As quartas de final prosseguem. Dois vencedores da fase anterior se enfrentam por uma vaga. Confere o jogo!
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Jurado: Antônio Xerxenesky
Blog / site: http://blog.antonioxerxenesky.com/
Sobre: É ficcionista, autor do romance Areia nos dentes (Não Editora, 2008; Editora Rocco, 2010). Finalizou, recentemente, o volume de contos A página assombrada por fantasmas, que será lançado pela Editora Rocco em 2011. Atua como editor na Não Editora, onde organiza a revista online de crítica literária Cadernos de Não-Ficção.
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A julgar pelas sinopses, estamos tratando de livros com premissas muito similares. Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron, narra a história de uma pessoa que viaja ao Egito em busca de um familiar. Azul-corvo, de Adriana Lisboa, narra a história de uma pessoa que viaja aos Estados Unidos em busca de um familiar. Mais ou menos por aqui acabam as semelhanças.
A capa de Do fundo do poço é poluída, propositalmente poluída¹; a capa de Azul-corvo é singela, leve, agradável. Do fundo do poço foi impresso no papel Pólen cor-de-areia, adequado para o deserto egípcio. Azul-corvo está num offset branco padrão que cansa um tanto os olhos².
Sobre Adriana Lisboa sei muito pouco. Nunca tinha lido um só romance dela. Um amigo me disse, ano passado, que Azul-corvo era seu melhor livro. Não sei o que pensar disso, posto que este foi meu primeiro contato com a prosa de Lisboa. Sobre a obra de Terron sei bastante, e acho que li praticamente tudo que ele já publicou em prosa (nunca fui muito de poesia). Sei que ele navegou pelo experimentalismo com Não há nada lá e suas bordas borradas; sei que ele afundou em um experimentalismo ilegível em Hotel Hell (que nunca consegui terminar de ler, de tão confuso e hermético). No território dos contos, ele ousou em duas direções diferentes: brincou de metaliteratura com Sonho interrompido por guilhotina e brincou de escritor sério e realista com Curva do rio sujo.
Por que estou falando tudo isso? Bem, porque meu julgamento do seu recente Do fundo do poço se vê a lua tem muito a ver com onde posiciono o livro em relação à carreira de Joca.
Isso pode parecer não fazer sentido, mas pensem comigo: se eu assisto ao filme Eles vivem (1988), de John Carpenter, sem nunca ter visto nada do cineasta, vou dizer: “uau, que filme maluco e criativo e ousado!”. Agora, se vejo esse filme já conhecendo obras-primas anteriores como Fuga de Nova York (1981) e O enigma do outro mundo (1982), vou achar que Eles vivem não é tão grande coisa assim. Ou então: vou entender/ler/interpretar o filme como uma mudança em certos paradigmas na obra de Carpenter – exploração de novos territórios, releitura de temas, e por aí vai.
A primeira coisa que escutei sobre o livro foi que Joca Terron tinha decidido dar uma guinada na carreira e virar um escritor mainstream (nesses termos), que agora ele seria um tiozão realista e daria continuidade ao que iniciou em Curva do rio sujo. Sobre essa suposta guinada falarei depois. Comecemos do início, falando do primeiro capítulo.
O primeiro capítulo de Do fundo do poço é um prato cheio para uma oficina literária. Colem na parede de exemplo: como escrever um primeiro capítulo. Ele faz tudo: define bem o narrador, o conflito, os dilemas. Abre dezenas de fios e não os fecha. Convence o leitor a encarar as 250 páginas seguintes contente da vida para assistir a todos esses fios narrativos se amarrarem.
O/a narrador(a). Se você leu algo sobre Do fundo do poço, sabe muito bem que o/a narrador(a) é um(a) transexual. A voz dele/a conduzirá toda a trama, portanto precisa ser uma voz bem constituída (e é). Esse novo “ponto de vista” revela-se extremamente refrescante. No cenário da literatura brasileira contemporânea, é muito raro se deparar com um narrador que não seja um homem branco, entre os 20 e 40 anos, de classe média. Não falo disso por convicções políticas, acadêmicas, ou seja lá o que for³. Digo isso porque é realmente refrescante, no sentido de “estou lendo algo diferente”, quando quem narra um romance se encontra em uma ponte entre dois sexos.
O Egito. Uma das críticas negativas feitas ao livro dizia, basicamente, que se fosse para mostrar aquele país cheios de estereótipos, de Cleópatra e quetais, o autor poderia muito bem ter ficado em casa e não viajado até o Egito. Sim e não. Joca Terron é um pós-modernista de carteirinha. Se ele vai falar de um Egito, ele levará em conta todo o lixo pop que nossa cultura engoliu acerca do lugar. Ele lidará com pirâmides, Cleópatra e até mesmo com todo aquele espírito “oriente médio exótico” presente em músicas da Siouxsie & The Banshees. O Egito de Joca se revela de uma artificialidade porosa: por trás dos estereótipos, irrompe uma realidade que nem o/a narrador(a) nem o autor parecem compreender. Talvez os clichês sejam justamente para isso, para conseguir dar um mínimo de sentido àquela experiência.
O contraste entre artifício/realidade reverbera por todo o romance. Os irmãos gêmeos William e Wilson são claros exemplos de referência explícita a uma obra externa (aquilo que uma semioticista búlgara chama de intertextualidade), o famoso conto de Poe. O livro está cheio disso: ao mesmo tempo em que Joca Terron compila e revê tudo o que já foi feito no mundo literário acerca da figura do duplo ou doppelgänger, ele tenta inserir o seu narrador como um novo elemento nessa longa série, um elemento seu, Terronesco. Um livro sobre como tudo já foi dito sobre os duplos que é, ao mesmo tempo, um novo livro, com novas coisas a dizer sobre os duplos. Fez sentido?
Do fundo do poço articula uma síntese entre as duas pontas da carreira do escritor: a metaliteratura e o realismo. E há o lirismo, sim!, em diversas passagens recordamos o lado poeta de Joca. A fusão dessas três coisas (metaliteratura, realismo, lirismo) acaba soando assim: “como escrever um livro erudito, cheio de referências literárias, e ao mesmo tempo extremamente humano”4.
Aí que entra aquilo que falei do “livro em relação ao restante da obra”. Enxergo claramente Do fundo do poço se vê a lua como o romance no qual JRT resolveu dois impulsos opostos de sua escrita. Trata-se de um livro maduro5, portanto.
Não quero dizer que a incursão egípcia de Terron não tenha falhas. Os finais de capítulo tendem ao brega e ao kitsch, com resultados variados. O livro perde alguma força narrativa lá pelo meio: sofre uma bela “murchada” e só se recupera por completo ao final. E, ainda assim, Do fundo do poço é um romance sólido, intenso, competente, importante no cenário atual brasileiro.
Talvez seja hora de começar a falar de Azul-corvo.
Tenho um método moderadamente Pollyanna de ler livros, especialmente para algo como a Copa de Literatura. O livro de Joca eu tinha lido pela primeira vez em 2010 (e reli para a Copa). Quando, por fim, abri Azul-corvo, eu estava torcendo, com todos os dedos cruzados, para que fosse sensacional. É uma tática meio bizarra essa. Não sei quem foi que disse que críticos literários6 leem literatura brasileira “de má vontade”. Para mim funciona ao contrário, leio sempre na esperança de encontrar um(a) novo/a grande autor(a). Foi com esse espírito que abri Azul-corvo e me deliciei logo de cara com o estilo de Adriana Lisboa.
Uma das primeiras coisas que percebi foi que a autora é familiarizada com teoria (que vago – “teoria”. Qual? Literária? Antropológica? Essas fronteiras estão cada vez mais difíceis). Dos “não-lugares”, de Marc Augé, aos Estrangeiros para nós mesmos, de Julia Kristeva, tudo está lá, em Azul-corvo, mas não perdido em referências diretas para impressionar o mundo acadêmico. Lisboa mastigou e digeriu bem essas leituras, de forma que a aparição de conceitos da filosofia contemporânea está bem disfarçada – ou melhor, bem inserida no texto, sem parecer postiça ou artificial7.
A internet também se apresenta com naturalidade no romance. Poucas coisas ficam mais esquisitas do que autor tentando colocar internet em literatura. Em Azul-corvo, a Wikipédia é tão ou mais natural que os animais que dão nomes aos capítulos. Isso muito me lembrou Como desaparecer completamente, romance de André de Leones que usa linguagens de blog sem nenhuma ruptura na fluência da trama. Os autores brasileiros estão finalmente lidando com a internet de um modo natural. Viva.
Wikipédia, teoria contemporânea. Tudo isso está harmoniosamente mesclado na prosa de Lisboa, que, apesar das modernidades, ainda parece nutrir uma paixão pelo clássico e eterno recurso das metáforas. O romance dela vai na contramão de tendências recentes de objetivismo e frieza (Como Bernhard? Certa fase de Coetzee? O Bolaño de 2666?). Dá para sentir que ela está se divertindo de montão8 com as palavras e com as metáforas. Para cada nascer do sol, para cada posição de nuvem, a narradora de Lisboa busca uma metáfora inesperada, surpreendente e adequada. Impossível dizer que Lisboa é uma escritora “iniciante”: ela já tem um estilo muito bem construído.
Mas – e eu nunca me imaginei dizendo isso – o estilo não é tudo. Quando o estilo alcança um nível sobrenatural, pode ser capaz de arrastar uma trama minúscula por páginas sem problema algum. Javier Marías me convenceria a ler a pior e mais insossa história do mundo, graças ao seu estilo. O estilo de Lisboa, no entanto, não carrega o livro nas costas. Literatura, para mim, precisa do incontornável “conflito”. Foi Vonnegut, acho, quem disse que, se a história narrada envolve uma pessoa buscando um copo d’água, algo tem que acontecer nessa busca. Precisamos de conflito, drama. O conflito de Azul-corvo até existe, está lá, embora seja explicitado um tanto tarde no livro (página 65, de 215): “eu ia para os Estados Unidos me hospedar com Fernando com um objetivo bem específico em mente: procurar meu pai”.
Tenho certeza que serei mal compreendido aqui, então tentarei ser didático. Não há nada de errado em adiar a aparição do conflito; Sergio Leone passa 40 minutos de Era uma vez no oeste desenvolvendo personagens para finalmente colocar a trama em andamento. Azul-corvo também adia o conflito e aquilo que acaba sendo o cerne do livro, a road trip da narradora Vanja com Fernando. Só que a cada página adiada, a empolgação com o romance diminui.
Falei, com muita admiração, sobre o primeiro capítulo de Do fundo do poço se vê a lua, que abre mil fios e não os amarra. O primeiro capítulo de Azul-corvo é radicalmente diferente. Composto basicamente de descrições, não nos dá nenhuma pista de para onde a história será levada.
As personagens que Lisboa constrói são reais, críveis. Os Estados Unidos dela é the real deal, não há estereótipos. A atenção da narradora a detalhes cria diversos momentos singelos. Há um verdadeiro prazer em ver o mundo pelos olhos de Vanja. E, ainda assim, é um prazer plácido, tranquilo.
Não podemos dizer que Azul-corvo não tem conflito. Ele tem personagens, suas rixas, seus desejos (ocasionalmente frustrados). Talvez não seja “conflito” que falte ao livro. Talvez seja – e lá vem uma palavrinha que me fará soar arrogante – pathos. Falta drama, perturbação, transtorno. Tomemos, por exemplo, o romance Todas las almas, de Javier Marías. Não acontece quase nada naquele livro. Talvez aconteçam menos coisas que em Azul-corvo. Mas Todas las almas é uma “história de uma perturbação”. O romance prende o leitor, forçando-o a acompanhar aquele mar de pensamentos incômodos para ver aonde isso vai chegar. Apesar de ter sido criado a videogames, tenho uma extraordinária paciência com livros e filmes lentos; não é o ritmo que atrapalha Azul-corvo. Se falta algo a Azul-corvo, é esse desconforto, esse transtorno. Admito: estou especulando. O estilo de Lisboa me encantou, mas o romance dela não me prendeu, e passei horas tentando entender por que isso tinha acontecido. “Conflito”, “pathos”: tentativas minhas de racionalizar essa falta de entusiasmo.
Tem um momento no livro em que a narradora tenta traduzir o conceito de smooth sailing: “O sentido era avançar sem dificuldades (…) Smooth era a qualidade lisa e acetinada das águas, sailing era o verbo da vela que inchava com o vento e cruzava oceanos inteiros.”. De certa forma, smooth sailing é a maneira como Azul-corvo navega. Um livro tranquilo que percorre o mar liso e acetinado do oceano. O problema é que com o embalo suave e gostoso do barco, o leitor pode acabar pegando no sono.
Vou fazer uma forcinha para não ser mal compreendido: Azul-corvo não é um livro ruim, nem necessariamente chato. Eu poderia (e gostaria de) falar muito sobre minhas leituras e interpretações do livro, sobre a questão do “pertencimento”, sobre família e nacionalidade. Acho que o romance de Lisboa renderia uma boa crítica (no sentido de “uma crítica literária”) preocupada em produzir sentido em cima do texto. A Copa de Literatura, no entanto, não parece o lugar mais adequado para isso. Aqui as pessoas pedem sangue, elas estão gritando na plateia (consigo escutar daqui) que querem saber o vencedor. E aí ganha o “agito no Egito” do Joca Terron, porque é o tipo de livro que você diz para o amigo, “Você tem que ler esse livro!”, enquanto do romance da Adriana Lisboa eu diria (talvez para minha orientadora no mestrado), “Acho que você vai achar esse livro interessante”. A diferença entre os dois é a diferença entre um romance explodindo de vitalidade e um romance muito bem escrito. A diferença entre o empolgante e o interessante. Pode ser porque sou jovem, porque jogo videogames, sei lá, mas, neste momento específico da minha vida, eu prefiro o livro empolgante.
VENCEDOR: Do fundo do poço se vê a lua, Joca Reiners Terron
NOTAS:
¹ Talvez seja a única capa que eu não goste do pessoal do Retina_78, designers dos mais interessantes.
² Você, leitor, talvez ache que a qualidade gráfica da edição nada tem a ver com a qualidade do livro. É, em parte, verdade. Mas, trabalhando numa editora, me acostumei tanto a avaliar edições gráficas que esses fatores mínimos acabam se tornando incontornáveis. Mesmo que eu esqueça da capa, é um primeiro contato com o livro, e isso pesa talvez em 0,03% do meu julgamento final sobre o volume.
³ Nada contra quem pratica isso, só não é meu tipo de coisa.
4 David Foster Wallace falava disso o tempo todo: aprender com os avanços dos modernistas e voltar a tratar das velhas questões humanas e morais dos “grandes mestres” realistas.
5 Que palavrinha asquerosa. Só consigo usá-la com itálico irônico.
6 Não que eu seja um crítico literário, claro. Todavia, estou travestido de um aqui na CLB.
7 O livro não faz o chamado name dropping para impressionar. Nããão. Quem tá falando de Marc Augé e Kristeva aqui sou eu, então se alguém pode ser acusado de praticar o horrendo name dropping, é este humilde resenhista. Mea culpa, mea maxima culpa etc.
8 “Divertindo” não é a expressão mais adequada. Tratando-se de escritores, “sofrendo” seria uma palavra mais precisa.













