title="Azul corvo" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/azul-corvo.jpg" alt="" width="120" height="180" /><img class="alignnone size-full wp-image-813" title="Jogo 10" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/2011_10.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-814" title="Do fundo do poco se vê a lua" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p><strong>Jurado:</strong> Antônio Xerxenesky</p>
<p><strong>Blog / site:</strong> <a href="http://blog.antonioxerxenesky.com/">http://blog.antonioxerxenesky.com/</a></p>
<p><strong>Sobre:</strong> É ficcionista, autor do romance <em>Areia nos dentes</em> (Não Editora, 2008; Editora Rocco, 2010). Finalizou, recentemente, o volume de contos <em>A página assombrada por fantasmas</em>, que será lançado pela Editora Rocco em 2011. Atua como editor na <a href="http://naoeditora.com.br/">Não Editora</a>, onde organiza a revista online de crítica literária <a href="http://naoeditora.com.br/revista">Cadernos de Não-Ficção</a>.</p>
<p>——————–</p>
<p>A julgar pelas sinopses, estamos tratando de livros com premissas muito similares. <em>Do fundo do poço se vê a lua</em>, de Joca Reiners Terron, narra a história de uma pessoa que viaja ao Egito em busca de um familiar. <em>Azul-corvo</em>, de Adriana Lisboa, narra a história de uma pessoa que viaja aos Estados Unidos em busca de um familiar. Mais ou menos por aqui acabam as semelhanças.</p>
<p>A capa de <em>Do fundo do poço</em> é poluída, propositalmente poluída¹; a capa de <em>Azul-corvo</em> é singela, leve, agradável. <em>Do fundo do poço</em> foi impresso no papel Pólen cor-de-areia, adequado para o deserto egípcio. <em>Azul-corvo</em> está num offset branco padrão que cansa um tanto os olhos².</p>
<p>Sobre Adriana Lisboa sei muito pouco. Nunca tinha lido um só romance dela. Um amigo me disse, ano passado, que <em>Azul-corvo</em> era seu melhor livro. Não sei o que pensar disso, posto que este foi meu primeiro contato com a prosa de Lisboa. Sobre a obra de Terron sei bastante, e acho que li praticamente tudo que ele já publicou em prosa (nunca fui muito de poesia). Sei que ele navegou pelo experimentalismo com <em>Não há nada lá</em> e suas bordas borradas; sei que ele afundou em um experimentalismo ilegível em <em>Hotel Hell</em> (que nunca consegui terminar de ler, de tão confuso e hermético). No território dos contos, ele ousou em duas direções diferentes: brincou de metaliteratura com <em>Sonho interrompido por guilhotina</em> e brincou de escritor sério e realista com <em>Curva do rio sujo</em>.</p>
<p>Por que estou falando tudo isso? Bem, porque meu julgamento do seu recente <em>Do fundo do poço se vê a lua</em> tem muito a ver com onde posiciono o livro em relação à carreira de Joca.</p>
<p>Isso pode parecer não fazer sentido, mas pensem comigo: se eu assisto ao filme <em>Eles vivem </em>(1988), de John Carpenter, sem nunca ter visto nada do cineasta, vou dizer: “uau, que filme maluco e criativo e ousado!”. Agora, se vejo esse filme já conhecendo obras-primas anteriores como <em>Fuga de Nova York </em>(1981) e <em>O enigma do outro mundo </em>(1982), vou achar que <em>Eles vivem</em> não é tão grande coisa assim. Ou então: vou entender/ler/interpretar o filme como uma mudança em certos paradigmas na obra de Carpenter<em> </em>– exploração de novos territórios, releitura de temas, e por aí vai.</p>
<p>A primeira coisa que escutei sobre o livro foi que Joca Terron tinha decidido dar uma guinada na carreira e virar um escritor <em>mainstream</em> (nesses termos), que agora ele seria um tiozão realista e daria continuidade ao que iniciou em <em>Curva do rio sujo</em>. Sobre essa suposta guinada falarei depois. Comecemos do início, falando do primeiro capítulo.</p>
<p>O primeiro capítulo de <em>Do fundo do poço</em> é um prato cheio para uma oficina literária. Colem na parede de exemplo: como escrever um primeiro capítulo. Ele faz tudo: define bem o narrador, o conflito, os dilemas. Abre dezenas de fios e não os fecha. Convence o leitor a encarar as 250 páginas seguintes contente da vida para assistir a todos esses fios narrativos se amarrarem.</p>
<p>O/a narrador(a). Se você leu algo sobre <em>Do fundo do poço</em>, sabe muito bem que o/a narrador(a) é um(a) transexual. A voz dele/a conduzirá toda a trama, portanto precisa ser uma voz bem constituída (e é). Esse novo “ponto de vista” revela-se extremamente refrescante. No cenário da literatura brasileira contemporânea, é muito raro se deparar com um narrador que não seja um homem branco, entre os 20 e 40 anos, de classe média. Não falo disso por convicções políticas, acadêmicas, ou seja lá o que for³. Digo isso porque é realmente <em>refrescante</em>, no sentido de “estou lendo algo diferente”, quando quem narra um romance se encontra em uma ponte entre dois sexos.</p>
<p>O Egito. Uma das críticas negativas feitas ao livro dizia, basicamente, que se fosse para mostrar aquele país cheios de estereótipos, de Cleópatra e quetais, o autor poderia muito bem ter ficado em casa e não viajado até o Egito. Sim e não. Joca Terron é um pós-modernista de carteirinha. Se ele vai falar de um Egito, ele levará em conta todo o lixo pop que nossa cultura engoliu acerca do lugar. Ele lidará com pirâmides, Cleópatra e até mesmo com todo aquele espírito “oriente médio exótico” presente em músicas da Siouxsie &amp; The Banshees. O Egito de Joca se revela de uma artificialidade porosa: por trás dos estereótipos, irrompe uma realidade que nem o/a narrador(a) nem o autor parecem compreender. Talvez os clichês sejam justamente para isso, para conseguir dar um mínimo de sentido àquela experiência.</p>
<p>O contraste entre artifício/realidade reverbera por todo o romance. Os irmãos gêmeos William e Wilson são claros exemplos de referência explícita a uma obra externa (aquilo que uma semioticista búlgara chama de intertextualidade), o famoso conto de Poe. O livro está cheio disso: ao mesmo tempo em que Joca Terron compila e revê tudo o que já foi feito no mundo literário acerca da figura do <em>duplo</em> ou <em>doppelgänger</em>, ele tenta inserir o seu narrador como um novo elemento nessa longa série, um elemento seu, Terronesco. Um livro sobre como tudo já foi dito sobre os duplos que é, ao mesmo tempo, um novo livro, com novas coisas a dizer sobre os duplos. Fez sentido?</p>
<p><em>Do fundo do poço </em>articula uma síntese entre as duas pontas da carreira do escritor: a metaliteratura e o realismo. E há o lirismo, sim!, em diversas passagens recordamos o lado poeta de Joca. A fusão dessas três coisas (metaliteratura, realismo, lirismo) acaba soando assim: “como escrever um livro erudito, cheio de referências literárias, e ao mesmo tempo extremamente humano”<sup>4</sup>.</p>
<p>Aí que entra aquilo que falei do “livro em relação ao restante da obra”. Enxergo claramente <em>Do fundo do poço se vê a lua</em> como o romance no qual JRT resolveu dois impulsos opostos de sua escrita. Trata-se de um livro <em>maduro</em><sup>5</sup>, portanto.</p>
<p>Não quero dizer que a incursão egípcia de Terron não tenha falhas. Os finais de capítulo tendem ao brega e ao <em>kitsch</em>, com resultados variados. O livro perde alguma força narrativa lá pelo meio: sofre uma bela “murchada” e só se recupera por completo ao final. E, ainda assim, <em>Do fundo do poço</em> é um romance sólido, intenso, competente, importante no cenário atual brasileiro.</p>
<p>Talvez seja hora de começar a falar de <em>Azul-corvo</em>.</p>
<p>Tenho um método moderadamente Pollyanna de ler livros, especialmente para algo como a Copa de Literatura. O livro de Joca eu tinha lido pela primeira vez em 2010 (e reli para a Copa). Quando, por fim, abri <em>Azul-corvo</em>, eu estava torcendo, com todos os dedos cruzados, para que fosse sensacional. É uma tática meio bizarra essa. Não sei quem foi que disse que críticos literários<sup>6</sup> leem literatura brasileira “de má vontade”. Para mim funciona ao contrário, leio sempre na esperança de encontrar um(a) novo/a grande autor(a). Foi com esse espírito que abri <em>Azul-corvo</em> e me deliciei logo de cara com o estilo de Adriana Lisboa.</p>
<p>Uma das primeiras coisas que percebi foi que a autora é familiarizada com teoria (que vago – “teoria”. Qual? Literária? Antropológica? Essas fronteiras estão cada vez mais difíceis). Dos “não-lugares”, de Marc Augé, aos <em>Estrangeiros para nós mesmos</em>,<em> </em>de Julia Kristeva, tudo está lá, em <em>Azul-corvo</em>, mas não perdido em referências diretas para impressionar o mundo acadêmico. Lisboa mastigou e digeriu bem essas leituras, de forma que a aparição de conceitos da filosofia contemporânea está bem disfarçada – ou melhor, bem inserida no texto, sem parecer postiça ou artificial<sup>7</sup>.</p>
<p>A internet também se apresenta com naturalidade no romance. Poucas coisas ficam mais esquisitas do que autor tentando colocar internet em literatura. Em <em>Azul-corvo</em>, a Wikipédia é tão ou mais natural que os animais que dão nomes aos capítulos. Isso muito me lembrou <em>Como desaparecer completamente</em>, romance de André de Leones que usa linguagens de blog sem nenhuma ruptura na fluência da trama. Os autores brasileiros estão finalmente lidando com a internet de um modo natural. Viva.</p>
<p>Wikipédia, teoria contemporânea. Tudo isso está harmoniosamente mesclado na prosa de Lisboa, que, apesar das modernidades, ainda parece nutrir uma paixão pelo clássico e eterno recurso das metáforas. O romance dela vai na contramão de tendências recentes de objetivismo e frieza (Como Bernhard? Certa fase de Coetzee? O Bolaño de <em>2666</em>?). Dá para sentir que ela está se divertindo de montão<sup>8</sup> com as palavras e com as metáforas. Para cada nascer do sol, para cada posição de nuvem, a narradora de Lisboa busca uma metáfora inesperada, surpreendente e adequada. Impossível dizer que Lisboa é uma escritora “iniciante”: ela já tem um estilo muito bem construído.</p>
<p>Mas – e eu nunca me imaginei dizendo isso – o estilo não é tudo. Quando o estilo alcança um nível sobrenatural, pode ser capaz de arrastar uma trama minúscula por páginas sem problema algum. Javier Marías me convenceria a ler a pior e mais insossa história do mundo, graças ao seu estilo. O estilo de Lisboa, no entanto, não carrega o livro nas costas. Literatura, para mim, precisa do incontornável “conflito”. Foi Vonnegut, acho, quem disse que, se a história narrada envolve uma pessoa buscando um copo d’água, algo tem que acontecer nessa busca. Precisamos de conflito, drama. O conflito de <em>Azul-corvo</em> até existe, está lá, embora seja explicitado um tanto tarde no livro (página 65, de 215): “eu ia para os Estados Unidos me hospedar com Fernando com um objetivo bem específico em mente: procurar meu pai”.</p>
<p>Tenho certeza que serei mal compreendido aqui, então tentarei ser didático. Não há nada de errado em adiar a aparição do conflito; Sergio Leone passa 40 minutos de <em>Era uma vez no oeste</em> desenvolvendo personagens para finalmente colocar a trama em andamento. <em>Azul-corvo</em> também adia o conflito e aquilo que acaba sendo o cerne do livro, a <em>road trip</em> da narradora Vanja com Fernando. Só que a cada página adiada, a empolgação com o romance diminui.</p>
<p>Falei, com muita admiração, sobre o primeiro capítulo de <em>Do fundo do poço se vê a lua</em>, que abre mil fios e não os amarra. O primeiro capítulo de <em>Azul-corvo</em> é radicalmente diferente. Composto basicamente de descrições, não nos dá nenhuma pista de para onde a história será levada.</p>
<p>As personagens que Lisboa constrói são reais, críveis. Os Estados Unidos dela é <em>the real deal</em>, não há estereótipos. A atenção da narradora a detalhes cria diversos momentos singelos. Há um verdadeiro prazer em ver o mundo pelos olhos de Vanja. E, ainda assim, é um prazer plácido, tranquilo.</p>
<p>Não podemos dizer que <em>Azul-corvo </em>não tem conflito. Ele tem personagens, suas rixas, seus desejos (ocasionalmente frustrados). Talvez não seja “conflito” que falte ao livro. Talvez seja – e lá vem uma palavrinha que me fará soar arrogante – <em>pathos</em>. Falta drama, perturbação, transtorno. Tomemos, por exemplo, o romance <em>Todas las almas</em>, de Javier Marías. Não acontece quase nada naquele livro. Talvez aconteçam menos coisas que em <em>Azul-corvo</em>.<em> </em>Mas <em>Todas las almas</em> é uma “história de uma perturbação”. O romance prende o leitor, forçando-o a acompanhar aquele mar de pensamentos incômodos para ver aonde isso vai chegar. Apesar de ter sido criado a videogames, tenho uma extraordinária paciência com livros e filmes lentos; não é o ritmo que atrapalha <em>Azul-corvo</em>. Se falta algo a <em>Azul-corvo</em>, é esse desconforto, esse transtorno. Admito: estou especulando. O estilo de Lisboa me encantou, mas o romance dela não me prendeu, e passei horas tentando entender por que isso tinha acontecido. “Conflito”, “<em>pathos</em>”: tentativas minhas de racionalizar essa falta de entusiasmo.</p>
<p>Tem um momento no livro em que a narradora tenta traduzir o conceito de <em>smooth sailing</em>: “O sentido era avançar sem dificuldades (&#8230;) Smooth era a qualidade lisa e acetinada das águas, sailing era o verbo da vela que inchava com o vento e cruzava oceanos inteiros.”. De certa forma, <em>smooth sailing</em> é a maneira como <em>Azul-corvo</em> navega. Um livro tranquilo que percorre o mar liso e acetinado do oceano. O problema é que com o embalo suave e gostoso do barco, o leitor pode acabar pegando no sono.</p>
<p>Vou fazer uma forcinha para não ser mal compreendido: <em>Azul-corvo</em> não é um livro ruim, nem necessariamente chato. Eu poderia (e gostaria de) falar muito sobre minhas leituras e interpretações do livro, sobre a questão do “pertencimento”, sobre família e nacionalidade. Acho que o romance de Lisboa renderia uma boa crítica (no sentido de “uma crítica literária”) preocupada em produzir sentido em cima do texto. A Copa de Literatura, no entanto, não parece o lugar mais adequado para isso. Aqui as pessoas pedem sangue, elas estão gritando na plateia (consigo escutar daqui) que querem saber o vencedor. E aí ganha o “agito no Egito” do Joca Terron, porque é o tipo de livro que você diz para o amigo, “Você tem que ler esse livro!”, enquanto do romance da Adriana Lisboa eu diria (talvez para minha orientadora no mestrado), “Acho que você vai achar esse livro interessante”. A diferença entre os dois é a diferença entre um romance explodindo de vitalidade e um romance muito bem escrito. A diferença entre o empolgante e o interessante. Pode ser porque sou jovem, porque jogo videogames, sei lá, mas, neste momento específico da minha vida, eu prefiro o livro empolgante.</p>
<p><strong>VENCEDOR:</strong> <em>Do fundo do poço se vê a lua, </em>Joca Reiners Terron</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-815" title="Do fundo do poco se vê a lua" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua1.jpg" alt="" width="120" height="180" /><strong>NOTAS:</strong></p>
<p>¹ Talvez seja a única capa que eu não goste do pessoal do Retina_78, designers dos mais interessantes.</p>
<p>² Você, leitor, talvez ache que a qualidade gráfica da edição nada tem a ver com a qualidade do livro. É, em parte, verdade. Mas, trabalhando numa editora, me acostumei tanto a avaliar edições gráficas que esses fatores mínimos acabam se tornando incontornáveis. Mesmo que eu esqueça da capa, é um primeiro contato com o livro, e isso pesa talvez em 0,03% do meu julgamento final sobre o volume.</p>
<p>³ Nada contra quem pratica isso, só não é meu tipo de coisa.</p>
<p><sup>4</sup> David Foster Wallace falava disso o tempo todo: aprender com os avanços dos modernistas e voltar a tratar das velhas questões humanas e morais dos “grandes mestres” realistas.</p>
<p><sup>5</sup> Que palavrinha asquerosa. Só consigo usá-la com itálico irônico.</p>
<p><sup>6 </sup>Não que eu seja um crítico literário, claro. Todavia, estou travestido de um aqui na CLB.</p>
<p><sup>7 </sup>O livro não faz o chamado <em>name dropping</em> para impressionar. Nããão. Quem tá falando de Marc Augé e Kristeva aqui sou eu, então se alguém pode ser acusado de praticar o horrendo <em>name dropping</em>, é este humilde resenhista. <em>Mea culpa, mea maxima culpa</em> etc.</p>
<p><sup>8 </sup>“Divertindo” não é a expressão mais adequada. Tratando-se de escritores, “sofrendo” seria uma palavra mais precisa.</p>
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		<title>Comunicado</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 12:33:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Avulsos]]></category>

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		<description><![CDATA[O site da Copa de Literatura Brasileira enfrentou instabilidades no servidor na semana passada, ficando, inclusive, fora do ar por várias horas. Por esse motivo, os organizadores decidiram estender o prazo de publicação do Jogo 9. O Jogo 10 entra &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/avulsos/comunicado">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O site da Copa de Literatura Brasileira enfrentou instabilidades no servidor na semana passada, ficando, inclusive, fora do ar por várias horas. Por esse motivo, os organizadores decidiram estender o prazo de publicação do Jogo 9. O Jogo 10 entra no ar, excepcionalmente, amanhã (03 de maio &#8211; terça-feira), às 10h. Aguardamos vocês!</p>
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		<title>JOGO 9 &#8211; Como desaparecer completamente x O filho da mãe</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 13:00:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Andre de Leones]]></category>
		<category><![CDATA[Bernardo Brayner]]></category>
		<category><![CDATA[Bernardo Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Quartas]]></category>

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		<description><![CDATA[E as quartas de final iniciam. Os vencedores do Jogo 1 e do Jogo 2 da Copa de Literatura 2011 se enfrentam. Boa leitura! ——————– Jurado: Bernardo Brayner Blog / site: http://livrosquevoceprecisaler.wordpress.com/ Sobre: Nasceu e vive no Recife. É publicitário &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-9-como-desaparecer-completamente-x-o-filho-da-mae">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E as quartas de final iniciam. Os vencedores do Jogo 1 e do Jogo 2 da Copa de Literatura 2011 se enfrentam. Boa leitura!</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="size-full wp-image-797 alignnone" title="Como desaparecer completamente" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/como-desaparecer-completamente.jpg" alt="" width="120" height="182" /><img class="alignnone size-full wp-image-808" title="Jogo 9" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/2011_9.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="size-full wp-image-798 alignnone" title="O filho da mãe" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/o-filho-da-mae1.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
<p><em><strong> </strong></em></p>
<p><strong>Jurado:</strong> Bernardo Brayner</p>
<p><strong>Blog / site:</strong> <a href="http://livrosquevoceprecisaler.wordpress.com/" target="_blank">http://livrosquevoceprecisaler.wordpress.com/</a></p>
<p><strong>Sobre:</strong> Nasceu e vive no Recife. É publicitário e leitor.</p>
<p>——————–</p>
<p>Em <em>O filho da mãe</em>, Ruslan é um checheno que procura por sua mãe russa em São Petersburgo. Em <em>O filho da mãe</em>, Andrei é um soldado russo, filho de pai brasileiro, que tenta fugir dos maus tratos do exército. Os encontros, inclusive sexuais, desses homens e deles com a figura da mãe (uma alusão à mãe Rússia?) sugere um amor monstruoso, uma quimera, algo defeituoso, sem pátria, sem lugar. O nascimento de um animal mal formado é uma pista, em uma passagem que lembra o início de <em>Grande Sertão: Veredas</em>:</p>
<p><em>“Quando chegam, a mulher está parada, segurando a espingarda, diante de um animal disforme e morto, um bezerro recém-nascido, ao mesmo tempo peludo e pelado, com diferentes padrões e cores de pelos espalhados pelo corpo, como uma colcha de retalhos. Uma quimera, mistura de dois embriões, portadora de mau agouro.”</em></p>
<p>Aqui, a presença do estranho (e do estrangeiro, e do <em>Unheimlich</em>), como na obra do escritor mineiro, se insinua no ato divino: a criação, o nascimento. O resultado são homens híbridos, homossexuais, se encontrando em uma cidade que é a encarnação do medo. Filhos de países diferentes, culturas diferentes. Filhos de mães que amam e rechaçam, misturadamente. A guerra e o amor não são contrários, mas se alimentam. O enigma da origem, do pertencimento, o enigma da identidade e da sexualidade.</p>
<p>Apesar da boa ideia, a escrita de Carvalho, caracterizada pelos jogos com o leitor, parece tão preocupada em se amarrar à cidade de São Petersburgo e em amarrar os personagens uns aos outros que os próprios personagens perdem força. Em <em>A arte da ficção</em>, David Lodge escreve que “em toda a arte da ficção, o personagem é provavelmente o aspecto mais difícil de se discutir em termos técnicos”. Essa afirmação é resultante das várias formas de representar um personagem no romance moderno. A frase de Lodge pode sugerir, em última instância, que os personagens podem ser construídos de muitas maneiras – a não ser que sejam não construídos, ou seja: personagens rasos. Esse pode ser um dos grandes problemas da literatura brasileira contemporânea. Qual foi o último personagem inesquecível entre os nossos? Um chute: Muhammed Mané, de <em>O paraíso é bem bacana</em>, de André Sant’Anna. Lá fora é fácil citar outro exemplo: Oscar Wao, de <em>A fantástica vida breve de Oscar Wao</em>, do dominicano-americano Junot Díaz.</p>
<p>Se os personagens de <em>O filho da mãe</em> não são rasos, também não chegam a pegar o leitor pela goela. E a leitura que se sobrepõe à primeira leitura, essa característica do trabalho do autor, perde também força e acaba se diluindo.</p>
<p>Carvalho, como Piglia, acredita que o romance moderno é um policial em que o assassino é o escritor e o detetive é o crítico ou o leitor. Em entrevista para o jornal Rascunho, o autor disse:</p>
<p><em>“Hoje, entre os jovens críticos, por exemplo, qualidades inquestionáveis na literatura são personagens bem construídos psicologicamente e uma trama bem construída realisticamente. Qualquer crítico literário jovem vai tomar isso como um juízo de valor. Quando isso deveria ser um dos modelos.”</em></p>
<p>Ele tem razão. Isso tudo não pode ser juízo de valor. Os personagens de Borges, por exemplo, não parecem bem construídos psicologicamente. Mas são grandes personagens. Quanto à trama bem construída realisticamente, bem, que essa vá às favas. Mas com elementos bem realizados fica mais fácil transcender para uma segunda leitura.</p>
<p>Em <em>Como desaparecer completamente</em> o problema da diluição é elevado ao quadrado em relação a <em>O filho da mãe</em>. Principalmente as relações entre os personagens e a profundidade deles. Vou usar a expressão que Vinícius Castro utilizou na <a href="../index.php/clb2010/jogo-5-uma-leve-simetria-x-algum-lugar">sua resenha</a>: oh-tão-impertencente-mundo-líquido. Ela se aplica muitíssimo bem ao livro de André de Leones. Na tentativa de mostrar o vazio da maior cidade da América do Sul, o escritor goiano compõe uma ciranda de personagens: ora mãe, ora filho, sempre amantes. Nessa dança das cadeiras a estratégia de mostrar a liquidez das relações humanas contemporâneas parece batida. Ainda mais com o recheio de sexo que a literatura (principalmente a brasileira) se acostumou a adotar sem maiores efeitos ficcionais. Aí surge novamente o nosso amigo Muhammed Mané e suas cenas incontáveis de sexo aprofundando, construindo, solidificando o personagem.</p>
<p>Outro erro é o de optar pela liquidez na forma. Como se isso soasse original. O livro é composto de diálogos, e-mails, trechos de blog. O autor chama seus livros de filmes de papel: muitos cortes (influência de Godard, diz o autor), diálogos rápidos e sexo-vazio, um clichê maior da contemporaneidade.</p>
<p>Os dois livros têm em comum essa marca do contemporâneo. Essa necessidade de se afirmar como tal, usando vários dos seus elementos. <em>O filho da mãe</em> se sai melhor por se afastar dos clichês.</p>
<p><em>O filho da mãe </em>passa para a próxima fase da Copa de Literatura Brasileira pela maior solidez na sua composição. Embora esteja longe do que se pode esperar do seu autor. Voltemos a Charles D’Ambrosio e sua prosa Phebo Preto.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-794" title="O filho da mãe" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/o-filho-da-mae.jpg" alt="" width="120" height="180" /></p>
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		<title>JOGO 8 &#8211; Nada a dizer x O livro dos mandarins</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Apr 2011 13:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Copa de Literatura</dc:creator>
				<category><![CDATA[CLB 2010 / 2011]]></category>
		<category><![CDATA[Elvira Vigna]]></category>
		<category><![CDATA[Kelvin Falcão Klein]]></category>
		<category><![CDATA[Oitavas]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Lísias]]></category>

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		<description><![CDATA[As oitavas de final da Copa de Literatura terminam! Publicamos hoje a última resenha da fase. Leia o texto e conheça o oitavo classificado para as quartas de final. ——————– Jurado: Kelvin Falcão Klein Blog / site: www.falcaoklein.blogspot.com Sobre: Mestre &#8230; <a href="http://copadeliteratura.com.br/index.php/clb2010/jogo-8-nada-a-dizer-x-o-livro-dos-mandarins">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As oitavas de final da Copa de Literatura terminam! Publicamos hoje a última resenha da fase. Leia o texto e conheça o oitavo classificado para as quartas de final.</p>
<p>——————–</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-783" title="Nada a dizer" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/nada-a-dizer.jpg" alt="" width="120" height="179" /><img class="alignnone size-full wp-image-784" title="Jogo 8" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Jogo-8-2011_8.png" alt="" width="396" height="181" /><img class="alignnone size-full wp-image-785" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/o-livro-dos-mandarins.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
<p><strong>Jurado:</strong> Kelvin Falcão Klein</p>
<p><strong>Blog / site:</strong> <a href="http://www.falcaoklein.blogspot.com" target="_blank">www.falcaoklein.blogspot.com</a></p>
<p><strong>Sobre:</strong> Mestre em Literatura Comparada, faz Doutorado em Teoria Literária. Mora em Florianópolis. Autor de <em>Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas</em> (Ed. Modelo de Nuvem).</p>
<p>——————–</p>
<p>Ao contrário de outras partidas, não estamos diante de autores iniciantes. Os trabalhos aqui em questão chamam a atenção, primeiro, pela maturidade e pela execução segura. <em>O livro dos mandarins</em> é mais extenso e mais ambicioso que <em>Nada a dizer</em>, mas, postos lado a lado, equilibrando suas propostas, não há discrepância.</p>
<p>Há, é claro, a enorme distância que separa um livro escrito na primeira pessoa (<em>Nada a dizer</em>) de outro escrito na terceira (<em>O livro dos mandarins</em>). Essa diferença pesa porque, no fim das contas, a narração mais trabalhosa de <em>Mandarins</em>, tendo em vista a linearidade de <em>Nada a dizer</em>, torna o primeiro mais sutil, mais rico em camadas e muito mais produtivo criticamente.</p>
<p>*</p>
<p><em>O livro dos mandarins</em> conta a história de Paulo, alto executivo de um banco com ambição de expansão para a China. “O livro dos mandarins” é justamente o livro que Paulo prepara durante seu trabalho no Oriente. Ele sente uma admiração irrestrita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e a manifesta continuamente:</p>
<p><em>Fernando Henrique Cardoso, para ele, é o exemplo de que problemas de coluna não atrapalham a vida profissional de ninguém, se a pessoa tiver concentração, claro. </em>(p. 22)</p>
<p><em>Já em pé, o homem Paulo fixou os olhos na folha com a fotografia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e respirou fundo</em>. (p. 36)</p>
<p><em>Depois de jantar, o branquelo tomou um banho, eufórico com a possibilidade de repetir a experiência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.</em> (p. 138)</p>
<p>Paulo sente uma dor constante nas costas, que o incomoda desde criança, e essa é uma das inúmeras informações que <em>O livro dos mandarins </em>repete constantemente, com duas ou três variações na ordem das palavras. Paulo é metódico, repetitivo, enfadonho – e assim também é, até certo ponto e na medida das necessidades que impõe a si mesmo, <em>O livro dos mandarins</em>:</p>
<p><em>No elevador, Paulo sentiu que a dor nas costas tinha ido do músculo lombar para o alto da coluna vertebral. </em>(p. 24)</p>
<p><em>A dor nas costas está lá, andando de um lado para outro e impedindo que ele tenha qualquer tipo de frio na espinha. </em>(p. 182)</p>
<p><em>Desde menino, o amigo aqui sente uma dor estranha na região da coluna. Não é nada extremamente forte, mas mesmo assim angustia bastante. </em>(p. 221)</p>
<p>O chefe de Paulo se chama Paul; o chefe de Paul se chama Paulson; a secretária de Paulo se chama Paula; a colega do RH se chama a mulher Paula; o sobrinho da secretária de Paulo se chama Paulinho; uma garçonete se chama Paulina, etc.</p>
<p>O nome de Paulo varia conforme as pessoas o solicitam: Paulo vira Paul*, Pau**, Pa***, P****, branquelo, Belé, Belé porra nenhuma, Versatinho, exceção, Paulinho, Homem-feito, ming ming, o marido dela, seu malandrinho, aquele bundão, o doutor, o escritor de verdade, o torto, o homem realizado, etc.</p>
<p><em>O livro dos mandarins</em> também pode ser a história de uma viagem: a viagem de Paulo em missão secreta para o banco e seu retorno ao Brasil, transformado, ainda mais focado.</p>
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<p><em>Nada a dizer</em> transita por um universo mais rotineiro: uma mulher narra o abalo que sua vida conjugal sofre depois de uma traição. Ela e o marido trabalham em casa, como tradutores, já moraram no Rio, em São Paulo e em Vassouras, têm filhos, lutaram contra a ditadura, tomam café na padaria perto de casa, cultivam piadas internas, sofrem com vizinhos barulhentos e com a falta de espaço para os livros, falam ao celular, vão ao cinema.</p>
<p>Ao questionar seu relacionamento, a narradora passa a questionar também as vivências que formaram a base para que qualquer relacionamento fosse possível. Ela revisita sua infância e juventude e todos os pressupostos e cacoetes que, ela imagina, são inerentes a sua geração e, mais especificamente, ao seu gênero. Como na passagem em que ela resgata os ensinamentos da mãe:</p>
<p><em>Enganada, traída, largada para trás, igual a qualquer outra. Rá, rá. No olhar dos outros, inscrito o que minha mãe chamaria de destino de mulher. Nasceu com boceta? Vai ser enganada. Traída, humilhada. E o melhor é não ligar, minha filha. Levante o nariz e siga em frente.</em> (p. 140-141)</p>
<p><em>Nada a dizer</em> é engraçado, terno e sarcástico (<em>nasceu com boceta?</em>), mas a nota dominante é a melancolia e a incompreensão, que aparecem como frutos da traição (<em>traída, humilhada</em>). A narradora está cansada, assim como seu marido, e há sempre essa camada saturnina, deixando os movimentos lentos e previsíveis, como um lutador acima do peso.</p>
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<p>Em <em>Nada a dizer</em>, a narradora menciona o fato de N., a ex-amante de seu marido, ser vinte anos mais nova que ela – <em>nós, que completamos sessenta anos nesse início de século XXI.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Sua geração abriu, com muito esforço, uma porta que a geração de N. usufrui – a porta da liberação sexual. A narradora ressente-se do fato de que N. e sua geração aproveitam o resultado sem reconhecer o esforço necessário para que isso ocorresse.</p>
<p><em>Nada a dizer</em> combate esse esquecimento, combate esse pouco-caso. Suas armas são a memória e a linguagem, pois a narradora resgata não apenas a liberação sexual, mas também a luta contra a ditadura, o desafio de ter filhos, estudar, manter uma carreira e, ainda, administrar seus afetos diante do tempo que passa. E faz tudo isso a partir de uma linguagem complexa, oscilante, por vezes humorística, raivosa, resignada ou alheia, mas sempre móvel, sem certezas absolutas.</p>
<p><em>Nada a dizer </em>guarda uma relação estreita com a psicanálise e sua dinâmica – a narradora, inclusive, faz diversas menções à análise. Em certos momentos, a própria narrativa parece emular uma sessão analítica, em sua articulação brusca de analogias e no modo como expressa as fantasias:</p>
<p><em>Andava na rua como uma manicure andaria, olhando as coisas com olhos de manicure e sentando em ônibus com as costas curvadas de uma manicure. E até a trepada ficava mais fácil, porque, como manicure, a trepada era a trepada de uma manicure, e aquele lá, o dono do pau, era mesmo um escroto, só podia mesmo ser escroto. E era uma trepada, essa. Não boa. Nem ruim. Uma trepada de um escroto com uma manicure.</em> (p. 118)</p>
<p>O próprio título remete ao evento psicanalítico, em pelo menos dois caminhos: 1) “não ter nada a dizer” é, normalmente, a primeira tática de cobertura daquilo que foi recalcado ou que se configura como ameaça, ou seja, “nada a dizer” no sentido de “talvez seja perigoso seguir essa pista”, ou ainda “minha vida é comum, nada aconteceu de interessante” – o “nada a dizer” funcionando, portanto, como uma cortina de fumaça com a qual a ficção flerta e subverte simultaneamente; e 2) tal como acontece em <em>O complexo de Portnoy</em>, de Philip Roth, a frase final de <em>Nada a dizer</em> encena justamente esse esvaziamento radical que acomete toda narrativa que se ocupa de traumas nunca antes verbalizados – apesar de tudo que foi dito, e dito intensamente ao longo de muitas páginas, permanece a sensação de que o cerne do trauma ficou intocado.</p>
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<p>Milan Kundera, em determinado ponto de seu ensaio <em>A cortina</em>, fala que a porta do inverossímil foi aberta por Kafka e que, desde então, essa fronteira permaneceu sem vigilância, sem polícia, aberta para sempre. Dada a qualidade absurda da prosa de Kafka e a força de seu universo, essa abertura da fronteira do inverossímil se consolidou e hoje é moeda corrente. Muito daquilo que vemos em <em>O livro dos mandarins</em> participa dessa cena inaugural. Consta que Kafka leu Flaubert com atenção, ao lado do amigo Max Brod – e que debatiam horas a fio as soluções encontradas pelo escritor francês. O foco das discussões era como Flaubert conseguiu exaltar a grande arte, e reinventá-la, mesmo imerso em um assunto que abominava, mesmo rodeado de mesquinharia e banalidade. Essa fuga deliberada da zona de conforto é o que vemos também n’<em>O livro dos mandarins</em>.</p>
<p>O fluxo narrativo de <em>O livro dos mandarins </em>é repleto de situações absurdas e enervantes, mas seu estilo nunca perde a veemência – há sempre a noção de que o que está tomando forma ali é um artefato literário sofisticado, feito com rigor, por mais imbecil e escroto que seja seu protagonista:</p>
<p><em>Essa será outra frase muito reveladora do livro dos mandarins: o bom profissional, aliás o melhor de todos, é aquele que sabe reconhecer suas carências e, portanto, não vacila ao pedir ajuda enquanto se fortalece. Por isso, Paulinho enviou o artigo para a mulher Paula pedindo, com urgência, para ela repassar o texto para aquele tal parente que escreve e, parece, quer ser poeta, um negócio assim. Ela deve pagar-lhe alguma coisa, por favor, e deixar bem claro que se o serviço ficar bom, ele terá muitos outros, inclusive um livro mais adiante. </em>(p. 176)</p>
<p>Esse trecho condensa muitas das frentes de batalha que <em>O livro dos mandarins</em> cultiva: está ali a marca distintiva do “mundo dos negócios” e do profissional permanentemente focado; a literatura burocrática em suas mais variadas aparições; a forma com que o capital atravessa toda instância da vida social, desde o executivo competitivo até o projeto de poeta que revisa seu livro, etc.</p>
<p>Quem afirma que a frase é importante para o livro dos mandarins? Quem faz troça do sujeito que quer ser poeta, ou “negócio assim”? Quem pede “por favor”? Essa relação incestuosa entre a vontade de Paulo e a direção que imprime o narrador é das coisas mais irritantes de <em>O livro dos mandarins</em>. Trata-se, evidentemente, do recurso que reforça ainda mais os trechos humorísticos e os monólogos raivosos do executivo Paulo. É, enfim, o recurso que sustenta <em>O livro dos mandarins</em> – e pode-se dizer, também, que essa dificuldade auto-imposta no momento de narrar uma história seja responsável pela renovação da arte do romance.</p>
<p>*</p>
<p><em>O livro dos mandarins</em> vence porque ultrapassa a questão do estilo e o objetivo de contar uma história. <em>Nada a dizer</em> cumpre essas metas com excelência, sem, contudo, conseguir se desvencilhar de sua história linear e rotineira de casamento/traição/frustração/perdão.</p>
<p><em>O livro dos mandarins</em>, por outro lado, é um corpo estranho na história da literatura. Um organismo pernicioso que procura, deliberadamente, cavar buracos na letargia contemporânea, apodrecendo o cenário diretamente do interior. Trata-se de uma experiência estética sofisticada. Não há exatamente prazer na leitura – há, sim, desafio, ameaça, dissonância cognitiva. <em>O livro dos mandarins</em> é desconfortável, indigesto, trabalha em rede, não em linha. Abre portas.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-791" title="O livro dos mandarins" src="http://copadeliteratura.com.br/wp-content/uploads/2011/04/o-livro-dos-mandarins1.jpg" alt="" width="120" height="195" /></p>
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